• Acauam Oliveira

Silvio Almeida no Roda Viva: a representatividade negra como paradoxo performativo



O programa Roda Viva com Silvio Almeida foi um momento excepcional por diversos aspectos, mas em particular pelo curto circuito que sua performance provocou na própria concepção de representatividade que, a princípio, foi o que o levou a ser convidado para o programa, na qualidade de intelectual negro “especialista em racismo”.


O que pudemos acompanhar ao vivo, em primeira mão, foi algo que podemos classificar como PARADOXO PERFORMATIVO.


Podemos dizer que sua presença ali, por si só, é a prova de que a representatividade importa, e não é pouco: um intelectual da envergadura de Silvio - que se torna ainda maior em contraste com outros entrevistados recentes - é uma demonstração cabal do quanto a ocupação negra de todos os espaços, para tratar de todos os assuntos, é algo decisivo e fundamental.

Mas de qual representatividade estamos falando, afinal? Porque algo que Silvio fez questão de enfatizar ao longo do programa é que a presença dele e dos demais entrevistadores negros e negras naquele e em outros espaços é importante, porém não SUFICIENTE. Aliás, ficar apenas nisso é um truque velho e bastante conhecido, não só por aqui (basta lembrar que George Floyd é morto em um contexto pós-Obama, talvez o exemplo que melhor encarne o conceito de representatividade no sentido liberal americano).

Em certo sentido, portanto, sua presença ali é um contrassenso, ou antes, um PARADOXO, que se organiza enquanto um lugar ao mesmo tempo POSSÍVEL (porque é só a partir da existência do negro que esse lugar pode se constituir) e IMPOSSÍVEL (porque as coordenadas do presente são orientadas para sua não consolidação). Sim, Fanon – o cara - na veia. De um lado, ele é a expressão viva do potencial que emerge quando negros e negras rompem à força o sistema de entrincheiramento e proteção dos brancos, também conhecido por racismo estrutural. Por outro lado, sua fala evidencia a cada momento, e pelos mais diversos ângulos, que a conjuntura presente se organiza de modo a tornar aquele ponto de vista impossível de ser enunciado, como se só pudéssemos falar por entre sombras e ruínas do presente.

Eis o paradoxo: sua performance configura um lugar ao qual todos os negros e negras tem condições de habitar, a radicalidade e complexidade de um modelo de pensamento que só pode ser produzido a partir de uma perspectiva ABERTAMENTE negra, comprometida com essa comunidade virtualizada que se materializa a cada palavra. Contudo, as condições de difusão dessa potência não estão dadas no presente por conta do racismo estrutural que existe justamente para evitar sua irrupção. Nada a ver, pois, com incapacidade – e é justamente a potência desse lugar que nutre a atuação de tantos dos sujeitos citados por Silvio ao longo de sua fala, e tantos outros como Brown, Emicida, Lélia, Elza, Guerreiro Ramos, Milton Santos, Sueli Carneiro, Kabenguele, dona Alzira, etc. – mas tudo a ver com um sistema de organização nacional orientado para que essa potência não se configure e, ao se configurar, não seja reconhecida (é só lembrar das sucessivas acusações feitas ao longo do programa de que o movimento negro brasileiro pecaria por omissão, todas contestadas pelo entrevistado). Um discurso que emerge enquanto impossibilidade. Puro corpo que sobrevive. Voz de mulher no fim do mundo, reencarnada.

“Ele tinha um certo dom pra comandar \ Tipo, linha de frente em qualquer lugar \ Tipo, condição de ocupar um cargo bom e tal \ Talvez em uma multinacional (é foda) \ Pensando bem que desperdício \ Aqui na área acontece muito disso\Inteligência e personalidade \ Mofando atrás da porra de uma grade” (To ouvindo alguém me chamar)

É esse o fundamento da torção do conceito de representatividade LIBERAL elaborada pela performance de Silvio. Certamente ele foi convidado pelo programa para servir como prova testemunhal de que a TV Cultura está preocupadíssima com a representatividade multicultural. Assim como tantos outros influenciadores que recentemente “cederam” seus espaços para ser ocupado por vozes negras (em geral, mediante trabalho não pago). O figurino exigido pela ocasião foi seguido à risca, e a bancada compunha-se quase que exclusivamente de jornalistas e escritores negros e negras. Tudo pronto para se tornar mais uma MICARETA CULTURAL.

A genialidade de sua performance consistiu em NÃO PERMITIR em nenhum momento que sua voz fosse REDUZIDA a condição de “especialista em racismo”, como algo que se refere exclusivamente aos problemas particulares da comunidade negra e meia dúzia de brancos raivosos com problemas patológicos. Pois o racismo não é uma questão EXCLUSIVA dos negros. Sequer fomos nós que o criamos. Ele é uma estrutura, a “manifestação normal da sociedade” que serve como ponto de partida para a compreensão de TODOS os principais problemas do país. Aliás, pode-se dizer que o racismo estrutural é o que define o Brasil enquanto projeto, “o sentido, a lógica e a tecnologia para as formas de desigualdade e violência que moldam a vida social contemporânea”. É o mecanismo que fornece a chave de compreensão para a realidade brasileira em seu conjunto (e não por acaso o RAP dos anos 1990, que tem uma percepção muito clara desse ponto, acerta em tantos dos seus prognósticos, tornando-se um dado cultural incontornável) e o que torna a superação do racimo a agenda política fundamental de nosso tempo.

Nesse sentido a REPRESENTATIVIDADE – enquanto imagem de uma posição a qual TODOS os negros tem condições de alcançar, mas cujo acesso encontra-se bloqueado – assume outro sentido para além de seus limites liberais, deslocando-se das coordenadas do presente para se configurar enquanto horizonte futuro, UTÓPICO, a se construir, resultado de uma luta antissistêmica mais ampla, que envolva toda uma agenda pública nacional. A representatividade deixa de ser algo que possa ser conquistada dentro de nosso atual sistema democrático neoliberal, para se articular enquanto processo de ruptura radical.

Silvio Almeida no Roda Viva foi um ACONTECIMENTO paradoxal porque sua atuação primorosa revelou para quem quisesse ver a potência de um grande pensador negro BRASILEIRO, e o que pode efetivamente vir a acontecer ao PENSAMENTO NACIONAL caso o Brasil deixe de ser o que é: uma fábrica de produzir cadáveres negros. Basicamente, esta seria a ÚNICA forma de nos tornarmos um país decente, pois o que de melhor o Brasil tem oferecido ao longo de sua história é sempre resultado da resistência (negra, feminina, indígena) a seu próprio projeto. O país, contudo, se esforça ao máximo para evitar a todo custo que isso aconteça. Um país que deliberadamente compromete seu futuro para NEGAR à comunidade negra o que é seu por direito.

O paradoxo performativo em questão foi, pois, a exibição de um pensamento negro brasileiro absolutamente complexo que, no momento mesmo em que é ENUNCIADO, revela a necessidade de se acabar com o Brasil para que ele possa efetivamente vir a EXISTIR. Uma vez mais a confirmação de que o que de melhor se pode fazer pelo Brasil - aquele da estátua do Borba Gato, e não aquele do samba, que resiste ao Brasil - é destruí-lo.