• Breno Longhi

Bossa Nova: Nostalgia de um Futuro Possível

Updated: Aug 4


Quando a vieram me falar dessa história de "Shallow Now", eu respondi que não queria nem saber de bobagem nenhuma de música enlatada, que a música original já era uma porcaria, e não sei mais o que...

Mas mesmo assim fiquei pensando no que a Paula Fernandes disse sobre "o português não ser uma língua muito melódica", e quanto essa fala é típica do momento maluco que a gente está vivendo, em que o símbolo paradoxal do novo nacionalismo é o entreguismo. O Ministro da Economia prometendo vender o Palácio do Planalto com tudo dentro.

Acho que o Brasil foi o país do futuro por tanto tempo, que agora é tipo "O País do Futuro do Pretérito".

Em retrospecto, não consigo deixar de pensar no mundo edulcorado da Bossa Nova, quando existia outro Brasil, uma nação influente pelas artes e pela liberalidade de seu povo, que prometia ser a cara de um planeta mais ensolarado, "sem racismo", com lindas mulheres em trajes mínimos imunes ao câncer de pele nas paradisíacas praias do Rio de Janeiro.

Enfim, toda aquela conversa que anda meio esquecida, saiu de moda, ou foi devidamente desmentida pelo governador em seu helicóptero, dando rasante em favela e mandando atirar em trabalhador preto e pobre.

E me lembro das capas de revistas do Irã pré-revolucionário, com moças sorridentes carregando seus livros para mais um dia de aulas na Universidade. Eu as imagino ouvindo Googoosh, a rainha do pop iraniano, cantando من و تو (Eu e Você) - a música que introduziu a Bossa Nova ao público persa - e isso me dá uma tristeza...

Sinto a nostalgia de um futuro possível.

Pensando nisso, viajei longe em busca de músicas influenciadas pela Bossa Nova, e por esse outro Brasil cada vez menos possível. As canções foram gravadas entre o fim dos anos 50 e meados dos anos 70 em várias partes do mundo, desde EUA e Europa, até Japão e o Peru, passando por lugares estranhos como a Estônia e Armênia soviéticas, o Líbano e o Irã pré-revolucionário. Os ouvidos atentos vão reconhecer uma versão de "Nanã Imborô", do José Prates, que chegou à Polônia e foi regravada pelo Wroblewski Jazz Quintet antes mesmo de Jorge Ben compor "Mas que Nada", com uma melodia muito parecida, alguns anos mais tarde.

Também tem um bocado de português macarrônico, com sotaque peruano, sueco e belga. E umas coisas bem experimentais, como o Luigi Zito, e sua Bossa Astratta, e o Derboukas, com a Camel Bossa.

Mas a cereja do bolo dessa coletânea, testemunho máximo do alcance da Bossa Nova, é a música gravada pelo grupo Arirang, composto por refugiados coreanos, realocados pela União Soviética para o interior do Cazaquistão. Em "Alegria Primaveril", posso jurar que eles estão cantando muito felizes sobre uma sopa fria de pepinos. Cada um tem o Brasil que pode ter.

CLIQUE AQUI PARA OUVIR A COLETÂNEA

01 – Hide & Rosanna – Midnight Bossa Nova (Japão)

02 – Ingfried Hoffmann – Midnight Bossa Nova (Alemanha)

03 – Luigi Zito – Bossa Astratta (Itália)

04 – Derboukas – Camel Bossa (França)

05 – Uno Loop – Märtsis Mai (Estônia)

06 – Googoosh – Eu e Você (Irã)

07 – Mostra Colletivo - Sfumature V1 (Itália)

08 – Novi Singers – Nastepny Prosze (Polônia)

09 – The Gimmicks – Dance the Samba (Suécia)

10 – Bossa 70 – Birimbao (Peru)

11 – Nico Gomez & his Orchestra – Din! Din! Din! (Bélgica)

12 – Googie Rene & His Combo – Bossa Baby (EUA)

13 – Hozan Yamamoto – Kisobushi (Japão)

14 – Wroblewski Jazz Quintet – Nanã Imborô (Polônia)

15 – Mary Roos – Blauer Montag (Alemanha)

16 – Arirang - Vecenniy Radosty (Cazaquistão / Coréia)

17 – Ziad Rahbani – First Introduction (Líbano)

18 – Tovmas Gevorkyan – Bossa Nova (Armênia)

19 – Nannie Porres – Med Ogon Kansliga for Gront (Suécia)

20 – Live Barashkov – Kogda idut dozhdi (URSS)

21 – Chico Buarque & Ennio Morricone – Lei No, Lei Sta Ballando (Brasil / Itália).

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