• Fernanda Ventomadeira

Demasiadamente Humano: o Escândalo Prem Baba


O textão que segue foi um vômito-síntese de reflexões que venho fazendo sobre sexualidade feminina, figuras de poder, relações de abuso e a corrente abordagem feminista desses temas, e também, nesse caso específico, o tema da espiritualidade. O gatilho foi a notícia que invadiu os tabloides da classe média namastê (na qual me incluo, como praticante de meditação e yoga) com a manchete da Mônica Bergamo: “Discípulos acusam guru espiritual Prem Baba de abusar de mulheres.”

Pra quem não conhece, Prem Baba é um brasileiro que se tornou guru de uma linhagem hinduísta chamada Sachcha, e vem há anos aumentando seu grupo de seguidores no Brasil e em outros países, e especialmente na classe alta e média paulistana. Seu canal no Youtube tem mais de cem mil seguidores e apresenta vídeos sobre amor, medo, meditação, entre outros temas universais. Além disso, ele é autor de livros que aliam sabedorias e práticas orientais a saberes da psicologia ocidental com notável talento de síntese e numa linguagem acessível, proporcionando ferramentas espirituais para a vida contemporânea. “Propósito: a coragem de ser quem somos” e “Amar e ser livre” estão entre seus títulos mais populares. Prem Baba por vezes foi alvo de críticas por supostamente atender a um público elitizado e por ter criado uma marca comercial, oferecendo retiros caros ou vendendo pulseiras de ouro com seu logo “Awaken Love” (amor desperto).

O escândalo da semana, noticiado pela grande mídia, foi deflagrado pela denúncia do ex-marido de uma de suas discípulas. Segundo reportagem da Mônica Bergamo, o casal havia procurado o guru numa crise conjugal para tentar salvar o casamento, e aos poucos Prem Baba teria passado do aconselhamento a exercícios tântricos exclusivamente com a discípula, o que teria então evoluído para relações sexuais que se mantiveram por dois anos. Passado muito tempo, o casal tendo vindo a se separar de fato, essa discípula teria sofrido de crises de pânico e depressão e, num tratamento psicológico convencional, teria descoberto que aquilo que ela acreditava ser um tratamento era na verdade um abuso de poder da parte do mestre para engajá-la em relações sexuais. Ela teria procurado o ex-marido para dividir com ele essa descoberta e ele, por sua vez, deflagrou a denúncia que virou essa merda no ventilador com ares de novela mexicana que a mídia carniceira adora. E que as redes sociais parecem adorar ainda mais.

Primeiro, assim como no caso do Idelber Avelar, é difícil determinar o grau e o como do assédio, seja sexual e/ou moral, porque se dá numa relação aparentemente consentida, em que há como pano de fundo uma relação de poder entre o homem e a mulher (guardadas as especificidades de cada caso e contexto, que até agora indicam que o caso do Idelber era bem mais trash). No fim das contas, quem poderá avaliar de fato a situação são apenas os envolvidos, num confronto mais ou menos sincero de suas versões. Caso não haja sinceridade e haja crime, caberia à justiça obrigar que a parte responsável pagasse seu cheque com relação ao outro.

Mas sabemos que a justiça no Brasil não é eficaz, nem imparcial, e embora tenhamos o gosto por bater recordes de contradições e barbáries, desconfio que a justiça nunca foi acessível e simples em lugar nenhum. Assim sendo, algo que sempre foi efetivo até certo ponto é o velho hábito de avisar as amigas (e amigos) quando um homem tem um comportamento abusivo. Na atual era digital essa forma de proteção foi em parte cooptada por um neurótico e depressivo tribunal virtual, a meu ver nem sempre efetivo e também imparcial, e que por vezes tem gerado mais confusões do que encaminhado discussões e soluções aos problemas de gênero. O próprio mecanismo de vitrine superficial das redes sociais induz a reducionismos, e uma certa leitura do feminismo, a meu ver superficial e distorcida, se popularizou nesse formato. Se algumas campanhas virtuais foram importantes e muitíssimo úteis, como a do primeiro assédio (mudou minha vida), outras nem tanto, e vi muitas situações de denúncias em forma de linchamentos públicos virtuais, com recusa ao diálogo com os envolvidos ou mesmo com suas amigas, que não se mais ajudam ou atrapalham. Sinto que os homens mais legais (os que se preocupam em ser éticos com relação ao outro mesmo tendo sido formados na cultura machista e carregarem suas estruturas) estão acuados e tensos, por vezes perdidos em relação ao próprio erotismo, e os sacanas de sempre estão piores ainda, malucos com seu modus operandi sob ameaça. Os fetiches e abusos saíram dos puteiros, dos segredos sórdidos de família, e ganahram as ruas: que seja essa uma fase de expurgo necessária à toda mudança, porque gente, tá difícil e todo mundo sabe.

"O vuco vuco do Prem Baba diz respeito a ele, às discípulas dele, aos maridos dessas discípulas e, no máximo, à sua comunidade de seguidores".

Nós mulheres sabemos muito bem que em situações de abuso dessas mais tortuosas como parece ser o caso do nosso guru, quando há aparente consentimento e manipulação, dá muita raiva e vontade de difamar o cara para impedir que o canalha siga por aí aprontando (ou mesmo pra se vingar, afinal somos humanas como qualquer homem, e temos muito para vingar). Mas diante do que se tornou o tribunal virtual, tenho achado que avisar as amigas pessoalmente talvez ainda seja mais efetivo e menos devastador para a alma e para a reflexão sobre as relações sexuais entre os gêneros. Acho válido pensar muito bem antes postar algo nas redes sociais, e não parar por aí: conversar francamente sobre esses assuntos com amigas, amigos e familiares, procurar ajuda psicológica e fazer aulas de auto defesa. Bora mulherada. Bora ficar ligera.

Isso em conta, eu acho que o vuco vuco do Prem Baba diz respeito a ele, às discípulas dele, aos maridos dessas discípulas e, no máximo, à sua comunidade de seguidores. E a um encaminhamento jurídico se for o caso, mesmo com todos os dissabores de nossa justiça capenga. Porém ele é uma figura pública do adolescente meio espiritual Ocidental, e se já era controverso pela sua preferência por discípulos endinheirados, agora se torna controverso por mais uma razão, numa semelhança cada vez mais patética com o que houve de patético em Osho. Vamos tentar aproveitar o episódio então para refletir para além do escândalo, que é o melhor modo que os não diretamente envolvidos podem ajudar em acertos de contas.

Segundo ponto: as tradições espiritualistas e religiosas do Oriente são riquíssimas, cheias de contradições e se desenvolveram por milênios em um contexto diverso do nosso, e diverso entre si. Conhecer essa tradição - na consciência de sua alteridade -, beber dela, aprender com pessoas mais experientes, sejam monges, filósofos, estudiosos autodidatas, pode ser muito interessante e é da trajetória de cada um. Eu mesma faço isso. Agora, quero deixar bem claro minha posição: GURU É UMA MERDA. Colocar alguém na posição de guru é um erro de saída, que faz parte da nossa precária estrutura dos afetos humanos, e tirar o guru dessa posição faz parte do início das aventuras mais interessantes. O magnetismo de uma figura que emana amor, paz, gratidão, beleza, vem a calhar muitas vezes com nossos egos destroçados e pode de fato ajudar a curar feridas, resgatar afetos, recuperar a vitalidade (eu mesma sei o que é isso), mas colocar essa figura num pedestal é colocar-se vulnerável a cair no mesmo buraco em que se estava assim que aparecer a primeira face decepcionante da figura. É difícil ver o pedestal do Outro vazio. Esse outro que faz brilhar os olhos, que aquece o peito, o ventre, que nos abraça e nos alimenta e de quem sempre dependemos em alguma medida. O paradoxal ciclo dos afetos do outro, que o muitas correntes orientais procuram quebrar ao propor a solidão, a meditação, a asuência de desejo, o celibato -- que também não sei se seria a solução para todo mundo, tanto que linhagens no Japão flexibilizaram o celibato porque os monges o burlavam às escondidas. Esperar solução para esse paradoxo talvez seja o primeiro equívoco.

Espero sinceramente que o casal que está vivendo esse conflito com seu guru perceba a preciosa e difícil oportunidade que estão tendo de tomarem para si mesmos a força da vida e suas vicissitudes, ao invés de beijar os pés de seu mestre em devoção a um iluminado que está fora.

Religiosidade é uma característica humana, fanatismo também

Na nossa versão Ocidental classe média da espiritualidade Oriental, se por um lado há maior liberdade, por outro se perde o peso da tradição, dos anos de dedicação e do lugar do mestre como um elo na cadeia de transmissão entre as gerações, e ganha força a figura do guru num viés cada vez mais personalista, do sujeito individual, genial, bom orador, magnético, sedutor, iluminado... E bom de cama. Não sei bem o que na Índia significa a figura do guru, mas sei razoavelmente bem o que ela pode significar aqui na classe média e alta brasileira alternativa, influenciada pela americana dos anos 60 e 70. Todavia é bom lembrar que o problema do personalismo não é exclusivo desse meio, mas perpassa toda a sociedade e historicamente é impossível perseguir todas as suas raízes. Muita gente adora "desmascarar" o lado ridículo dessa onda new age hipster (o sucesso da série sobre o Osho se apoia muito nesse prazer meio sádico), mas cabe recordar que farsas fazem parte das nossas estruturas humanas há milênios: quantos artistas cuja obra é genial não abusaram de suas relações pessoais? Quantos mestres, quantos líderes, quanto cientistas, quantos médicos? Quem não possui máscaras nem incoerências que atire a primeira pedra no mar, que o fundo é largo e profundo.

Religiosidade é uma característica humana, fanatismo também, nem sempre elas estão juntas e por vezes a ciência também se torna objeto de fanatismo ou de interesses. Tirar o véu da Matrix é um trabalho constante, até segunda ordem. Tentemos tirar nosso véu de hoje, ou melhor, olhar detidamente para ele.

O que conduz ao terceiro ponto: acho que nós, mulheres, mas não só, precisamos fazer uma reflexão mais detida e franca sobre como estamos concebendo o lugar da vítima na sexualidade e no feminismo, se queremos de fato a liberdade. Na época do caso do Idelber Avelar, a Karina Buhr escreveu um texto polêmico se perguntando porque uma das mulheres que acusava o Idelber se dizia abusada se ela quis transar com ele voluntariamente para sentir-se "poderosa", e continuou em contato com ele depois da revelação de sua face perversa e fetichista. Acho que o texto da Karina talvez leve o fiel da balança demais pra esse lado, podendo ser lido como uma responsabilização da vítima, mas acho que chama atenção pros nós mais difíceis para o feminismo explorar, aqueles também mais importantes e que vêm sendo recalcados pelo modus-operandi das denúncias em redes sociais. Fique nomeado o nó: a atração sexual de mulheres por homens com poder ou por homens violentos, perigosos; a dificuldade de romper o vínculo imediatamente após a descoberta do abuso; a dificuldade de perceber uma situação de exploração e depois de passado tempo demais o recurso a uma posição de vítima absolutamente indefesa. Eu acho que o lugar da vítima indefesa, dessa vítima absoluta, além de não corresponder ao que acontece em boa parte dos casos, não nos ajuda, a nós mulheres, a realmente construirmos nossa autonomia. Nem as mulheres que estão sob ameaça de morte, com medidas cautelares e processos correndo contra homens vilentos e femicidas (tenho amigas e conhecidas nessa condição), devem se ver e ser vistas como vítimas absolutas e indefesas, por mais tétrico que seja seu pesadelo cotidiano. Todo pesadelo pode ser alimentado ou amenizado, e até pode chegar ao fim. Nós temos margem de reação, nós temos como nos defender, estamos construindo cada vez mais redes para isso, estamos construindo formas de defesa tanto legais como físicas e psicológicas, estamos construindo nossa autonomia financeira e existencial. E reza a lenda que, se somos seres de relação, o outro lado vai sentir os efeitos de um jeito ou de outro, e se realinhar de um jeito ou outro, com todos os percalços e maluquices do caminho. E as vítimas também tropeçam.

A autonomia é essa tal travessia infindável cheia de abismos, monstros e solidões, que às vezes é insuportável e sem perceber caímos na tentação de projetar no outro a fonte de todas as feridas, usar um outro para confortar nossa solidão insuportável até que o conforto vire outra coisa e possamos acusá-lo disso. E assim por diante e blá blá blá tudo isso que o Prem Baba e tantos outros gurus, religiões e auto-ajudas tentam ensinar quando é impossível ensinar isso. O mesmo vale para os homens, nesse ciclo mais velho que andar pra frente em que estamos enredados, e que não só a literatura religiosa como a laica, a erudita e a popular tentam entender, explorar, resolver ou, simplesmente, viver (a única coisa que de fato resta).

O livro mais lido do mundo na última década (por um público majoritariamente feminino) é sobre uma jovem inexperiente apaixonada por um homem rico, poderoso, lindo e sadomasoquista, amorosamente confuso e cada vez mais caído por ela, tentando domar a ela e a si mesmo sem muito sucesso, mas com algumas belas fodas. Precisamos admitir essa figura como estrutural de nossos afetos, nos revirar e nos entender um pouquinho que seja, ao invés de continuar apenas apontando o dedo na cara do outro e enumerando seus crimes. Esse outro que nos desafia e nos atrai. E que tenta nos domar, nós, as outras, terrivelmente ameaçadoras quando livres do jugo.

Não duvido que Prem Baba tenha se aproveitado do fascínio e da confiança irrestrita (ingenuamente irrestrita) de sua seguidora para viver uma relação sexual/amorosa assimétrica com ela

Não duvido nada que Prem Baba tenha, consciente ou inconscientemente, se aproveitado do fascínio e da confiança irrestrita (ingenuamente irrestrita) de sua seguidora para viver uma relação sexual/amorosa assimétrica com ela, e ele deve ser responsabilizado por isso. Juridicamente não sei se é possível enquadrar isso como alguma forma de assédio, mas dentro de sua comunidade ele já está sofrendo as consequências, e sua imagem pública, tão rentável, também. Contudo, seus seguidores também devem olhar para si mesmos e se responsabilizar por suas escolhas: não no sentido de se responsabilizar pela irresponsabilidade do seu líder e sua eventual filha da putagem, que é a inversão que o machismo e o conservadorismo costumam fazer, mas no sentido de atravessar a fronteira do bem e do mal que nos habita na figura de um outro. Segundo a matéria da Monica Bergamo (que não sei o quanto é confiável, então tomo-a também como ficção reveladora de nosso inconsciente coletivo) os maridos das discípulas abusadas (e não elas prórias) acusaram Prem Baba de ser “o pai do amor que não sabe amar”, ingenuamente acreditando que os pais saibam amar, e saibam o que é amor, quando na verdade estão apenas tentando e até Renato Russo avisou (“você culpa seus pais por tudo/ isso é um absurdo / são crianças como você / o que você vai ser quando você crescer”). Com essa acusação, denunciam-se a si mesmos como adolescentes que precisam de figuras paternas poderosas para encontrar o amor dentro de si mesmos – e tudo bem, porque isso somos nós, terrivelmente humanos, comicamente humanos.

Acusam-no também de ser o “pai da verdade que mente compulsivamente”. Bom, começa estranho acreditar na verdade, a famigerada verdade, e talvez esses fiéis não percebam que estão sendo presenteados com uma grande verdade sobre seu mestre: suas mentiras. Desembaraçar amor de ilusão, desafio no limite impossível no qual infinitamente nos lançamos para redescobrir amor na ilusão, verdade na mentira e vice-versa , o tecido delicado de que somos feitos, a insustentável leveza do ser, o patético da existência, o cinismo, e de novo o quanto a gente ama e ama e ama e quer viver, mesmo sob as pressões surreais dos tempos atuais...

Como sugere Zizek no vídeo sobre a Matrix, enxergar não a realidade por trás da ilusão, mas a realidade da ilusão. Uma coisa que eu sempre estranhei na pouca liturgia zen budista que conheço é que fala-se que tudo é ilusão, e de repente a natureza Buda surge como a única verdade. No entanto a natureza Buda é vazio. O zen parece ser a artimanha dos paradoxos. Paradoxos e, mais que eles, vazio e meditação. Você e sua respiração.

Respirem, discípulos, pois a natureza Buda são essas mentiras que vocês acusam em vosso mestre e negam em vocês mesmos.

E, para além e aquém delas, o mar bravo, o pé na areia.

PS. Fica a dica: leiam Prem Baba, leiam Machado de Assis, leiam a Bíblia, leiam Clarice Lispector, leiam Idelber Avelar, mas antes de manter uma relação sexual de dois anos com um padre, um guru, um pastor, um escritor, um instrutor de yoga, um professor universitário ou um multimilionário, lembrem-se que eles são humanos, demasiadamente humanos.


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