• Thiago Cazarim

Dez petiscos para fazer com (ou sem) palmito


Relacionamentos inter-raciais, entre pessoas de gêneros distintos, cis e trans, com e sem deficiência, com sorologias diferentes, gordas e magras, sulistas/sudestinas e nordestinas; entre quem mora na cidade e no campo, na capital e no interior; que possuem níveis de escolaridade e renda, faixas etárias ou formações culturais diferentes; (e a lista é infinita...): estes são sempre relacionamentos assimétricos na medida em que cada uma das partes carrega em si um peso distinto numa História de opressões. Em todos esses casos, e em quantos outros houver, é impossível não supor a necessidade de muita desconstrução, cuidado, autocrítica, transformação de ações, linguagem e pensamento. Também é inegável pensar que há processos em andamento de perpetuação de opressões e que os relacionamentos, muitas vezes, se tornam espaços em que tais processos seguem firmes e fortes.

Tudo isso posto, vale dizer que o número de pessoas que (brancas e negras) que estão de saco cheio dessa história de “palmitagem” não está no gibi. Várias delas têm tido suas vidas expostas, ridicularizadas, dissecadas em público sem nenhum cuidado por parte de uma minoria, mesmo assim barulhenta, que se arvora em juizado político, moral e dos costumes. Embora certas problematizações chiques tenham um gosto mais artificial do que aquelas “cerejas” feitas de chuchu, talvez seja possível tornar essa discussão minimamente palatável.

1) Palmito é uma delícia. Não bastassem terem entregado à direita um dos salgadinhos mais deliciosos – a fabulosa e imbatível coxinha –, ainda querem fazer do pobre palmito um índice de ofensa.

2) O argumento de que a miscigenação foi um projeto para acabar com a identidade negra está correto, mas a conclusão de que os relacionamentos inter-raciais, hoje, seriam a perpetuação desse ideário é, por assim dizer, realizar um salto com vara epistemológico e analítico considerável. O que não quer dizer que a afirmação do relacionamento afrocentrado, homossexual, entre pessoas com deficiência, entre pessoas trans etc. não tenha um caráter político importante e ajude a enfrentar os sistemas de exclusão que nos mantêm marginalizados. Assim, não se trata de fazer nenhuma defesa particular da liberdade dos brancos amarem pessoas negras sem serem importunados. Apenas proponho olhar com mais pragmatismo e politização, e menos moralismo, para o fato de que relacionamentos inter-raciais existem e continuarão a existir para além de quaisquer perspectivas centradas sobre grupos nos quais as identidades recíprocas jogam um papel determinante.

3) O argumento (razoável) em torno do que se nomeou “a solidão da mulher negra” deveria servir para pensar esse problema específico – a dissimetria interseccional raça/gênero/classe que os homens negros heterossexuais acabam por reproduzir num sistema em que as mulheres brancas são vistas como prêmios e signos de ascensão social. (Problema racial, mas também de um machismo duplo: pela inferiorização da mulher negra, pela objetificação da mulher branca.) Pular disso para “palmitagem” como fenômeno geral, como acusação para qualquer relacionamento inter-racial é no mínimo precipitado.

4) Pessoas em condições iguais de gênero, classe, raça, para compartilhar vivências, precisam negociar enormemente, possivelmente menos do que quando essas dissimetrias são muito marcadas. De toda forma, mesmo nestes casos precisam se empenhar em desconstruir os preconceitos que todos nós introjetamos sem querer. Os sistemas de opressões operam de tal forma que todos nós os absorvemos e reproduzimos em algum grau – daí que todos devemos sempre estar empenhados em desconstruí-los, ainda que nossas participações neles difiram consideravelmente. Aí poder surgir uma contra-argumentação: “pelo menos eu não quero ter o trabalho de desconstruir certas coisas com quem estiver me relacionando”. Este pode ser um limite pessoal que deve ser respeitado sempre, mas isso remete à dimensão individual do cansaço, do que se pode escolher deliberadamente, e no mínimo deveria levantar uma pergunta: até que ponto nossos relacionamentos podem ser marcados pela escolha deliberada? Ter que se colocar em posição de deliberar sobre dar ou não vazão a um afeto já não é entrar no mundo do recalque, da castração, do sofrimento psíquico? Essas são reflexões bem importantes, me parece.


5) A lógica por trás da acusação de “palmitagem” me parece reciclar o argumento de certas linhas feministas das décadas de 1960 - 1970 que diziam que uma relação entre homens e mulheres sempre trará a marca do estupro, pois nunca pode haver relações livres entre pessoas em posições assimétricas. Uma parte deste tipo de argumento está correta: as relações entre diferentes são assimétricas e trazem sempre marcas (latentes ou explícitas) de violência. Isso, porém, não quer dizer que a única forma de viver esses tipos de relacionamento seja pela reprodução das marcas de violência, o que remete aos dois pontos anteriores: não é porque o Gilberto Freyre possa ter idealizado a mestiçagem como política social de embranquecimento que os relacionamentos inter-raciais necessariamente precisem continuar essa lógica. O mesmo vale para relacionamentos entre homens e mulheres etc.

6) Pessoas negras podem reproduzir opressões variadas: de classe, gênero, capacitismos, homo/lesbo/transfobia, gordofobia etc. De que adianta a “crítica” da “palmitagem” quando a raça é desligada dos demais elementos que constituem um sujeito que se vai analisar?

7) Se é que esse sujeito deva virar objeto de análise e escrutínio público. 😎

8) Construir um sujeito que é idêntico em todas as instâncias de sua vida é realmente um projeto factível? Quero dizer: é possível que todos os caracteres de uma militância sejam transferidos para um relacionamento, para um vestuário, para uma relação de si a si mesmo, aos modos de escrever e analisar o mundo? Vejam, não se trata de defender que há instâncias apolíticas, mas de pensar até que ponto é possível politizar tudo a partir de um mesmo impulso, sob uma forma idêntica, sem fissuras, sem contradições aparentes.

9) Se você leu até aqui, deve estar se perguntando: “qual o lugar de fala de pessoas brancas pra falar de ‘palmitaria’?”. Estar em relacionamentos inter-raciais não torna brancos menos racistas, mas estas pessoas – dentre as quais me incluo – também percebem o mundo de um lugar que quem não ocupa não pode perceber. Pode ser bastante válido ouvir o que pessoas que viram alvos residuais, colaterais do juízo sobre a “palmitagem” têm a dizer, mesmo que não precisemos ser o centro das atenções nas discussões sobre o assunto.

10) Não esqueçam, palmito é uma delícia.

#palmitagem

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