• Fernanda Ventomadeira

Por que a moça do 50 Tons de Cinza gozou mais que a do Desnude


Estava eu hoje fazendo bolsa de água quente na minha cólica menstrual e mexendo no celular pra distrair, quando vejo um vídeo da Jout Jout: “Nós transamos. Ass: mulheres.” E resolvo assistir. Acho a Jout Jout carismática, divertida e ela consegue falar com leveza, bom humor e bom senso de assuntos polêmicos, o que hoje em dia, convenhamos, é raridade. Acho válido ela correr o risco de ser superficial pra conseguir popularidade, é uma estratégia que dá frutos onde outras mostram-se estéreis. Soma e bota pra frente, dentro do possível na indústria do entretenimento e nos tempos atuais. Mais gente intelectual tinha que se dedicar a esse tipo de trampo.

No início do vídeo aparecia o honesto e cômico aviso que ela coloca quando é merchandising. Tratava-se de um vídeo de divulgação de uma série que estreia hoje na GNT, Desnude, sobre sexualidade feminina, feita por mulheres, para mulheres. Hum. Diretoras e roteiristas mulheres, sexualidade do ponto de vista da mulher. E sexy, Jout Jout deixa bem claro, ao sugerir que assistamos a série à meia luz, bebendo um vinho. Bom, deve ser no mínimo razoável, eu pensei. Vou lá assistir o primeiro episódio, disponível gratuitamente no site da GNT/Globo.

Não aguentei dez. Juro.

Vamos lá: a primeira cena começava com a figura de uma mulher à meia luz, de costas, caminhando com o clássico gingado de cintura, até que se percebe que ela está numa festa, numa casa enorme e linda, de copo na mão. Seu pensamento em off: “Essa festa tá ótima. Tô me sentindo tão bem. Adoro essa casa.” Mulheres negras de black power compondo a figuração (a protagonista é branca, mas cheia de cachos rebeldes). Logo ela sai para o imenso jardim, onde começa a ser paquerada por um homem lindo duns óio azul de furar fundo, até que ela diz que é casada e veio à festa com o marido. Mas dando a entender que isso não é impedimento, afinal ela não sabe dizer onde ele está. Resumindo os minutos seguintes: depois de umas cenas insinuantes na festa, ela chega em casa com o maridão, representado pelo gatíssimo Edu Moscovis, tira a roupa, paga peitinho e eles começam a se provocar pra saber quais foram as fodas que eles deram na festa, e começam a contar as fodas um pro outro pra se excitar e começam a fazer um no outro o que fizeram com as outras pessoas. E tudo isso se passa muito rápido, em poucos minutos, passando de uma foda pra outra, indo e voltando entre presente e passado, naquelas cenas de sexo semiexplícito que lembram Emmanuelle, mas muito mais curtas, entrecortadas.

Tá. Esses são os primeiros dez minutos de uma série erótica feita de mulheres para mulheres, que a Jout Jout tentou celebrar no merchandising como um avanço político-sexual. Não vou entrar em certos méritos dessa discussão por que, na mesma linha em que eu valorizei a Jout Jout pelo que ela consegue inserir de reflexão e diversidade na indústria do entretenimento, de fato se pode pensar que essa série talvez traga alguma contribuição nesse sentido. Na mesma linha que valorizamos Dear white people, que se passa por uma série militante negra mas é na verdade uma novelinha sobre a vida amorosa e pessoal de negros universitários. Em pleno século XXI desse mundo que não acaba, estamos carecas de saber das pressões a que está sujeita a indústria do entretenimento e até onde esperar algo de seus diversos setores.

Mas é o seguinte: eu não tô com saco de assistir mais minutos de Desnude, então antes que alguém tente me convencer a fazê-lo, quero falar de algo mais básico, e mais importante:

Os primeiros dez minutos dessa série são broxantes.

Ainda mais para uma mulher que tenha alguma experiência com relacionamento aberto (que me parece constituir parte considerável do público-alvo da série) e sabe que a cena é completamente fora da realidade, e não no sentido interessante da fantasia, mas no sentido de patética mesmo. Mecânica, artificial, mal-feita. Como se sexo, amor, liberdade, promiscuidade (no sentido estrito de muitos parceiros) e fetiches fossem coisas que se conjugassem sempre harmoniosamente, que nem fazer papai e mamãe nos anos 50. Como se não formassem uma rede complexa cheia de paradoxos, desencontros, desajustes, e, sinto dizer, cheia de trepadas meia boca também. Os paradoxos e jogos complexos entre dor e prazer, ato e fantasia, desejo e proibição, desejo e transgressão, amor e desejo, casais e triângulos são todos subsumidos a um plano de duas dimensões, na tela da televisão, em poucos minutos. Está sendo vendido para nós um modelo de sexualidade que pretende suprimir o espaço entre a fantasia e o ato na celebração de uma suposta conquista adolescente de liberdade sexual que acaba por esvaziar tanto o ato como a fantasia. Mais uma semelhança com a pornografia machista das últimas décadas. Parece que se quer propositadamente esquecer de algumas lições primitivas sobre as contradições da condição humana, em que não se pode prescindir completamente de algum grau de conflito ou angústia quando se fala de desejo e de prazer sexual. Talvez melhor mesmo então restringir esse prazer a modelos chapados em 2D e postar mil fotos 2D pagando de gatinha/o, como quem goza muito. Em 2D.

É como se estivessem nos vendendo café descafeinado como algo muito melhor que café. Será por isso que se tem comentado tanto (pelo menos entre boa parte das mulheres) que os encontros do Tinder são na maioria ruins (porque sexo medíocre é frustrante, ainda mais nos encontros casuais), e que há muito mais crushes virtuais do que reais, e que teimam em manter-se assim? Curtindo mil fotos suas, mas nunca chamando prum encontro? Ou curtindo uma foto sua depois do encontro, como forma de dizer que gostou do encontro, o que seria de outro modo um pecado capital dizer?

Cinquenta Tons de Cinza cola mais como fantasia sexual do que essa bagunça insossa do Desnude.

Na boa, ainda acho que o Mr. Grey, de Cinquenta Tons de Cinza, cola mais como fantasia sexual do que essa bagunça insossa do Desnude. (Pra quem não sabe, Mr. Grey é o milionário sado que se apaixona e seduz Anastasia Steele por meio de dinheiro, de jogos de poder sexual e, claro, de amor, no maior best-seller dos últimos tempos). Eu pelo menos aguentei o livro por mais tempo antes de largar, e a história, por mais tosca que fosse, tinha um mínimo de construção e complexidade que dava preenchimento às cenas de sexo, que eram os trechos mais razoavelmente bem escritos do livro. Aliás, esses dois modelos de sexualidade contemporânea para mulheres são parecidos, por que o Cinquenta Tons também vende muita ideia furada, como quando a protagonista goza duas vezes quando perde a virgindade. Mas esses dez minutos de Desnude que eu assisti me soaram ainda mais vulneráveis que a insegura e inexperiente Anastasia Steele, seduzida pelos lindos olhos e presentes milionários de Grey.

Se misturam vários problemas nesses minutos iniciais de Desnude. Primeiro, e capital para a indústria do erotismo: é muito difícil fazer boas cenas eróticas. Por que o erotismo, diferente da pornografia, pressupõe um grau maior de fantasia, de sensualidade. E isso pressupõe uma boa narrativa, um alto grau de entrega dos atores e uma composição cinematográfica sofisticada. Nas minhas buscas por pornografia e/ou erotismo decente, que me excitasse de verdade e que não me fizesse sentir objeto de um sexo violento e mecânico, percebi o quanto é difícil fazer boa pornografia. O quanto é, em certa medida, impossível. As diretoras mulheres melhoraram um pouco a coisa, mas continua meio ruim. O que se torna mais interessante são os vídeos de sexo amador ao vivo, que exploram um limite entre vida real e representação muito mais tênue, configurando um novo campo, fora da ficção. Um novo tipo de prostituição ou exibicionismo moralmente bem menos condenado no mundo contemporâneo, mais diversificado e menos machista que a pornografia clássica.

Cenas eróticas de filmes clássicos não pornográficos, como a cena da banheira do Paciente Inglês, são mais excitantes que muita pornografia, e ao mesmo tempo o conjunto do filme não se enquadra em nosso desejo por pornografia, ou mesmo por erotismo. Falando abertamente: não é um filme que você possa assistir pra se masturbar. Por que ele se passa na Segunda Guerra Mundial, e se é ela que carrega de intensidade os romances imprevistos do front, é ela que desvia o foco de uma siririca quando muda a cena. O mesmo acontece com Azul é a Cor Mais Quente, lindo, sensual, explícito, mas muito mais amplo do que erotismo. Talvez uma coleção editada das melhores cenas de sexo do cinema seja muito mais interessante do que assistir pornografia. Ainda por cima evocaria nossa memória afetiva dos filmes que vimos.

Não vi ponto de vista feminino, vi uma coleção de fetiches exibida de forma tosca e rápida

Eu estou falando de pornografia por que os primeiros dez minutos dessa série me parecem muito mais pornografia Emmanuelle versão 2.0 do que outra coisa. E minha decepção foi que as diretoras, roteiristas e produtoras optaram por começar assim uma série sobre sexo do ponto de vista feminino. Tudo bem, é indústria do entretenimento, mas dava pra ter sido um pouco melhor. Não vi ponto de vista feminino, vi uma coleção de fetiches exibida de forma tosca e rápida, antes de qualquer construção narrativa, nesse estilo McDonald's em que estão vendendo a suposta relação aberta, o suposto amor livre. Tá mais pra livre mercado, de carnes baratas e mornas. Tá todo mundo no tinder, todo mundo curtindo foto do crush no Instagram, todo mundo transando, e todo mundo carente de mozão. E de sexo de qualidade. Se o modelo monogâmico “felizes para sempre” revelou sua falta de sustentação e estofo, esse amor livre de redes sociais parece mais um puxadinho prestes a desabar do que a efetiva reconstrução das relações, da capacidade de se relacionar e da reinvenção das formas de transar. Que eu não sei bem se as pessoas querem se transformar, ou querem comodidade. Que as duas coisas juntas não combinam. Que nem café sem cafeína.

O suposto ponto de vista feminino propagandeado pela Jout Jout leva a outro problema, também muito interessante (que o sexo é campeão em colocar problemas interessantes e complexificar todas as discussões). Querer transpor para o sexo, de forma um tanto mecânica, certas categorias importantes e úteis, mas que o feminismo e outros movimentos de esquerda por vezes têm usado mal, como “lugar de fala”, “representatividade” e “empoderamento”, revelam uma inadequação de procedimentos, uma ausência de nuances e pouca capacidade de reflexão e de experimentação da vida. O sexo é uma relação, a relação social mais radical de todas, por que se enraíza no desejo carnal, na penetração do corpo do outro, na reprodução da espécie, nas incontáveis fantasias que recheiam nosso inconsciente coletivo, nas relações sociais de poder entre os gêneros e as classes, e na necessidade fisiológica, cruzando, simultaneamente, o indivíduo com o grupo, a consciência com o inconsciente, e o humano com o animal. E ainda, ou por isso mesmo, consegue ser um campo de imprevistos, descobertas, experiências sem nome e incontáveis devires.

É uma relação de intimidade e gozo que se dá a princípio entre duas pessoas, mas é atravessada dessas inúmeras camadas, relações de poder, fantasmas do passado, relações familiares, delicadezas afetivas, medos, desejos estranhos e fantasias ilógicas, como apanhar, bater, morrer. Impossível de ser composta a partir de um único ponto de vista, é um acontecimento que desempodera a todos. E confunde a todos também, que depois do ato procuram reorganizar-se em suas ilhas. Confundimos entrega com submissão, sujeição desejada na cama com sujeição imposta na vida. E com sujeição imposta na cama. Ao procurarmos a saída desse emaranhado, por vezes construímos outras defesas, ao invés de transbordar pela temível e desconhecida linha de fuga. Se nesse transbordamento de fato perderíamos o controle racional a que fomos adestrados, não perderíamos, todavia, a possibilidade de escolha – pelo contrário, é só aí que ela passa a existir mais verdadeiramente.

Nos apegamos a mitos de autossuficiência total como forma de garantir nossa dignidade, enquanto a dignidade se dá em relação, na forma como construímos e vivemos nossas relações. A fantasia contemporânea da mulher indomável, independente, sempre ativa na cama, é o equivalente da figura machista do garanhão em tons mais suaves e roseados. Esse mito cai por terra rapidinho, e Cinquenta Tons de Cinza (o livro) vende muito mais que She´s Gotta Have It. Não que Cinquenta Tons de Cinza seja bom e She´s Gotta Have It, ruim, mas é mais possível para a maioria das mulheres sentirem mais prazer e curiosidade com o primeiro. Que o livro, mesmo que numa escrita pobre, narra uma história de amor, construída em cima dos chavões do sadomasoquismo nas relações amorosas e sexuais entre homem e mulher, ao invés de tentar vender um amor livre insosso de uma protagonista emancipadona que fica tretando com um grafiteiro machista e com seus amantes. (E não esqueçamos que o sadomasoquismo é uma via de mão dupla, que está expressa na própria constituição da palavra, enquanto o “amor-livre” está se tornando um autoerotismo narcisista construído no mundo virtual.)

Ou seja, estamos reproduzindo alguns equívocos básicos com os sinais das equações invertidos, ao invés de criar novas equações, enquanto os equívocos originais continuam vendendo mais.

Eu não domino a literatura feminista, mas me parecem equivocadas ideias que ouço propaladas por aí, sem muita contextualização teórico-política (por gente que talvez domine tão pouco quanto eu), de que “todo homem é um potencial estuprador” ou que “não pode transar de quatro que é submissão”. Ao invés de aproveitar e subverter, com consistência, as descobertas da psicanálise sobre sexualidade, fantasia, desejo, gênero e inconsciente (vale lembrar que, se de um lado Freud ainda era um homem do século XIX e conservava limitações, ele foi o primeiro a ouvir o que mulheres consideradas doentes tinham a dizer, e foi o primeiro a conceber o sexo de forma radicalmente diversa do que era até então), num sentido muito mais pobre, vejo um suposto feminismo propor uma racionalização impossível do sexo, fruto de uma simplificação e de uma recusa em lidar com a complexidade do desejo e de nossa terrível condição humana. ATENÇÃO: não estou falando de toda a luta e literatura feminista de séculos, diversa, rica, imprescindível, revolucionária e a quem devo tanto, mas de um certo discurso em sua versão simplificada (em que pese a influência da dinâmica contemporânea das redes sociais) que tem se tornado hegemônico e, a meu ver, contribuído para estagnar o movimento.

Cinquenta Tons de Cinza deu de dez em Desnude. E deu com alegria.

Não me parece estranho então que os primeiros dez minutos da versão de entretenimento de um suposto feminismo, transformado em moda e em discurso normativo das redes sociais, tenham saído uma colagem aberrante de fetiches machistas, ora invertidos para o papel da mulher, ora em sua forma clássica, e sempre com uma repaginação contemporânea de um amor livre de drive-thru. Que o que todos esses fetiches têm em comum encontramos também na gênese do patriarcado: a ideia ILUSÓRIA da possibilidade de autossuficiência e de poder sobre o outro por meio de um sexo mecânico e de fetiches toscos (que existem os fetiches não toscos, estamos cheios de ambos), empobrecendo demais as possibilidades de gozo de ambas as partes. Partes que se sentem, no curso atual das coisas, obrigadas a gozar. Muito. E os índices de depressão e abuso de drogas lá no alto.

E realmente, nesse sentido, o romance tórrido e bobo, um tanto machista e intensamente sadomasoquista do Cinquenta Tons de Cinza, que brinca com as relações de poder no sexo por um sadismo lúdico, se saiu melhor. Do ponto de vista de sua protagonista e de suas mais de cem milhões de leitoras, deu de dez em Desnude, e deu com alegria, com mais intensidade, com mais narrativa, com mais construção de personagem. Conseguiu construir uma história de amor e sexo entre duas pessoas que, mesmo que clichê e tosca, me parece mais interessante que ideias de autossuficiência e gozos express de primeiro minuto. Pelo menos Anastasia e Mr. Grey demoram umas várias páginas pra transar, fantasiam antes, e quando transam temos tempo para acompanhar todos os seus movimentos.

À sua maneira, de psicologismo barato, o livro rompe com a ideia de autossuficiência e poder no sexo, revelando que a necessidade de dominação de Mr. Grey, o milionário que exerce poder sobre a protagonista seduzindo-a pelo dinheiro, vinha de seus traumas de abuso quando criança. E ele acaba se abrindo com Anastasia, a muito custo. A narrativa e fantasia clássica (e muitas vezes furada, façamos justiça) do homem dominador que vai se rendendo, aos poucos, a uma mulher comum, por que a ama, numa versão luxuosa e BDSM, em que o jogo sadomasoquista aparece claramente com dois jogadores muito interessados um no outro e no jogo, progressivamente, quanto mais Anastasia vai se dando conta de seu papel na relação e de seu poder sobre Grey.

Essa comparação que ousei fazer não deixa de ser mais um caso em que as estruturas clássicas da indústria do entretenimento (e não só dela) ainda se mostram mais interessantes que as pós-modernas, ainda mais quando essas últimas se definem por oposição às primeiras, vendendo-se como a última moda. Em seu machismo tosco, sua escrita pobre e em sua psicologia de boteco, para nosso constrangimento, Cinquenta Tons de Cinza tem mais estofo do que muitas versões mercadológicas e midiáticas de um suposto discurso feminista sobre o sexo.

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Essas reflexões vieram de muitas conversas e contribuições, em especial com Alexandre Amendola, Simone Dantas e, claro, minha analista porreta.

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