• Acauam Oliveira

E se o Facebook pudesse votar, qual seria o candidato?


Vocês já pararam pra se perguntar qual o candidato ideal para o formato Facebook? Não o candidato do Zuckerberg, que está pouco se lixando pro nosso cenário político, mas o do Facebook mesmo, aquele/a que melhor se adapta a sua linguagem e logaritmos? Vejamos.

Mal começou o ano e já nos vimos envolvidos em mais uma polêmica anódina, com grupos acusando o fotógrafo Lucas Landau de explorar a imagem de um garoto negro na praia para obter likes e vantagens pessoais. Acusações essas que, por sua vez, geravam likes para os autores da denúncia, sem se reverter em absolutamente nenhum tipo de vantagem para o menino. E seguimos nessa por dois dias (raramente passa disso) girando em torno do mesmo eixo: se a imagem era racista; se o fotógrafo é um escroto, um novo Sebastião Salgado, ou uma mistura das duas coisas; se a culpa da situação retratada é do Temer ou do PT; se a imagem é uma obra de arte com múltiplos significados ou mero registro documental de uma situação representativa do Brasil. Questões interessantes, sem dúvida, mas cujo motor principal não é o interesse da matéria, e sim uma necessidade do próprio Facebook, que não tira férias e sobrevive da polêmica inscrita nos conteúdos que produzimos para ele, de graça. É a polêmica que faz seu mecanismo girar e capitalizar, e tanto faz se verdadeira, falsa ou relevante: a rigor vídeos de gatinho ou comentários geopolíticos são medidos pelo mesmo vetor. De fato, a polêmica ideal para as redes parece ser aquela que, ao mesmo tempo em que mobiliza um alto índice de adesão apaixonada, é também intrinsecamente irrelevante, de modo a ser substituída rapidamente por outra sem que ninguém se importe muito, ainda que pareça ser caso de vida ou morte ao longo dos dois dias em que "zera" a net.

Seguimos dividindo o mundo entre coxinhas, petralhas e isentões, odiando-nos mutuamente não porque tais divisões de fato correspondam a antagonismos reais no campo político, mas porque os logarítimos do Facebook operam a partir da formação de bolhas e grupos que só se comunicam entre si, buscando adesão entre os próprios pares a partir da demonização caricata do campo teoricamente oposto. Por outro lado, cada vez mais sustenta-se uma postura de auto-piedade que atribui toda a responsabilidade ao outro (o socialista de Iphone, as feministas abortistas, o esquerdo macho, o branco desconstruidão) enquanto adota um olhar completamente autoindulgente para com os próprios limites, que termina por confundir militância com auto-ajuda, por vezes de forma absolutamente infantil – e não é por acaso que muitos dos debates nas redes sociais acabam por reproduzir dinâmicas do ensino fundamental. Não é só porque muitos dos polemistas têm, de fato, 12 anos (como o Nando Moura): a própria dinâmica do sistema privilegia e promove a infantilização geral dos posicionamentos. Ou seja, não é só o Donald Trump que reduz conflitos sérios a piadas envolvendo o tamanho da própria rola. O modelo privilegiado de debate público no facebook é o meme.

Ódio para Bolsominion, autoajuda para as minorias da vez, sempre cobertas de razão. E vice versa. Bolha e polêmica. Não por acaso, os “sujeitos” políticos de maior destaque nas redes são a esquerda lacradora e seu oposto complementar, a direita zuêra, vulgo, gente chata pra caralho. Sua especialidade é encontrar a polêmica da vez, de preferência irrelevante (mas cujos efeitos podem ser devastadores para os envolvidos, ou quase devastadores, pois obviamente, os efeitos das perseguições atingem muito mais diretamente os mais socialmente fragilizados), e que exija um baixo nível de engajamento real, de forma a se adequar perfeitamente a um modelo narrativo previamente esquematizado, com seu conjunto claramente delimitado de vilões e mocinhos, esquematicamente organizados para facilitar a adesão imediata.

Já por aqui percebe-se qual o candidato perfeito para a lógica estrutural do Facebook. E é melhor “Jair” se acostumando com isso. Afinal, trata-se de um mito, fabricado sob medida para um espaço cujo ideal comunicativo é o meme. Não gostou? Chola mais! [som de peido].

Lacrei...

De certa maneira, Bolsonaro sintetiza o poder destrutivo e deprimente que alimenta o narcisismo autoindulgente que sustenta a engrenagem das redes sociais. Ele é o candidato ideal para o Facebook, não por afinidade ideológica (Zuckerberg obviamente votaria... na Marina). Trata-se de algo pior, pois é a própria estrutura do Facebook que é pró Bolsonaro, assim como foi fundamental para a eleição de Donald Trump. Consequentemente, falemos bem ou mal de Bolsonaro, estamos sempre em campanha gratuita por ele, pois como demonstra brilhantemente o artigo de John Lancherter publicado na Piauí, Fake News são ainda mais rentáveis do que notícias reais, o que significa que o conteúdo é o que menos importa na equação – não é a “verdade” que cria um bom produto, pois sua capacidade de viralização depende de outros fatores. Bolhas ideológicas gerenciadas por logaritimos que direcionam o circuito de ódio e polêmicas que pouco resolvem, mas manipulam carências e fragilidades afetivas que estão na base de sustentação desse espaço.

O Facebook é Bolsonaro desde criancinha. As crianças, inclusive, o adoram. Seus fãs e seguidores sabem disso faz tempo, e por isso se movimentam com tanta desenvoltura por aqui. Esse é o seu território, que segue bem mapeado. A questão é: será possível implodir ou reverter isso a partir daqui? Pra 2018, certamente não.

PS: vou fazer uma outra versão desse texto para chegar nos "Antagonistas" MBL's e Nando Mouras da vida. Vai ter o seguinte título: “Pseudo intelectual esquerdista admite que Facebook é Bolsonaro 2018! Chola mais!”.

#AcauamOliveira #política

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