• Breno Longhi

Uma Viagem pelo Rock Feminino dos Anos 70


O Chic Pop preparou uma seleção com 15 músicas das roqueiras mais lacradoras que você adora, mas ainda não conhece.

​É só clicar no link pra fazer uma viagem Rock and Roll através de sons maravilhosos de cantoras, compositoras e instrumentistas do mundo inteiro nos anos 1970. Vamos mergulhar na cena musical da África do Sul ao Vietnã, passando pela França, Japão, Brasil e por muitos outros lugares com sons sovieticamente revolucionários, com mulheres fantásticas que enfrentaram o status quo dos dois lados do Atlântico e botaram todo mundo pra dançar e cantar.

E enquanto você ouve, aproveite para conhecer um pouco mais sobre essas representantes incríveis do Rock and Roll feminino que você mal conhece, mas já considera pacas:

1 - Rabi Nakayama - 夢のドライブ (Japão)

A viagem musical pelo mundo das roqueiras começa com uma uma canção deliciosamente psicodélica da Rabi Nakayama, que começou a carreira no Japão em 1972 tocando baladas folk. Mas nesta gravação de 1974 dá pra ver que ela já estava em outra. A música tem altas guitarras distorcidas e um vocal que flerta com o canto tradicional japonês, adornado por um baita naipe de metais que dão uma atmosfera ainda mais psicodélica. É o ponto de partida perfeito pra chacoalhar quadris e preconceitos.

2 - Mira Kubasinska - Dałeś Mi Pierścień (Polônia)

Tenho que começar dizendo que o Rock polonês é foda. Não só o rock, mas também o Blues, o Jazz, o Funk, a Música Erudita... Sou fã de carteirinha da música polonesa dos anos 1970 e a Mira Kubasinska é um dos pontos altos dessa cena. Ela gravou vários discos fantásticos com o Breakout, uma das bandas de Blues Rock mais legais da década em qualquer lugar do mundo (sério, ouça Breakout). Nessa som dá pra ouvir muito bem as peculiaridades do Blues Rock polonês, especialmente por conta da bateria toda quebrada, que lembra bem pouco o rock chiclete da Europa Ocidental daquela época, assim como a guitarra fenomenal do Tadeusz Nalepa, o guitarrista que acompanha com maestria a voz grave da Mira Kubasinska.

3 - Linda Ronstadt - You're No Good (EUA)

A terceira música é uma versão deliciosamente elétrica do sucesso R'nB "You're no Good", uma canção com a letra empoderada e que ganha ainda mais força com a voz potente da Linda Ronstadt. A gravação é de 1975 e ficou em primeiro lugar das paradas norte-americanas na época, cimentando o relacionamento das cantoras da Country Music com o Southern Rock, que tocava em todas as rádios em meados da década de 70. (A propósito, aqui no Brasil um movimento similar foi encarnado pelo Rock Rural, que de tempos em tempos volta a dar sinais de vida, mas isso é tema pra outra mixtape).

4 - Las Grecas - Te Estoy Amando Locamente (Espanha)

Tá, isso aqui é fora do normal. A dupla espanhola Las Grecas era formada pelas irmãs Tina e Carmela Muñoz Barrul, as pioneiras do Rock Cigano na Espanha. A história é bem doida. O pai delas era cantor de Flamenco e se mudou com a família para a Argentina em meados dos anos 60. Do lado de cá da Linha do Equador elas começaram a desbravar novos sons e entraram em contato com Jimi Hendrix, com a Tropicália (vai Brasil!) e com o Sandro, um dos pais fundadores do rock sul-americano e que, assim como as irmãs, era cigano.

Quando elas voltaram para a Espanha em 1970, levaram todas essas influências musicais radicais, mas encontraram um cenário musical (e político) superconservador, onde o Rock ainda era relativamente pouco desenvolvido. Foi aí que elas lançaram "Te Estoy Amando Locamente" em 1974 e venderam 500.000 cópias - uma exorbitância para o mercado fonográfico espanhol - mesclando o vocal rasgado do Flamenco com guitarras pesadas, e o ritmo alucinante da música cigana.

5 - Bang Chan - Những Đóm Mắt Hoả Châu (Vietnã)

Esta é a hora em que a internet não ajuda. Surpresa! Não sei falar vietnamita :/ Ou seja, quase não tenho informações sobre a Bang Chan, e sua canção Những Đóm Mắt Hoả Châu, um Rock psicodelicioso cujo título quer dizer "Bola de Fogo" (Não vou fazer piada). Como não encontrei muitas informações, vou deixar aqui este link muito legal de um programa de rádio australiano que conta um pouco da história de como a guerra levou o Rock para o Vietnã e como era a cena musical de Saigon nos anos 1970: Saigon's wartime beat (Em inglês).

6 - Sarolta Zalatnay - Fekete Arnyek (Hungria)

Há sempre surpresas maravilhosas escondidas do lado de lá da Cortina de Ferro. A Sarolta Zalatnay é uma das melhores cantoras do rock magyar (só fica atrás da divina Kati Kovacs) e foi acompanhada por basicamente todas as grandes bandas húngaras da época, incluindo Omega, Skórpio e Bergendy. Essa gravação é o lado B de um compacto lançada com a melhor banda do país na época, a Locomotiv GT e destaca os vocais rasgados e possantes da cantora, num verdadeiro hino soviético ao Rock and Roll, de 1971.

7 - Miriam Makeba - Kulala (África do Sul)


Um monte de gente conhece a Miriam Makeba por causa do hit Pata Pata (aquele do "tá com pulga na cueca"). A cantora, que é um ícone da cultura sul-africana e transitou entre muitos estilos e idiomas, tem uma história genial. Sendo mulher e negra em pleno Apartheid, já dá pra imaginar que ela não era a queridinha do governo sul-africano e, por isso, migrou para os EUA, onde além de gravar discos que fizeram muito sucesso, se envolveu com política. Primeiro ela testemunhou contra o governo da África do Sul nas Nações Unidas e depois passou a atuar no movimento pelos direitos civis nos EUA. Aí, em 1968 ela se casou com Stokely Carmichael, um dos líderes do Movimento dos Panteras Negras, e acabou ficando encrencada com o governo norte-americano. Isso levou os dois a migrarem outra vez, agora para a Guiné, onde ela continuou a gravar e se apresentar. Com uma vida Rock and Roll dessas, não surpreende que a Miriam Makeba tenha gravado "Kulala", um afro-rock funkeado que acompanha o lamento de uma mãe cujo filho morreu afogado, composta em parceria com o fabuloso Hugh Masekela em 1970. Imperdível <3

8 - Cher - I Walk on Guilded Splinters (Rainha do mundo)

É isso mesmo que você está pensando. Cher, rainha do mundo inteiro, gravou esse clássico macumbístico cheio de voodoo do Doctor John em 1969. Tá bom, eu disse que era Rock dos anos 70. Mas, vejam bem, a Cher está tão à frente do tempo dela que não faz diferença, né? Nesse disco chamado "3614 Jackson Highway" ela gravou várias músicas do Bob Dylan, uma versão linda de "Sittin' on the Dock of the Bay" e outras tantas que só seriam lançadas em 2001, porque eram "diferentes" demais para o público da época. Vai vendo. Com uma sonoridade muito mais madura que nos anos de Sonny & Cher, instrumentação rica e mesclando o Pop de voz grave da diva, os arranjos são complexos e supergostosos de ouvir.

9 - Geneviève Paris - La dernière fois que je t'ai vu (França/Canadá)

A Geneviève Paris é uma baita guitarrista. Mas uma baita guitarrista mesmo. Pra você ter uma ideia, no mesmo dia em que ela passou no vestibular francês em 1973, ela também ganhou o prêmio de melhor violonista do conservatório de música de Paris, com 17 anos. Nessa gravação de 1975 a gente curte um Blues-Rock com uns toques de Rock Progressivo que tem o ritmo bem marcado por um violão brutal, além de um solão lindo de Rhodes e outro ainda mais bonito na guitarra fuzz endiabrada da Madame Paris, que canta em francês com uma uma voz encorpada. Os discos dela fizeram tanto sucesso no Québec (a parte francófona do Canadá), que ela resolveu migrar pra lá, onde contribuiu pra formação da cena do Blues-Rock québécois como guitarrista e professora de música.

10 - Carol Grimes & Delivery - Home Made Ruin (Inglaterra)

Não é segredo pra ninguém que o Rock Progressivo é uma invenção britânica. Uns vão dizer que é a glória, ponto máximo do Rock (em 1999 eu até concordaria). Outros vão dizer - com alguma razão - que é a coisa mais chata que já aconteceu ao Rock. Agora, com a Carol Grimes ninguém vai encrencar. À frente dos vocais da banda Delivery, ela é uma das principais fontes criativas da Canterbury Scene, a cena "irmã" do Rock Progressivo que surgiu no finzinho dos anos anos 60 na cidade de Canterbury e tinha um som mais próximo dos experimentalismos do Jazz e da música erudita contemporânea.

"Home Made Ruin" é uma canção meio dark, com tempos quebrados e uma atmosfera psicodélica, cheia de pianos, guitarras distorcidas e instrumentos de sopro que, ao lado da voz rasgada da Carol Grimes, ficam passeando de um lado para o outro do fone de ouvido.

11 - Gal Costa - Com Medo, Com Pedro (Brasil)

Isso aqui é Rock de vanguarda MESMO. É um grito radical contra o medo em tempos de ditadura (e que ainda parece fazer muito sentido) "Deus me livre de ter medo agora / Depois que eu já me joguei no mundo / Deus me livre de ter medo agora / Depois que eu já pus os pés no fundo". A Gal estava no auge da forma, sambando na cara da sociedade brasileira, quando gravou aos 24 anos esse disco, em 1969 - ok, outra que estava à frente do tempo. É uma obra de arte brutalmente tropicalista, com músicas do Caê, do Jards, do Capinam, do Jorge Ben, do Robertão edo Erasmo e, no caso de "Com Medo, Com Pedro", também do Gilberto Gil, que entregou pra Gal a demo dessa música em fita K7 no dia que embarcou para o exílio. E se não bastasse, ela ainda é acompanhada do Lanny Gordin nas guitarras, o Jards Macalé no violão e o Rogério Duprat conduzindo a orquestra. Sem dúvida uma das maravilhas do Rock brasileiro.

12 - Josipa Lisac - Kao Stranac (Iugoslávia)

A Josipa Lisac é a diva perfeita para um país que não existe mais. Ela é sem dúvida a maior roqueira da antiga Iugoslávia e uma verdadeira instituição da cultura pop do País. Radical desde o princípio, ela lançou esse som em 1973, no disco Dnevnik jedne ljubavi, que fez um puta sucesso quando foi lançado e ainda é considerado um dos melhores discos do Rock no país. A música começa com uma percussão pesada que é uma das marcas registradas do rock soviético, acompanhada de uma bateria muito bem tocada, baixo, guitarra distorcida e órgão Hammond, que fazem a cama perfeita pra voz rouca e levemente anasalada da Josipa Lisac. É um som forte que combina perfeitamente com o senso de estilo radical e ligeiramente esquisito da cantora, que é tão famosa pela música, quanto pelo guarda roupas ousado - a foto aí do lado já dá uma ideia.

Além desse disco incrível, a Josipa Lisac também foi responsável pela primeira Ópera-Rock da Iugoslávia, em 1975 e continua na atividade, com um repertório que vai de clássicos da Black Music à música tradicional da Croácia, passando até por músicas de Natal :P

13 - Bonnie Raitt - Love me Like a Man (EUA)

Tá, o nome da música é zoado, mas aguenta firme que o som compensa. Pra começar com uma nota política, essa música saiu do disco "Give It Up", o segundo da carreira da Bonnie Raitt, que foi dedicado "Ao povo do Vietnã do Norte". Sim. Aqueles comunistas que os EUA estavam tentando destruir. Já deu pra sacar a pegada, né?

Agora, falando de música, a Bonnie Raitt é inigualável. Essa canção, de 1972, começa com um violão formidável que só uma blueseira de mão cheia como ela poderia tocar. E como se não bastasse ser uma baita guitarrista, ela ainda é uma cantora sensacional, com voz aguda e limpa. Que som!

14 - Joy Fleming - Neckarbrückenblues (Alemanha)

E já que o assunto é blues, a gente continua nessa levada com a Joy Fleming. Essa música, de 1971, foi o primeiro sucesso da cantora e quem gosta de Alemão vai se divertir ao ouvir a letra no dialeto de Mannheim. O som começa com aquele piano Honky Tonky agudinho que serve como um contraponto perfeito para a voz encorpada e chorosa da Joy Fleming.

Nos anos seguintes a essa gravação ela emplacou alguns sucessos no Eurovision, aquele festival de canções terrivelmente bregas da TV europeia que deixou a Conchita Wurst famosa uns anos atrás. :D

15 - Claudia Lennear - Casey Jones (EUA)

A Claudia Lennear é uma das musas (meio) esquecidas do Rock and Roll. Sabe "Brown Sugar", dos Rolling Stones? Então. É sobre ela. Sabe "Lady Grinning Soul", do David Bowie? Então. Também é sobre ela. E ela tocou com caras como Eric Clapton, George Harrison, Bob Dylan... putz. E essa música veio do único disco solo dela, chamado Phew!, de 1973. É um disco fantástico, com músicas que passam por vários estilos, sempre destacando a voz forte da Claudia Lennear. O disco tem, por exemplo, um funk progressivo sobre a Angela Davis, um rock and roll pra avisar para o Mick Jagger que ele era "dispensável" e esse blues delicioso sobre Casey Jones, uma figura folclórica dos EUA que já foi objeto de inúmeras baladas e até um filme da Disney.

De lá pra cá, a Claudia Lennear abandonou a carreira musical e virou professora de francês e inglês, embora não faltem convites pra ela voltar aos palcos.

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Breno Longhi é tradutor jornalístico e trabalha para a imprensa internacional. É radialista e apresentador do Esquisito Rádio Clube pela Rádio Universitária FM 100,7 que vai ao ar todas as segundas-feiras às 20h. Dá pra ouvir ao vivo aqui. Atualmente, é produtor de vários programas e podcasts, com destaque pro Mãe África, o único programa da rádio brasileira dedicado à música africana contemporânea e apresentado por africanos, e o Noche Latina, com sons e histórias incríveis da América Latina e adjacências.

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