• Romero Venâncio

Belchior e o sentimento de um rapaz latino


Morreu Belchior. Fica um legado musical e poético como poucos na canção latino americana. Muitos temas foram trabalhados a partir da música do compositor cearense. Sintoma de uma geração e má consciência de uma outra, a poesia do autor de “Coração selvagem” foi pau para toda obra em termos de política cultural e memória de um Brasil que teima em não se reconhecer nessas lembranças.

Belchior nos colocou no espelho de uma ditadura pós-1964 e das suas nefastas consequências numa juventude que brotava com garra e gana e que foi ceifada por censuras, boicotes, indústria cultural, despolitização promovida e tantas mazelas que marcaram toda uma geração. Sem dúvida, o compositor de Sobral varou o seu tempo histórico e nos fez ver uma fresta de tempo que nos permite compreender nossa recente história.

Há um tema em Belchior pouco trabalhado ainda que merece destaque nessa hora triste de sua partida sem volta... o que chamo de “sentimento latino”. Tema muito ausente na cultura brasileira. Nossa colonização nos empurrou para um desinteresse pela América Latina onde pagamos caro essa lacuna. Um sentimento que havia incomodado tanto um Glauber Rocha ou um Darcy Ribeiro, mas que ainda não nos incomoda como deveria. Precisamos sempre lembrar de nossa condição latina e americana, apesar da língua portuguesa. Há um cinema que nos faz sempre lembrar essa condição... Há uma literatura que chega em nosso país... Gabriel Garcia Márquez, Jorge Luis Borges, Julio Cortázar, Cesar Vallejo, Mario Benedetti, Juan Carlos Onetti, Eduardo Galeano, Leonardo Padura, entre vários outros. Falta de oportunidade não é desculpa para não alimentarmos esse sentimento em nossa cultura...

Em Belchior, dois momentos (e teriam mais, possivelmente!) chama a nossa atenção. No primeiro temos:

“Por força deste destino Um tango argentino Me vai bem melhor que um blues”

Obviamente, aqui a comparação não é estética: o tango argentino não é melhor que o blues dos EUA ou o contrário. A questão aqui é outra. É política. Vivíamos uma ditadura bancada e financiada pelo imperialismo do velho “Tio Sam” e sendo assim, o tango argentino nos fazia irmão de sangue, sofrimento e luta e não o Blues dos EUA. O compositor via um momento significativo de nos colocarmos em posição de uma unidade e sentimento latino no seu verso enigmático. Havia um clima que nos empurrava, apesar da ditadura, a pensar a América Latina em meios intelectuais, universitários e de esquerda. Havia um clima de terror que ameaçava o continente, e, nos meios de uma arte antenada com os acontecimentos, a importância de se pensar uma “Pátria grande” ganhava relevância, e Belchior não ficava de fora desse movimento na metade dos anos 70 do século passado. A música nos fala de “sonho” e de “sangue” e de “América do Sul”. O desespero que se precipita em boa parte da canção, mas esse era um sentimento que tomava conta de boa parte do continente com suas ditaduras e dominação colonial. No trecho da música citada, percebemos o quanto Belchior nos coloca diante do interesse saber sobre as Américas e nos retira desse exotismo com que é tratada aqui no Brasil e propalado pelos meios culturais da ditadura de plantão nos anos 70. Ao citar o “tango argentino”, optava pela arte em sua força imaginária. O tango falava mais de nossa realidade do que blues. Porém, será com a clássica composição: “Apenas uma rapaz latino americano” que esse sentimento de latinidade a partir dos de baixo que Belchior será imortalizado. Trazia um forte sentimento de pertencer a esse continente:

“Eu sou apenas um rapaz latino-americano sem dinheiro no banco

Sem parentes importantes e vindo do interior”

Era como se nos remetesse diretamente a real condição desse pobre rapaz, dessa pobre moça... desse ser humano latino americano comum que recria sua existência num ambiente de tão cruel dominação de classe. Ao mesmo tempo, a canção trazia um sentimento de unidade pelo sofrimento e pela condição de opressão. Não era apenas dominação, era sentimento de unidade nesse sofrimento em um grande continente – uma “Pátria Grande – que nos fazia ter alguma esperança no futuro... Primeiro, se faz necessário ter consciência da condição nesse lugar e saber como cantar:

“Não me peça que lhe faça uma canção como se deve

Correta, branca, suave, muito limpa, muito leve

Sons, palavras, são navalhas e eu não posso cantar como convém

Sem querer ferir ninguém...”

A consciência crítica do compositor nos motiva a pensar mais fundo a condição de pobre espoliado num continente que concentra tanta riqueza em poucas mãos e condena tantos milhões a miséria quase absoluta... Esse rapaz anônimo somos nós errantes dessa grande região... em nos faltar com a ironia, nos alerta em primeira pessoa para o obvio dessas terras:

“Mas não se preocupe meu amigo com os horrores que eu lhe digo

Isso é somente uma canção, a vida, a vida realmente é diferente

Quer dizer, ao vivo é muito pior...”

E de quebra, nos faz perceber que arte é arte... E nunca é igual a vida. Haverá sempre esse descompasso entre a criação artística e as condições objetivas da realidade... Uma marca da concepção de música do compositor cearense. Belchior sempre tentou (e conseguiu) em sua arte nos confrontar com a realidade:“

"Mas sei que nada é divino, nada, nada é maravilhoso

Nada, nada é sagrado, nada, nada é misterioso...”

Mas talvez um dos momentos mais significativos da obra do bardo cearense seja o disco Alucinação, que completou 40 anos em 2016.

Em 1976 estávamos todos enfiados numa triste ditadura que que iniciava como golpe de estado em 1964... Um Brasil que caminhava para o esgotamento e com poucas esperanças... Era fim completo do nefasto “milagre brasileiro” que em economia, enricou quem já era rico e empobreceu ainda mais uma sofrida classe trabalhadora desarmada na defesa de seus direitos... Mas criou a ilusão de poder da classe média. Obviamente, o álbum do cearense não se reduz a uma análise de conjuntura usando a música. Jamais. Belchior é poeta da canção. Mas um porta que tem a palavra comprometida com a minha e tua vida, parafraseando outro poeta, o Thiago de Melo. A palavra cantada de Belchior rasgava fundo como faca esse mundo torto que era o Brasil em transe da ditadura. E o fez com maestria para ficar na história e por isso, ainda hoje o escutamos e o rendemos glória.

Alucinação é o álbum-testemunha de quem sabia muito das feridas vivas em nossos corações... “Apenas um Rapaz Latino Americano” virou hino de uma juventude espremida por uma ditadura moralista e vazia de sentido... Virou vontade de meter a cara e encarar o mundo de frente e sem nada nos bolsos... Ser “Latino Americano” na música de Belchior era ter uma identidade sofrida, mas resistente e saber (diferente de Gil e Caetano) que nada é divino e nada é maravilhoso. Ironia com um tropicalismo otimista com os contrastes que fazem este Brasil. Mas nunca devemos pedir ao compositor que faça música para agradar. Eram tempos nefastos... “a vida é diferente, quer dizer: a vida é muito pior”. No fundo, o Brasileiro comum e sem dinheiro no banco é o Latino Americano que vale ser lembrado em sua poesia. Genial. Mas é em “velha roupa colorida” que temos a capacidade criativa de Belchior chega a um ponto extraordinário... A composição nos joga na cara o envelhecimento de uma geração que sonhou tanto e hoje veste uma “roupa que não lhe (nos) serve”. Podemos até não sentir e nem ver, mas essa mudança parecia aponta apesar dos pesares... A palavra de ordem era: “rejuvenescer” numa ditadura que se tornava velha desde seu nascimento. A música abriga uma poesia corajosa em seu lirismo quase prosaico bem harmonizada pela melodia (lindíssima!).

A composição que melhor nos coloca em 1976 é, sem dúvida, “Alucinação”. Chegava a um certo esgotamento um certo “esoterismo riponga” sem rumo em plena ditadura. Uma clara alienação perante um mundo concreto que pedia uma leitura crítica e não frases vazias de um espiritualismo pobre de espírito... Belchior vai na veia: “a solidão das pessoas dessas capitais” e “os policiais que cumprem seu duro dever”. A violência batia a porta e entrava (e entra, ainda mais hoje). Era necessário saber o que anunciava o “profeta do terror” (era tempos de tantas laranjas mecânicas): “amar e mudar as coisas me interessa mais”. Mesmo em tempos sombrio, há tempo para se amar... Para mudar as coisas. Belchior nos remetia a um desinteresse a essas teorias que em nada toca no real e ficam floreando o que não conhecem... Imediatamente após “Alucinação”, vinha a assertiva para que não se levasse flores a cova do inimigo em nome das lágrimas dos jovens que ainda rolavam naquelas paradas de 76... Trata-se de “Não leve flores”. Uma complementa outra ou porque “nossas esperanças de jovens não aconteceu”. Ou como diz de maneira bela: “façamos o destino com o suor de nossas mãos”. Uma música que virava propulsora de ideia... Que motivava e fazia pensar implacavelmente nosso mundo. Mas merece destaque essa que á mais bonita e desconcertante canção de Belchior nossa opinião: “À palo seco”. Como dizia em verso o poeta de Pernambuco João Cabral de Melo Neto:

"Se diz a palo seco

o cante sem guitarra;

o cante sem; o cante;

o cante sem mais nada;

se diz a palo seco

a esse cante despido:

ao cante que se canta

sob o silêncio a pino."

Belchior queria o que diz: “que esse canto torto corte a carne de você”... E mais que isso, queria nos fazer que esse “desespero” em 1976 deveria ser entendido o que significar ter 25 anos onde “o sonho e o sangue” nos consome... e não se trata de moda alguma... Muito bom para nosso tempos nefastos.. Há uma geração em dias atuais que não sabe ainda de sonho e sangue; do que é feito essa matéria cruel que é existir em tempos de transe político.

Existem leitura que caracterizam esse trabalho de Belchior como pessimista ou deprimente. Discordo redondamente. Trata-se de uma obra marcada pela poesia que não pode esconder o mundo em que vive e ama... Belchior é o nosso Dylan Thomas da canção... Tem que ser implacável com seu mundo ou “Veloso o sol não é tão bonito pra quem vem” (quem vem do Nordeste para um Sul frio, excludente e preconceituoso em média com os pobres!). Ser “sempre jovem” da composição final “Antes do fim”, não significa ser cabeça de vento ou tolo, mas em sintonia com as cinzas das horas que nos queima e queima a todos e todas... “Alucinação” é um trabalho que chaga aos 40 novinho em folha, inspirador de futuros mas sem perder uma gota de realismo que nos faz pensar e lutar. Em tempos nefastos precisamos de arte a altura desse tempo e Belchior ainda é um poeta de nosso tempo.

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Romero Venâncio é professor Adjunto do departamento de filosofia da Universidade Federal de Sergipe.

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