• por cel bentin - poemas de lilian aquino

]DAQUI[ do quarto-escuro


[onde pupilas dilatam à vontade de ver sóis]

[Os poemas integram Daqui, segundo livro de Lilian Aquino, que será lançado dia 16 de fevereiro, na livraria, bar & café Patuscada - rua Luís Murat, 40, São Paulo - a partir das 19h.]

Perduração

de um poema de Donizete Galvão

O peso de um homem

é comparável

ao lugar onde pisa

ao modo como

apoia os pés

um depois do outro

neste chão de pedregulhos

que só existe

na superfície

viva e faminta

dos dias

E quando a superfície

acabar por livrar-lhe

da obrigação de sustentar

o próprio corpo

será sua a palavra

que desestabiliza

e não só a pedra dura.

A possibilidade de exibição

I

Aponta o pé

para a direita

e lança o corpo

numa pirueta

É a única coisa

que existe

(diz)

este universo

em torno

de um corpo

II

Dançar

como quem passa um café

num fim de tarde

como uma arma

adormecida no coldre

pois é inevitável

lidar com a existência

em movimento

balançando

bem diante

destes olhos

Último andar

Eu te encontrava no

elevador

tinha um espelho

daqueles que todo

mundo fotografa mas

a intimidade agora era

a distância subindo

desconhecendo nossos

reflexos esmaecidos

esquecidos das tantas

vezes que te chamei pelo

apelido diminutivo e

sem ter o que falar

– que não sou de gritos –

silenciava andar por

andar e eu repetia

a capacidade

máxima, o peso

a placa schindler

sem adivinhar o

quanto de carga

puxava no pensamento

aquele quadrado

suspenso por aço

correntes que prendiam

a respiração

porque eu te

tanto.

O estalo antes do flash é ocasião de poesia. A luz à sequência do estalo, também. Porém, ainda mais estreito e fugaz do que a linha do tempo entre um e outra é o flagra do espaço comum a ambos. Nele se testemunha a relação desse ambiente bem ou mal enquadrado na vida, esse entorno que dita mil novidades e normas antigas a toda gente, pisando calos ou soprando feridas diante de nossa revolta, amém ou dar de ombros. E é aí que a poesia panorâmica DAQUI dá o clique: os poemas quase fotogramas de Lilian Aquino atravessam o dia a dia em um dueto indissociável persona/meio; como grandes lentes objetivas, mapeiam a pauta cifrada em espaços/situações e olhares, sem deixar de expor a graça e a agrura vivas amiúde nos gestos e reflexos da urbe em cada um; reviram álbuns, rezarias e silêncios laicos no balaio-razão dos daquis "de dentro"; (d)escrevem a luz crua extravagante do cartão postal dos invisíveis da "loucura" nos daquis "de fora".

Assim a poeta mergulha em cada elemento e apura a voz das imagens. Ao fundir nela artimanhas de luz e sombra (e palavra), chama (o resultado); convida a uma imersão fluida, que toca perspectivas ricas, não lineares, e traz figuras que não atenuam o tom nem mascaram a legitimidade bruta do cotidiano. A beleza atroz DAQUI vem também dessa transfiguração: não desfia os extremos nem sua transparência. Seja qual for a direção do fio, o texto reflete e persegue um alvo, perfaz íntegro seu papel tal uma goiva atenta: esculpe seu propósito ciente de que, quanto mais afiado, menos lhe cabe corromper ou se desviar da verdade da madeira.

Nesse panorama bem munido e franco (atirador), Lilian arma o bote feito sniper, que (d)enuncia alto a que veio, sem abandonar a mira nem revelar presença ("que não sou de gritos", disse Daqui). De tocaia entre imagens no quarto-escuro, dilata a pupila à vontade de ver sóis, frisa o dedo no gatilho grafite, estira o verso armado em minha-tua direção e abre uma janela. Só então se desguarda e pergunta: - Trouxeste a chave?*1 E Hilda lhe responde: - Aqui nos tens entre a vigília e o encanto.*2 Tempo de esperança (por ti), e sem chave alguma. O quarto é bem teu. E todo nosso daqui (de fora e de dentro). Bem-vinda, Lilian, tu és a nossa primeira.

*1 de A procura da poesia, de Carlos Drummond de Andrade *2 adaptado do poema XIV (TELHAS, CASAS), de Hilda Hilst

***

1, 2, 3, 4ºEscuro

1ºChicPop - Você já disse ser curiosa a rara referência ao mar entre poetas paulistanos. De que referências, não necessariamente flagrantes em seus poemas, não abre mão em seus processos de criação? E o que prefere deixar adormecer no coldre de cada dia, mas gosta de ter à mão? Por quê?

Lilian Aquino – Acredito que não seguro nada com força suficiente para prender, e por isso talvez não haja algo de que eu não abra mão em minha poesia. Mas, ao mesmo tempo, existem, sim, temas que estão mais presentes no meu arsenal poético. O que foi referência no meu primeiro livro, Pequenos afazeres domésticos, e continua sendo no Daqui, são os cenários do cotidiano do indivíduo urbano, que têm suas vivências nas ruas de uma cidade enorme como São Paulo, imerso nas tensões que daí advêm, e ao mesmo tempo em espaços íntimos e silenciosos. Esses temas me interessam muito porque gosto investigar o lugar de onde o artista fala, como reage aos estímulos que o cercam. E como sou paulistana e estou nesse espaço de ação, consequentemente são essas as minhas referências. Agora, penso que o que adormece no coldre ainda está para fazer despertar na minha escrita, e não sei o que vai nascer no futuro.

2º CP - Você já citou fugir do hermetismo em sua escrita. DAQUI tem uma marca forte ligada ao jogo semântico, ainda mais refinado do que em Pequenos Afazeres Domésticos, seu primeiro livro. Você sente o leitor de poesia hoje mais hábil? Ou agora se permite mais esmaecer alguns reflexos do espelho para brincar com ele? Como sente ou deixa seus jogos "acessíveis"? Pede pareceres a colegas/parceiros?

LA - É um processo intenso esse de trabalhar e retrabalhar a palavra dentro da linguagem poética, e assim conseguir trazê-la para um registro, digamos, mais simples. Eu tenho sempre essa intenção quando escrevo. O universo temático do Pequenos afazeres ajudou bastante nesse sentido, mas em Daqui isso foi mais trabalhoso, exigiu muitas revisões e reescritas. O livro está dividido em duas partes que dialogam entre si e se complementam. A primeira (“Dentro”) tem como mote a razão, a ordem, a casa, e a segunda (“Fora”) traz a loucura, as paixões, a rua - uma dicotomia para dar conta das questões provocadas por um mundo ao mesmo tempo metódico e caótico. Então, a linguagem, nesse segundo livro, está a serviço desses temas, o que a meu ver justifica essa marca forte a que você se refere. Nesse sentido, penso que o leitor de poesia é sempre hábil pra sentir essas diferenças... E aí faço isso, sim, de colocar à prova mostrando a amigos escritores e não escritores, que sempre me dão ótimas respostas que me ajudam a me orientar nesse sentido.

3º CP - Você já organizou antologias, como a É que os Hussardos Chegam Hoje, e eventos literários, como a FLAP (Festa Literária Aberta ao Público) por vários anos. O que muda da escritora para a editora/organizadora de eventos? As funções se coadunam ou algo muda a fim de administrar tempo, relatórios e afetos nesse chão de pedregulhos, disciplinando o fluxo junto a pessoas que são pares como escritores? Chegou a sofrer no início ou sempre foi tranquilo?

LA - Por um lado, todas essas atividades estão muito ligadas entre si, porque a linguagem literária se encontra tanto na função de escritora quanto nas funções de editora e organizadora. É importante ser um bom leitor, antes de tudo, para ser um bom escritor e para saber selecionar autores para antologias e eventos. Sou formada em Letras e trabalho há muitos anos na área editorial como preparadora de textos, então acredito que eu seja uma boa leitora... Mas, por outro lado, são atividades distintas, pois, ao contrário da escrita, eventos e antologias são sempre realizados em equipes, sempre com muitas parcerias. Além do que, existem questões que em nada têm a ver com literatura, como organizar cronogramas, reservar locais, fazer parcerias para os eventos, dialogar com editores, diagramadores etc. Particularmente, são atividades que exigem disposição e dedicação quase religiosa, já que, no meu caso, quase nunca são atividades remuneradas, sendo a motivação a vontade de colocar a literatura “na rua”, de fazer circular os textos e de promover o encontro de escritores.

4º CP - Que espetáculo (cine/teatro/show) você indicaria para a comuna ChicPop? E que livro(s) e autor(es) você gostaria de hoje encontrar sozinho(s) num elevador com aqueles espelhos em que todo mundo fotografa? Conte uma história tua com ele(s).

LA - Eu indico o novo do Ken Loach, Eu, Daniel Blake, em cartaz nos cinemas. Acho um filme fundamental em tempo de golpe e crise da democracia no Brasil.Um livro que mudou minha vida foi o Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres, da Clarice Lispector, que li no início da vida adulta, com 20 anos. Mesmo que hoje esse nem seja mais o meu preferido da autora, eu teria vontade de me encontrar com a protagonista, Lóri, nesse elevador. E no intervalo entre o térreo e o 11º, diria à Lóri que eu me salvei, naquele verão de 2001, por causa dela.

Lilian Aquino é paulistana, autora de Pequenos afazeres domésticos (Patuá, 2011) e Daqui (Patuá, 2017, Bolsa ProAC de Criação Literária). Integrando saraus, antologias, periódicos impressos/virtuais e bate-papos sobre literatura, ocasionalmente organiza publicações e eventos literários, junto a outros autores. Para saber mais sobre a artista, clique nos links abaixo:

Livros Daqui e Pequenos Afazeres Domésticos - Editora Patuá

Programa Paisagens e Poéticas - rádio web Alma Londrina Sobre o projeto Poetizando (Natura) - Jornal da Paraíba

#poesia #lançamento #celbentin #literatura

243 views