• Bruno Galindo

Sobre cinema, pioneirismo e negritude: Adelia Sampaio, a Cineasta


A filmografia brasileira, sabe-se já, encontra vácuos de representatividade ao apontar suas lentes para a experiência de vida das populações negras no Brasil. Desde os filmes lançados na década de cinquenta pela falida Vera Cruz, passando pelo signo da fome, exaltado no alvo período do Cinema Novo, chegando aos retratos poluídos do Cinema Marginal, raríssimas são as obras nas quais pessoas negras têm destaque. E se tal panorama se enuncia entre as estatísticas de atrizes e atores, maior ainda é o vácuo quando essa análise repousa nos números específicos a respeito de cineastas negras. É, então, neste deserto de representações que se ergue a figura de Adelia Sampaio.

Adelia Sampaio travou um embate com o cinema brasileiro em tantos níveis, que citar sua importância passa por reconhecer, antes de tudo, a injustiça histórica cometida com figura tão fundamental. Em retrospecto, o marco do trabalho de Adelia se apresenta numa década de oitenta que, posta em análise hoje em dia, surja talvez como o período da filmografia brasileira no qual, de maneira mais contusa e ostensiva, se estabeleceu uma dinâmica de produção que deslocavam para campos frágeis e estereotipados experiências de representação de mulheres, de pessoas negras, de pessoas com orientações sexuais diversas. Sob a insígnia da pornochanchada, havia, desde o início, incutida nos processos de feitura dos filmes (assim como de novelas e outros formatos audiovisuais), a definição de dramas centralmente heterossexuais, a objetificação do corpo de mulheres, a definição do ideal mirado em corpos brancos, magros e bronzeados, o silenciamento de quaisquer sinalizações fora da curva.

Assim, num período em que o cinema brasileiro, mais uma vez, era dominado por homens, em todos os sentidos, Adelia surge como colecionadora de pioneirismos. Num período em que o cinema brasileiro, mais uma vez, era dominado por homens, Adelia surgiu como primeira mulher cineasta. Num período em que o cinema era dominado por homens brancos, Adelia surgiu como a primeira mulher negra cineasta. Num período em que o cinema brasileiro era marcado pelo surgimento de pornochanchadas fundadas em símbolos heterossexualizados, Adelia surgiu como primeira mulher, negra e cineasta a fazer um filme sobre sobre um casal lesbico. Reiterar, então, é sempre válido. Precisamos falar sobre Adelia Sampaio.

Amor Maldito, filme definitivo de Adelia, lançado em 1984, é, mais que uma produção cinematográfica, um documento histórico. É preciso assisti-lo, divulga-lo, reprisá-lo, recuperar através de sua permanência, a importância de Adelia Sampaio. E, sobretudo no momento atual, em que o cinema brasileiro vê surgir cineastas negras de imenso talento (Viviane Ferreira com O Dia de Jerusa, Larissa Fulana de Tal, com Cinzas, Thamires Vieira, com O Dia que Ele Decidiu Sair), herdeiras, direta ou indiretamente, dos pioneirismos de Adelia Sampaio.

Por fim, a prova mais triste da necessidade de falarmos sobre Adelia Sampaio se deu na última semana, dia 21 de novembro. Adelia Sampaio foi arbitrariamente detida no aeroporto Salgado Filho. As próteses de metal que a cineasta, já com 73 anos, tem nos joelhos, apitaram o detector de metais. Constrangida por funcionários da empresa, Adelia foi detida sob acusação de desacato. Vale reforçar, outra vez: uma mulher negra de 73 anos detida porque as próteses de metal dos seus joelhos apitaram no detector de metais do aeroporto. Diante de caso de racismo tão repulsivo e da condição inominável de humilhação ali submetida, a única resposta possível se faz das duas palavras mesmas que motivam inteiramente esse texto. Adelia Sampaio. Adelia Sampaio. Adelia Sampaio. Somadas a uma terceira, também fundamental. Viva Adelia Sampaio!


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