• Acauam Oliveira

Jair Bolsonaro ou a política como bullying


Quando a esquerda se depara com um fenômeno como o crescimento alarmante da popularidade de uma figura abjeta como o deputado Jair Bolsonaro, sua atitude reativa mais imediata é quase sempre a mesma: relacionar aquela figura horripilante com algum evento ou personagem historicamente traumático, de preferência que apontem para a direita (o stalinismo, por exemplo, está fora). Associa-se assim Bolsonaro (ou Serra, ou Alckmin, ou Temer, ou Trump) a Hitler, ao fascismo, etc., esperando com isso mobilizar os impulsos humanistas do público contra o caráter monstruoso daquela manifestação. O problema dessa estratégia no caso do Bolsonaro é que ele não apenas não parece se abalar nem um pouco, como aparentemente espera por esse tipo de associação, no mais bastante previsível. Sobretudo porque, dada sua fragilidade, ela acaba servindo muito mais para expor alguns “fantasmas” da esquerda do que para desmascarar o modus operandi perverso dos gestos de Bolsô.

Esse tipo de associação entre Bolsonaro e o Nazismo se dá muito mais no interior de uma “fantasia” da esquerda do que efetivamente nos gestos e atitudes canalhas do deputado. Quer dizer, é sempre possível estabelecer acertadamente semelhanças entre o discurso do deputado e o discurso nazista, mas não é difícil mostrar que seus gestos têm muito mais diferenças que semelhanças com o nazismo stricto senso (ser racista, homofóbico e violento pode te fazer um monte de coisa, e nazista é apenas uma delas). Aliás, é muito comum encontrar em sites de direita comparações entre o gestual de Lula e o de Hitler, sobretudo em seus discursos. Enfim, compreender o fenômeno Bolsonaro como nazismo é muito mais uma forma de enquadrá-lo em uma narrativa mais facilmente compreensível (e manipulável) pela esquerda do que uma maneira de explicar, de fato, o fenômeno que ele representa. E o problema aqui é que, caso seu interlocutor não tenha simpatias pela esquerda, fica muito fácil apontar a fragilidade da associação e o grau de “histeria” da analogia – como se a esquerda ganhasse em dignidade ao confrontar um monstro, e não um simples idiota.

Por isso mesmo gostei bastante do vídeo do vloguer Pirula (que parece ser um cara bacana, apesar de ter o mesmo defeito básico de todo vloguer, progressista ou reaça, que é falar sobre todo e qualquer assunto, especialmente dos que entende pouco) em que ele analisa o episódio do cuspe do deputado Jean Wyllis em Bolsonaro, contra as provocações e falas escrotas do sujeito. O interessante dessa análise é que ela justamente foge ao tipo de “avaliação de conteúdo” feita pela esquerda. Para entender o Bolsonaro, Pirula não volta até o nazismo, que ajuda muito pouco a entender porque o deputado faz sucesso entre a molecada onanista da net. Ele vai analisar não o conteúdo ideológico, mas o método de ação do deputado, seu modus operandi, que é aquilo que garante seu sucesso. E Pirula irá encontrar precisamente no ambiente escolar uma metáfora bem interessante pra compreender o “método” canalha do nobre deputado – aliás, bastante “infantil”, no sentido mais perverso da palavra.

Segundo Pirula, Bolsonaro é aquele típico cara grandalhão, bem mané e idiota, que faz bullying com qualquer um que esteja em situação de fragilidade, e que por meio dessa zoeira impiedosa se torna alguém “respeitado” e considerado no rolê – caso contrário, seria mais um loser. Essa figura impõe sua estupidez como norma a partir da qual persegue seus alvos. Ora, todos os que têm um mínimo de contato com a educação sabem que essa figura não desapareceu do cotidiano escolar: a despeito de todos os esforços institucionais para punir a covardia dos chamados “valentões”, crianças e adolescentes continuam praticando todo tipo de perversões e humilhações contra sujeitos mais vulneráveis – a mais recente moda é o vazamento de vídeos íntimos de meninas. Bolsonaro é o típico representante dessa classe, militante pelo direito dos babacas de humilhar os nerds, os pretos, os gays e as mulheres.

Como era de se esperar, Pirula foi bastante criticado por algumas pessoas mais a esquerda, com o argumento de que essa analogia reduziria um fenômeno bastante sério de alcance nacional a uma questão escolar infantil (novamente, Bolsonaro tem que ser comparado a grandes monstros, como Hitler e Judas: mesmo que historicamente a comparação não se sustente, é preciso indicar o tamanho da monstruosidade com metáforas à altura – por mais “manjadas” que estas estejam). Entretanto, demonstrar o caráter infantil das atitudes de Bolsonaro (e em maior medida, de Donald Trump) e seus seguidores não é de forma alguma menosprezar sua violência. Não se trata de diminuir os gestos de Bolsonaro como brincadeiras infantis inconsequentes (e sabemos o quanto as escolas podem ser perversas), mas reconhecer a especificidade de seu método, que consiste em fazer com que que sua boçalidade, que poderia ser um ponto fraco, jogue a seu favor. É entender como suas atitudes retrógradas fazem tanto sucesso entre a Geração Y viciada em redes sociais: o facebook é um espaço profundamente infantilizado, onde predomina o narcisismo das selfs e as demonstrações de ódio sem fundamento. Ou seja, coisa de moleque.

Muitas de suas atitudes se explicam por meio da imagem do “valentão da escola” - não exatamente aquele que bate pra roubar o dinheiro do lanche, mas aquele que faz bullying e humilha os “colegas”: o sucesso cada vez maior entre os adolescentes onanistas que adoram se juntar em bando para humilhar o diferente; o seu anti-intelectualismo explícito e a valorização de sua estupidez como “coisa de macho” (afinal, estudar é para nerds idiotas – daí o “fracasso” programático de estratégias que mandam o outro estudar história, pois estudar é a priori desvalorizado como coisa de nerd, sendo considerado sinal de fraqueza); a maior parte de suas falas ofensivas, comprometidas não com a verdade, mas com a provocação pura e simples. E aquilo que é mais impressionante: a alucinação da tese – em que muitos efetivamente acreditam - de que vivemos em uma espécie de ditadura gay esquerdista. Ora, o valentão foi por muito tempo a figura mais socialmente valorizada, tanto na escola como nos meios midiáticos. Nos filmes, novelas e desenhos ele era a figura que as mulheres desejavam e os homens invejavam. De uns tempos pra cá, entretanto, com a ascensão do discurso liberal multiculturalista, até a Disney passou a valorizar figuras fora do padrão, que não se enquadram (é claro que sempre dentro de um padrão, mas isso não vem ao caso). O valentão passou a ser representado como aquilo que ele, efetivamente, é: um grande idiota inseguro e narcisista. Resumindo, o mocinho agora é o Shrek, e o valentão é o Encantado, ridicularizado do início ao fim. Tomando esse discurso ideológico liberal pela realidade – e gamers adolescentes tem uma propensão “natural” pra esse tipo de desvio – é fácil para Bolsonaros e afins fazerem valer a tese da ditadura gayzista: não importa que só tenha um parlamentar que seja homossexual assumido na Câmara, pois todo desenho da Disney reforça que o antigo machão é ridículo, e está com os dias contados – o destino dos antigos cowboys é ficar abandonado e esquecido, como Woody em Toy Story. Por isso, a ameaça, confirmada pelo desenho da moda, é “real”. Os contos de fadas modernos são o verdadeiro pavor desses sujeitos, abalando os alicerces absolutamente fragilizados de suas fantasias machistas de homens nus e saradões que não se desejam de jeito nenhum.

(Como bem lembrou o César Takemoto em texto recente, os riscos desse discurso identitário liberal utilizado pela Disney e afins é excluir de sua representação a classe trabalhadora branca e masculina - e mesmo o trabalhador preto pobre - que pouco se identifica com a imagem do nerd frágil. “Na reinvenção multiculturalista do protagonismo e na sua capacidade de "sustentar grandes coalizões" progressistas, esses antigos heróis permanecem de fora, acumulando ressentimento).

A estratégia de Bolsonaro consiste, basicamente, em transformar a política em bullying. Seus atos e falas não visam provocar reflexão - especialmente quando ele se dispõe a “explicar” alguma coisa (porque a homossexualidade não é natural, ou porque as mulheres devem receber menos, etc.). Seu objetivo é simplesmente silenciar e humilhar o adversário, com muita “zuêra”. Essa é uma categoria fundamental: Bolsonaro elegeu a zuêra como método de atuação, e nisso não está sozinho, pois faz um tempo que a direita elegeu a zuêra como padrão de discurso que desestabiliza a “seriedade” e certo teor de “elevação moral” que a esquerda gosta de representar para o mundo e, sobretudo, para si própria. Olavo de Carvalho é o intelectual zuêro, Reinaldo Azevedo é o analista político zuêro, Danilo Gentilli é o humorista-crítico zuêro, Lobão é o crítico cultural e comentarista zuêro, Pondé é o filósofo zuêro, etc. Bolsonaro não é admirado pelo conteúdo de suas falas, e sim porque mostra pros “esquerdopatas” quem é que manda, detonando os caras com tiradas zuêras. Por exemplo, mesmo apoiadores do Bolsonaro (é só dar uma conferida em páginas como Bolsonaro Zuêro 3.0, ou Bolsonaro Opressor 2.0) ficaram constrangidos com sua postura antidemocrática na votação do impeachment, ao dedicar o voto a um torturador. Entretanto, julgaram ser um mal necessário, pois o mais importante é desestabilizar a esquerda, e não tem nada melhor para fazer a esquerda descer do salto do que defender a ditadura. A estratégia de Bolsonaro, ainda que ancorada na ignorância, é bastante esperta: suas atitudes são quase sempre calculadas (ou improvisadas) para se tornar memes contra a esquerda, para fazer dele um ídolo dos haters.

Entretanto, a análise que Pirula faz do Jean Wyllys não é, a meu ver, tão certeira. Segundo o vloger, Jean seria uma espécie de “vítima perfeita” para o tipo de idiota que o Bolsonaro representa, por ser aquele sujeito esquentadinho, que se irrita muito fácil. Aquele tipo que todo mundo conhece bem, que se irrita com qualquer brincadeira, e que por isso mesmo acaba sendo alvo de todos os apelidos (primeira lei da Selva da escola: nunca se mostrar fragilizado ou abalado pela zuêra). Na verdade, o fato de Jean ser esquentado e não aguentar brincadeira é muito mais uma característica da esquerda, mesmo da esquerda festiva (o que não é necessariamente ruim), que uma característica individual e particular dele. Creio que aqui o Pirula errou na caracterização das vítimas de bullying. Jean é o alvo preferencial não por ser facilmente irritável, mas porque ele está sozinho ali naquele congresso com cara de 5ª série F, cheio de macho homofóbico, cínico e sexista, como único homossexual assumido. Desse modo, o objetivo de Bolsonaro é expulsar Jean da escola, provocando-o até ele reagir, se queimar ou desistir. Tudo porque ele é homossexual assumido.

Mas então o que fazer nesse caso? Como reagir? Uma primeira lição é aquela que (quase) todas as mães ensinam pros seus filhos, ou pelo menos algum tio mais malandro: ficar quieto não adianta, porque a humilhação só termina com o extermínio simbólico de um dos lados. Quem não reage apanha pra sempre, ou pelo menos até aparecer uma nova vítima da vez. A questão não é a necessidade de reação (é preciso reagir), mas a forma de se fazer isso. Falar com a direção (como sugerem aqueles para quem Jean Wyllys devia ter entrado com mais um processo legal que, de novo, não daria em nada) no geral causa mais problemas do que resolve, especialmente quando o sistema escolar claramente preferia ver a vítima fora dali. Entretanto, reagir a provocação com uma explosão, cuspindo no idiota, apesar de poeticamente lindo, não parece ser a melhor alternativa (estrategicamente falando, embora “lavar a alma” possa ser o início para construção de alguma estratégia). Isso porque nesse caso o opressor consegue exatamente o que queria (basta ver o teor do vídeo de Bolsonaro sobre a cuspida), e quem sofre bullying corre o risco de tomar uma advertência ou, na pior das hipóteses, ser expulso da escola.

A meu ver as melhores reações nesse caso são as mais “malandras”, aquelas que colocam o opressor no lugar de idiota, do qual ele não consegue escapar (a não ser se for suficientemente esperto, o que não é o caso do Bolsonaro, facilmente provocável). Um exemplo absolutamente genial foi a resposta da Laerte as provocações homofóbicas do Reinaldo Azevedo: Laerte simplesmente declarou publicamente que morria de tesão pelo bofe. De um só golpe saia da condição reativa de vítima para a de sujeito que faz do Outro objeto de seu desejo. A estratégia de Bolsonaro baseia-se na contradição básica do machista típico, que precisa fantasiar a homossexualidade passiva do Outro, forçando-o a se submeter ao modelo homossexual fantasiado pelo homofóbico. A perversidade do movimento é que, por ser uma relação de poder, quanto mais a vítima se esforça para demonstrar que não é aquilo que o perverso imagina, mas abre espaço para essa imaginação se estruturar da forma como quiser. A única maneira se escapar desse não-lugar é a de preencher essa fantasia exatamente com aquilo que ela deseja, mas não pode assumir de forma alguma. Um tipo de resposta dessas - fazendo do Bolsonaro objeto de desejo das bibas do Brasil, por exemplo, com campanha nacional - faria com que ele e seus seguidores saíssem completamente dos eixos. Veja que não se trata aqui do argumento equivocado que sustenta que todo machista é um homossexual enrustido (o que faz com que o “problema” permaneça na esfera da homossexualidade, quando o que se deve questionar é a própria heteronormatividade). A questão é mostrar que a própria heterossexualidade para existir enquanto tal precisa criar continuamente conteúdos homossexuais para si. A melhor estratégia aqui é adotar a malandragem do Pelé em campo, que sussurrava manso na orelha dos zagueiros, alisava a bunda e deixava os caras malucos, inseguros, de novo expostos a terra devastada de seus desejos. Não digo que Jean deveria fazer isso literalmente, é claro. Penso mais no simbolismo estratégico da coisa. A meu ver, uma reação dessas invisíveis e fulminantes seria mais eficiente e malandra que sua exposição com a cusparada.

#AcauamOliveira #política

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