• Natália Leon Nunes

De Gilmore Girls a Girls e youtubers famosas: o que, afinal, parece ter mudado?


O primeiro seriado que assisti do início ao fim foi Gilmore Girls. Hoje, viciada em Girls e expectadora de um ou outro youtuber, pergunto-me o que mudou de lá para cá. Série do inicio dos anos 2000, Gilmore Girls parece pertencer a um passado longínquo. Ficam aqui alguns chutes.

Gilmore Girls, cuja estreia é feita em 2000, trata da vida de Lorelai Gilmore e Rory Gilmore, mãe e filha que moram na pequena cidade fictícia de Stars Hollow [contém spoiler do último capítulo]. Filha de Richard e Emily Gilmore, casal rico que planejava o futuro da filha em Yale, Lorelai engravida do namorado Cris aos 16 anos e, ao ter a filha, decide ir embora da casa dos pais e ter sua vida na pequena cidade de Connecticut, onde é acolhida pela dona de uma pousada e acaba tornando-se, mais velha, gerente do local. O seriado começa quando Rory tem 15 anos. Estudante de escola pública, ela é aceita em Chilton, colégio privado que pode prepará-la melhor para a Universidade. Sem dinheiro para pagar a mensalidade cara da instituição de ensino, Lorelai procura seus pais, com quem tem uma relação difícil e distante, que aceitam ajudá-la desde que recebam visitas da filha e da neta semanalmente.

Rory é uma adolescente doce e estudiosíssima que faz a ponte entre estes dois mundos: a elite à qual pertencem seus avós e a classe média de Stars Hollow à qual pertence sua mãe. Lorelai é uma self made woman de sucesso: ao longo das temporadas, torna-se proprietária da pousada. Conhecida pela cidade toda, administra bem seu negócio sem precisar de um diploma e orgulha-se de ter rompido com a educação conservadora e hipócrita dos pais. A própria cidade das Gilmore Girls, arborizada, segura e calma, na qual todos se conhecem, é um elogio a Lorelai e à vida nos Estados Unidos – sem violência, sem desemprego, em harmonia. O mundo dos avós também se revela importante para a vida da filha de Lorelai, que acaba desistindo de Harvard (faculdade sugerida pela mãe) para ir para Yale (querida pelo avô) e transita bem entre os ambientes da sua família. Um exemplo disso são seus namorados: Dean, que estuda na sua escola antiga e trabalha no mercado de Stars Hollow e Logan, que ela conhece em Yale e é filho de família rica e amiga dos seus avós. Rory refaz o vínculo perdido entre sua mãe e seus avós, realizando o sonho que Richard e Emily tinham para Lorelai, sem com isso abandonar o cenário simples e harmonioso de Stars Hollow. As temporadas da série acompanham seu desenvolvimento escolar. Na última temporada, a garota se forma como jornalista. O último capítulo é marcado pela notícia de que ela foi chamada para um posto de trabalho importante e terá que se mudar da casa da mãe. A cena final é a despedida das duas no Luke´s, lanchonete que frequentam desde a primeira temporada, cujo dono (Luke) torna-se namorado de Lorelai. Formada, dona de um diploma e com emprego que obtém rapidamente após a formatura, Rory, que cumpriu sua missão de restabelecer os laços da própria família, pode enfim cortar o cordão umbilical de vez.

Estreado 12 anos depois, em 2012, o seriado Girls pouco tem a ver com Gilmore Girls. No entanto, há um denominador comum: o público. Amados sobretudo por adolescentes e jovens mulheres, Gilmore Girls e Girls, de formas muito diferentes, falam de rituais de crescimento e de dilemas femininos. Girls, no entanto, não tem a pureza da história que começa em Stars Hollow. Passada em Nova Iorque, a série conta a história de quatro amigas, Hannah, Marnie, Jessa e Shoshana. A primeira cena mostra conversa dos pais da protagonista, Hannah, com sua filha. Moradores de cidade do interior, eles viajam até Nova Iorque para anunciar a Hannah que, agora que ela está formada, eles cessarão o envio de sua mesada. Chocada com a notícia, Hannah tenta argumentar, insistindo no fato de ser uma grande escritora que precisa de suporte financeiro até ser devidamente reconhecida, mas seus pais não mudam de ideia. Começa então a saga de Hannah por um trabalho, já que o estágio que ela possui não é remunerado. Marnie, flatmate e grande amiga de Hannah, trabalha em uma galeria de arte no início da série, mas logo é demitida e inicia também sua trajetória em busca de emprego. Jessa, a inglesa amiga de infância de Hannah, chega em Nova Iorque no primeiro episódio depois de fazer mochilão pela Europa e arranja um trabalho como baby sitter (a primeira atividade remunerada da sua vida). Sustentada a vida toda por uma família com quem tem relação muito difícil, a garota nunca fez faculdade e chega a fazer rehab numa clínica na terceira temporada. Por fim, Shoshana, prima mais nova de Jessa, inicia o seriado ainda na faculdade, empolgada com as atividades extra curriculares e com as festas universitárias. Ainda distante da crise pós diploma que Hannah e Marnie vivem e muito diferente da indiferença blasée de sua prima, Shoshana poderia ser a mais próxima de Rory nos seus tempos de faculdade.

Mas isso é impossível, especialmente porque Girls trata também das relações amorosas das quatro amigas. Nos primeiros capítulos da primeira temporada, Jessa marca um aborto numa clínica pois descobre que está gravida ao voltar de viagem. Hannah aproveita a ocasião para fazer um exame e descobre que tem HPV. Shoshana, enfim, confidencia a Marnie na sala de espera que ainda é virgem – grande drama de sua vida universitária. Uma das marcas do seriado é tratar o sexo de forma menos romantizada, como fizeram séries como Gilmore Girls, Dawson´s Creek e The O.C.. Se em Gilmore Girls, Lorelai fica aliviada num episódio em que escuta sua filha (ainda no colégio) contar que ainda é virgem, em Girls, o problema de uma jovem universitária é ter terminado o ensino médio sem resolver esse “problema” que é a virgindade. Enquanto Shoshana sofre ao ver ficantes se recusando a transarem com ela, já que para eles transar com uma menina virgem é situação muito tensa, Rory perde sua virgindade com Dean, primeiro namorado com quem havia terminado e volta após entrar na faculdade. Shoshana, resolve seu “problema” com Ray, o amigo um pouco mais velho da turma, que trabalha num café, é hiper pessimista e irônico e se encanta com a jovem – que, ao contrário dele, manda sms´s com emoticons, adora cor de rosa etc.. O encontro inusitado dos dois não é, todavia, uma noite hiper romântica. Shoshana perde sua virgindade e sofre, pois num primeiro momento Ray não quer saber dela.

O sexo, aliás, é uma das novidades de Girls. Conhecida por ter cenas de sexo mais explícito, a série não se limita a mostrar boas relações sexuais. Na primeira temporada, enquanto Hannah frequenta a casa de Adam (com quem fica e depois começa a namorar) e mostra clara confusão ao ficar de quatro a pedido do ficante, Marnie, por quem o namorado Charlie é apaixonado, demonstra tédio e falta de interesse enquanto os dois transam da forma como muitas séries já mostraram o sexo considerado romântico – deitados na cama dela, sem palavrões, sem posições ousadas etc.. Na quarta temporada, já separada de Charlie, Marnie aparece numa cena de sexo que causou polêmica nos Estados Unidos. O sexo, aliás, não pode ser pensado separado das muitas cenas em que Hannah aparece nua. Rotulada de gorda pelos padrões de beleza atuais (e faço aqui a ressalva que a própria Lena, junto com outras atrizes, cantoras e apresentadoras, está mudando este cenário), a atriz Lena Dunham que também é roteirista da série protagoniza diversas cenas, não apenas de sexo, em que exibe seu corpo. Feminista, Dunham é hiper criticada pela imprensa americana mais conservadora e até mesmo por sites mais progressistas como o blog feminista Jezebel.

Longe do cenário róseo de harmonia e conciliação de Gilmore Girls, Girls é espécie de amostra da vida dos jovens da chamada geração Y como ela é (ou, ao menos, em uma das formas que ela pode ser, de fato, sem toda a romantização das séries americanas mais antigas). Rehab, sexo ruim, transtorno obsessivo compulsivo, fossas vividas diante da tela do facebook ou na companhia de um pote de sorvete, muitos fracassos nas tentativas de emprego e/ou estudos etc.. O último ponto é comum às personagens jovens da série: todas elas, sem exceção, vivem caminho errático, cheio de medo e frustrações, quando o assunto é trabalho. Na quinta temporada, última que foi exibida, Hannah, que já fez de tudo um pouco, decide se demitir da escola em que estava dando aula. Jessa finalmente quer se tornar terapeuta e está estudando para a faculdade. Marnie desiste da vida das galerias para ser cantora. Shoshana, que criticava a vida confusa das amigas mais velhas, percebe que está parecida com elas ao voltar do Japão, onde trabalhava, e se ver sem emprego. Ainda que tudo aponte para uma superação, o caminho das personagens é muito distante da trajetória de Rory Gilmore, cuja vida não tinha sobrepeso, palavrões, nudez e hesitações na hora das escolhas profissionais. Vale ressaltar, também, que a precarização do trabalho não aparece em Gilmore Girls. Em Girls, além de ganharem pouco em alguns de seus empregos, muitas personagens precisam da ajuda dos pais e se veem trabalhando com algo que não tem nada a ver com suas faculdades.

II

Lena Dunham e seu roteiro de Girls parecem compor contexto maior em que a difícil vida adulta de jovens que cada vez mais desconhecem a carteira de trabalho, as longas trajetórias em apenas uma empresa etc. torna-se entretenimento. Para citar um exemplo brasileiro, a série Adorável Psicose, estrelada também por sua autora, Natália Klein, fala da vida de Natália, blogueira que reclama do seu corpo, das suas relações com os homens e da sua situação profissional. Estreada em 2010, a série foi feita baseada no blog da roteirista, Natália Klein, cujo conteúdo falava sobre frustrações amorosas e profissionais/financeiras e dificuldade de aceitação (do próprio jeito e do próprio corpo). Formada em jornalismo, Natália conta de forma divertida nesta entrevista algumas de suas aventuras na profissão enquanto ainda não tinha se tornado atriz, roteirista e humorista.

Essa geração que fica famosa por expor seus fracassos não se limita a séries e filmes. É impossível não pensar nesse fenômeno sem incluir a internet e as profissões relativamente recentes dos youtubers e blogueiros. O assunto é gigantesco, então limito-me a comentar duas figuras bem conhecidas na internet que, de alguma forma, dialogam com Lena Dunham e Natália Klein: Gabriela Pugliesi e Jout Jout. Pugliesi, num primeiro momento, é uma espécie de antítese das outras mulheres citadas. Loira dos olhos azuis e corpo escultural, é blogueira e youtuber fitness que ficou famosa postando fotos que mostravam seu desempenho das dietas e exercícios. Pugliesi tem hoje 2, 6 milhões de seguidores no seu instagram, é dona de restaurantes e lojas, faz propagandas e merchandisings para diversas marcas e já fez um quadro no programa global do Luciano Huck. Se ela destoa do resto do grupo por insistir em dietas radicais, malhar muito todos os dias e exibir um corpo sarado (e um noivo igualmente sarado) nas redes sociais, sua ascensão lembra um pouco o conflito das personagens de Girls e Adorável Piscose. Gordinha durante a infância, com muita dificuldade de perder peso e manter a forma na adolescência, Pugliesi fica famosa justamente quando exibe seus conflitos e problemas nas redes sociais. Formada em Design, larga o emprego no mundo corporativo para se dedicar ao seu blog. Já no auge de sua fama, é muito citada na imprensa após começar a namorar Erasmo Vianna, seu atual noivo, e ser acusada por outra blogueira fitness de tê-lo “roubado”. Também é alvo de muitos comentários quando, num vídeo do snapchat, sugere às mulheres em dieta que mandem foto nuas para suas melhores amigas, que poderão expor essas nudes caso elas saiam do regime. O conselho de Pugliesi foi muito criticado (aqui e aqui alguns exemplos) e a blogueira fitness chegou a comentar a repercussão na época, chorando em um dos vídeos em que se explicava dizendo ter sido mal compreendida. Essas informações importam porque, tal como Jout Jout e muitas outras celebridades virtuais, Pugliesi trabalha sempre expondo muito sua vida pessoal. É da exposição da sua vida íntima e da interação com seus fãs que nasce sua fama.

Jout Jout torna-se famosa após postar no youtube o vídeo Não tira o batom vermelho. De forma bem humorada, a jovem descreve uma série de situações em que um relacionamento é abusivo. O vídeo tornou-se hit de feministas nas redes sociais. Depois dele, o canal de Jout Jout passou a ser hiper acessado. Ainda que tenha feito propaganda para a Vivo e faça merchadising de marcas em seu canal, a youtuber é muito distante de Pugliesi se pensarmos nas falas de cada uma delas. Se Pugliesi mostra como as mulheres podem ter bunda e coxas bem definidas e exibe viagens pelo mundo, Jout Jout grava seus vídeos sem maquiagem, de legging e camiseta larga e fala da possibilidade das pessoas viverem de forma menos mainstream. Seus vídeos vez ou outra abordam temas como coletor menstrual, masturbação feminina, assédio sexual na infância, forma de responder às expectativas ainda comuns de que toda mulher seja mãe etc.. Ainda que Jout e Pugli pertençam a universos distantes, é interessante achar os pontos comuns destas duas personagens. Pois Jout Jout também exibe muitos detalhes de sua vida pessoal (seu namorado, seus amigos, histórias da sua família), também relata que, com um diploma na mão, não era feliz no seu trabalho e inicia sua jornada como figura pública nas redes sociais para, justamente, lidar com seus fracassos e medos de críticas. Destaco aqui o fato do diploma da faculdade servir pouco às duas num país em que ainda temos uma exigência bacharelesca tremenda (é válido pensar na falácia dos diplomas e nestes trabalhos que surgem em que a vida pessoal é o conteúdo do trabalho, tudo isso aliado ao classismo que, em pleno 2016, segue dizendo que não poderíamos ter permitido que um operário sem diploma chegasse à presidência). Mas Jout e Pugli não são como Lorelai Gilmore, que não fez Yale, mas administra uma pousada. O trabalho de Lorelai ainda faz parte dos ofícios aprendidos e aperfeiçoados com o tempo, distantes dos empregos que exigem flexibilidade e são rapidamente abandonados por jovens, pois seguir uma carreira numa empresa só já não é mais ponto positivo no currículo. Durante toda a sua vida, Lorelai é uma excelente administradora, cujas habilidades ela ganhou em apenas um emprego. Qual é, afinal, o ofício de Pugli e Jout? Certamente algo que não era tão popular nos tempos de Stars Hollow. Ambas caem na graça do público ao exibirem muitos detalhes de suas vidas pessoais. Conforme vão ganhando fãs, começam a ter mais visibilidade na mídia e recebem mais convites de marcas. Essa relação de proporcionalidade entre fãs e fama é interessante. Com a internet e essa possibilidade de qualquer um falar ao mundo sem precisar passar por teste de emissora de tevê, a relação fãs e fama parece se inverter. Pois primeiro vêm os fãs, que descobrem sem mediação de uma emissora ou rádio aquela pessoa. Depois, os convites de grandes marcas para as celebridades da internet. Se há atrizes globais que se tornam conhecidas quando estrelam uma novela, no caso de Pugliesi e Jout Jout, é o número de fãs que as faz serem chamadas para programas na Globo, por exemplo. Fãs significam ibope, mas na era da internet, fãs significam também consumidores (talvez, por isso, como declarou Nah Cardoso, blogueira famosa, o nome deste novo ofício seja influenciador/a, ou, como tenho lido, digital influencer, que poderíamos chamar também de fazedor de merchandising).

Ressalto aqui também mais uma diferença grande no ofício de influenciador e na profissão de Lorelai: youtubers e bloggers parecem não ter mais uma linha que divida trabalho e diversão. Basta ver instagrams de blogueiras famosas para entender que suas viagens a lugares paradisíacos são postadas e geralmente anunciam a marca que financiou este ou aquele passeio. Não há mais a distinção lazer e trabalho. Lazer é trabalho (não necessariamente porque elas amam tudo o que fazem e começaram a questionar o sentido da palavra lazer, mas porque pagam suas viagens trabalhando no hotel, no avião e na beira da piscina). E antes que comecemos a rir de quem hoje viaja trocando a hospedagem e a passagem pela propaganda da agência de viagens no instagram, lembro que nós todos, usuários das redes sociais, agimos de forma semelhante ao narrarmos nossas vidas e fazermos check in nas praias que conhecemos nas férias. A diferença é que não ganhamos dinheiro com isso. Mas como nem todo trabalho é remunerado, acredito que trabalhamos de graça para Zuckerberg e muitos outros sem receber. Nossas horas vagas, em que olhamos o twitter e o facebook para dar risada, postar fotos e compartilhar conteúdos, são horas de trabalho. Produzimos sem parar, garantimos muitos acessos em redes sociais (e garantindo esses muitos acessos, deixamos seus donos ainda mais ricos), somos atingidos inevitavelmente por propagandas de marcas, curtimos as páginas dessas marcas e fazemos, sem muito glamour ou fama, a mesma atividade em que lazer e trabalho já não se distinguem. Mas enquanto somos reles mortais consumidores, 24 horas por dia trabalhando por meio de smpartphones e tablets, essas celebridades de internet são minas de ouro para grandes empresas. É o caso, por exemplo, da youtuber Kéfera, hiper visada por diversas marcas, que confiam muito mais nesse tipo de personagem do que no merchasiging feito em novelas, por exemplo, como mostra esse texto aqui.

Há diversas crias de Jout Jout e Pugliesi: homens e mulheres que criam seus próprios canais na tentativa de conseguirem uma fatia deste bolo. O problema dessas inúmeras tentativas é que, ainda que estas youtubers falem sobre a possibilidade de todo mundo ser feliz (usando coletor menstrual e se masturbando sem crise ou fazendo agachamentos e comendo dietas sem glúten), o modelo de felicidade são elas mesmas. E sabemos, se suas famas dependem de muitos fãs e todos estes fãs querem ser Jouts Jouts e Pugliesis, a conta não fecha. Pois toda celebridade virtual precisa de milhões de curtidas para seguir recebendo convites e fazendo merchandisings. O bolo, portanto, não dá pra todo mundo, e esta lógica determina que enquanto alguns o comem de fato, uma maioria assiste à festa pelas redes sociais e aperta a tecla curtir. Aqui, faço a ressalva enorme de que não dirijo essa crítica às youtubers supra citadas, mas à lógica à qual elas pertencem. Faz parte do cenário virtual atual uma chuva de ataques agressivos e, como mostrou o autor britânico Jon Ronson, que escreveu um livro sobre linchamentos virtuais, as mulheres costumam ser mais vítimas destes ataques do que os homens. A Pugliesi e Jout Jout, meu respeito. Sobretudo pela segunda, cuja fama foi acompanhada de aproximação não só do feminismo, como do feminismo negro – dados que não podem ser vistos com a lente adorniana que despreza toda forma sem pensar no seu conteúdo num país cujo machismo e o racismo matam todos os dias.

No início deste ano, a Netflix anunciou que haveria novos episódios de Gilmore Girls disponíveis no site (boatos dizem que a nova temporada chega em novembro). Enquanto espero ansiosa, pergunto-me o que veremos nas cenas atuais da mãe e da filha e sua cidadezinha adorável. Em tempos de precarização do trabalho, crise econômica mundial, celebridades virtuais movidas pela massa de fãs-consumidores, ascensão da extrema direita em muitos países, extremismo religioso e violência dirigida às minorias que, sob muita opressão, ganharam mais espaço e voz nas últimas décadas (vide o ataque à boate gay de Orlando), consequências do golpe recente no Brasil ( como a sugestão de que trabalhemos 80 horas por semana) e esgotamento de um projeto político cujo consumo era elemento central (gostaria de ver um estudo sério sobre a criação de muitas marcas de maquiagem nas duas últimas décadas do Brasil e o surgimento da figura da blogueira de maquiagem, personagem que certamente dialoga com as mulheres de quem falei acima), o que nos mostrará a série em que os diferentes mundos se reconciliavam num cenário belo, inocente e sem contradição? E se o cenário róseo persistir, a audiência ainda assim será grande? Enquanto sigo perdida no atual cenário distópico sem essas respostas, refaço minha série de exercícios físicos aprendida no youtube, vejo cenas da vida pessoal alheia e sigo viciada em seriados. Adrenalina, auto-ajuda e enlatados americanos e nacionais, afinal, têm sido uma boa dica para seguir o imperativo “Não pense em crise”.

Os: há um universo gigantesco de séries e canais do youtube de sucesso. Ainda não conheço todos e possivelmente nunca conhecerei. O texto acima é resultado de vícios e curiosidades que tenho na internet. É preciso matizar o que foi dito e conhecer mais para continuar essa história, mais complexa do que apresento, coisa que tento fazer nas minhas horas de lazer-trabalho.

#convidado #cultura #seriados

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