• Ana Carolina Teles, Vinicius Pastorelli

Sobre "A Moon Shaped Pool", o novo disco do Radiohead (e uma pitada de Beyoncé)


Enfim foi lançado no último domingo (8) o mais recente disco do Radiohead, "A Moon Shaped Pool", o primeiro desde "The King of Limbs", de 2011. Pouco tempo depois o Breno fazia um post comentando o que tinha achado do disco, o que acabou por desencadear um debate muito interessante não apenas sobre esse novo trabalho, mas sobre o sentido deste álbum em relação ao contexto geral dos demais trabalhos do grupo. Um tipo de crítica que foge um pouco ao que pode ser lido por aí. Afinal, mais do gostar ou não gostar, e criar argumentos para defender se esse é ou não um grande álbum, é necessário compreender as razões para esse sucesso - ou fracasso - o que no caso dos grandes artistas será sempre uma questão de ordem mais ampla, que diz algo importante não apenas sobre sua produção, mas sobre o nosso mundo. Nesse sentido, muitas vezes os problemas podem ser ainda mais interessantes que os acertos.

Breno: Alguns comentários sobre o novo disco do Radiohead. (Disclaimer: eu sempre reclamo deles, não vai ser diferente desta vez). O disco novo do Radiohead foi feito sob medida para os fãs de uma banda que já foi revolucionária, mas agora é um mais do mesmo cheio de marra. Quem ouvir "A Moon Shaped Pool" vai encontrar o mesmo Radiohead dos últimos discos com mudanças pequenas, mas suficientes para que pareça estar avançando em alguma direção.

Destaco um distanciamento ainda maior da forma-canção e algumas orquestrações que lembram Steve Reich e os arranjos do Eumir Deodato para a Björk.

Essas desconstruções no geral são legais, mas perdem o radicalismo quando se convertem em fórmula. E o que senti nesse disco é que eles se apoiam mais do que nunca em uma fórmula específica: partem de um som mais ou menos anódino com uma progressão de acordes bem específica (como sempre fez o Santana, por exemplo).

Em seguida eles agradam os fãs construindo um “wall of sound” bem fechado ao estilo das velhas gravações da Motown, mas ao invés das vozes e instrumentos sobrepostos, eles usam o que os críticos do rock progressivo costumavam chamar de "barulhinhos": várias camadas de “white noise” que deixam o som cheio e homogêneo. (Daí aquele velho papo de que só é possível apreciar no fone de ouvido, etc).

O "segredo" da receita é um Thom Yorke cada vez mais desconectado, que fica gritandinho, murmurando ou resmungando, por

falta de expressão melhor.

O disco é um 3 de 5, porque embora seja a repetição de uma fórmula é uma boa fórmula.

Ana Carolina: Bem, acho que consigo entender a proposta de polêmica. mas claro que estou super feliz com o álbum e não consigo criticar nesse momento de euforia. Como fã e leiga em música, o que eu poderia sugerir sobre isso é que tenho a impressão de que tanto o Radiohead quanto a recepção da banda, em geral, têm meio que sido alvo de zombaria por ser quem são, desde "Pablo Honey". Seja porque a banda “é superestimada” ou porque “você se faz de melancólico” e por aí vai... as críticas à postura não têm fim. Talvez eles não voltem mesmo à leitura de “OK Computer” ou ao experimentalismo de “Kid A”, mas não vejo qual seria o problema de “A Moon Shaped Pool” ser uma continuidade de um projeto já existente. Aliás, nos textos recentes sobre o álbum notei frequentemente uma espécie de modulação afetiva em torno do diálogo com o passado. Nesse sentido, “True love waits” é um bom exemplo: uma espécie de repetição diferencial que encerra o álbum meio em suspenso. Outro exemplo seria “Daydreaming”. Afinal, para onde se está indo? Qual limite você vai alcançar? E isso teria alguma importância?

Breno: Eu vou responder com calma depois do Esquisito Rádio Clube de hoje (ó o jabá), que aliás vai começar com “Ful Stop”, uma das músicas que eu mais gostei do disco. Mas adianto que acho complicado quando as críticas se baseiam nas posturas dos integrantes da banda e as análises formais levam em conta a situação conjugal dos músicos. Não é impossível, claro, mas é arriscado pra mim, porque não dá pra separar verdade de campanha de marketing, nesse sentido.

Ana Carolina: Ok, Breno. Sobre a questão da postura, não acho que se trate apenas de contar com a campanha de marketing para fazer a análise das obras, mas antes de rastrear uma figuração do ethos da banda e dos fãs. Isso faz parte do desenho do contexto de recepção da obra e acho que deve ser levado em consideração. Inclusive, porque você mesmo menciona como, ao repetir a fórmula, a banda agrada seus fãs.

Vinicius: Hummm, dessa vez não vou discordar. Sinto que no Radiohead desde o “Hail to the thief” as novidades técnicas avançam a despeito do conteúdo. Não quer dizer que não tem partes lindas, versos bons, ideias imprevistas, sons que você fica matutando "de onde eles tiraram isso?", muitas novidades sempre no jeito de pensar um arranjo. Mas não tem me emocionado mais não. Pode ser que eu tenha perdido o embalo com a banda. Pode ser que tenha passado o momento em que eles exprimiam uma desorientação severa diante da virtualização de tudo. (São do final dos anos 90. Daí vinha a melancolia: do incômodo subjetivo extremo com o que se via como falta de solidez do mundo. Tudo isso agora parece que se tornou traço de estilo, não é mais a atitude central nas letras e assim a sensação de flutuação, típica dos arranjos deles, se tornou independente do que as canções dizem). Por outro lado, como a Ana Carolina falou, se uma banda procura caminhos novos - e isso se podia elogiar neles, porque eles não se repetiam -, ela pode não achar em questão de um ou dois discos. Isso leva um tempo que obrigações contratuais costumam não respeitar.

Ana Carolina: Vinicius, o que eu não entendo é por que o estilo que se repete não pode ser considerado como “atitude central”? Cada álbum tem seu tempo e talvez justamente faça parte do tempo atual não poder haver mais uma crítica tão nervosa quanto havia no “OK Computer” ou em “Kid A”.

Vinicius: Então. Acho que a repetição dentro de um estilo e o sentimento de que não se diz nada de novo são coisas que vão contra expectativas ligadas à arte e também características incentivadas pela necessidade de produção alienada da indústria. Pelo menos desde a arte moderna se espera transformação dos meios de acordo com uma necessidade expressiva que serve a uma tomada de posição diante das questões de uma época. Tudo isso pressupõe movimento e intenção crítica. Levando em conta o blues, o jazz, o folk dos anos 60, o punk, todos tão ligados a um desejo de superação de opressões, dá pra pensar que essa expectativa também atua na cultura de massas. Sobre a segunda questão, se o tempo pede que se exprima a impossibilidade de crítica, então isso também pode ser feito de forma a indicar ou permitir compreender o impedimento. Mesmo quando se parte de um ponto de vista quase metafísico de horizonte fechado e se renuncia à causalidade (no Beckett, por exemplo).

Breno: Nesse sentido, Beyoncé, Kanye West e até o Justin Bieber foram bem sucedidos este ano.

Ana Carolina: Ok, Vinicius. Na verdade, eu não trouxe a questão para um ponto de vista teórico da crítica de arte. Estava falando especificamente da sua fala, que considera que o estilo deles virou “traço de estilo”. Sobre o segundo ponto, só quis dizer que “Ok Computer” e “Kid A” tiveram seu tempo. Era mais uma pergunta do tipo “por que você acha que o estilo deles virou ‘traço’ de estilo?” É uma opinião forte. Mas, enfim, sou fã, então, suspeita pra perguntar.

Vinicius: Justifiquei teoricamente porque uma pergunta sobre a relação entre reificação pelo estilo e improdutividade programada é uma questão teórica.

Ana Carolina: Uma vez que você coloca esse ponto desde “Hail to the thief” (2003), não vou mais questionar.

Vinicius: Questiona sim, ué. Se você tem outra impressão…

"Sinto que no Radiohead desde o “Hail to the thief” as novidades técnicas avançam a despeito do conteúdo. Não quer dizer que não tem partes lindas, versos bons, ideias imprevistas, sons que você fica matutando "de onde eles tiraram isso?", muitas novidades sempre no jeito de pensar um arranjo. Mas não tem me emocionado mais não" (Vinicius).

Ana Carolina: O ponto é: não discordo de que haja repetição no estilo, mas não vejo como problema. Inclusive, porque as fórmulas ganham matizes novos a cada álbum, que têm proposta bem pensada. Ao mesmo tempo, a questão que você trouxe sobre a improdutividade programada na indústria cultural é inegável. Embora eu goste bastante do álbum, não sei se ele se salva ou não, se pensado sob esse critério. Num tempo longo, quando a obra da banda estiver acabada e for tomada como conjunto, eu diria que sim. Contudo, esse tempo ainda não existe... e justamente como você inseriu um período maior na sua análise - desde “Hail To The Thief" (2003) - não sei se faria sentido eu continuar questionando... por isso.

Breno: Como eu tinha dito, o ponto para mim é justamente este, Ana: "Quem ouvir 'A Moon Shaped Pool' vai encontrar o mesmo Radiohead dos últimos discos com mudanças pequenas, mas suficientes para que pareça estar avançando em alguma direção".

Pessoalmente, tenho a impressão que essa "direção" é pra inglês ver.

Acredito que um dos argumentos de venda do Radiohead como produto da indústria cultural é uma ilusão de projeto, que tornaria cada lançamento um acontecimento histórico. Nesse sentido, invocar o crivo do tempo como argumento premonitório é especialmente complicado, pois é comprar a ideia de que, de fato, cada lançamento de disco é um acontecimento digno de reverência. O Radiohead ocupa um nicho de mercado e o explora de forma magistral, mas para mim, o processo tem se tornado cada vez mais mecânico e apoiado em uma série de fórmulas. Algo que você parece reconhecer quando diz que "as fórmulas ganham matizes novos na banda a cada álbum".

Pra mim, o que esse disco fez de mais interessante foi desvelar essas fórmulas e, em certa medida, esgotá-las. Eu não quero dizer com isso que o disco seja ruim, é um disco bom, que se insere corretamente na discografia da banda, mas já não é mais um objeto relevante para a história da música popular. É claro que nenhuma banda tem obrigação de fazer história a cada disco, mas com tanta música sendo produzida no mundo inteiro, o ouvinte também não tem obrigação de perder tempo com o que não faz história.

Ana Carolina: Realmente, não se trata do “OK Computer” ou do “Kid A”, como citei várias vezes. Esses realmente tiveram um impacto diferente. Ao mesmo tempo, o argumento premonitório não é bem um argumento premonitório. Longe de mim. O que eu quis dizer é: quando olharmos para trás, vamos considerar apenas os álbuns exponenciais do Radiohead ou o conjunto da obra? É uma questão de fato. Não é um argumento do tipo “o tempo vai validar os álbuns”.

A propósito, e a Beyoncé?

Breno: Essa é uma ótima pergunta e eu seria bobo de tentar respondê-la. Mas quanto a análise da obra, acho que em retrospectiva existem vários recortes possíveis. Como na literatura, sempre há críticos que consideram apenas as grandes obras, outros que se ocupam das menores e os que falam de umas em relação às outras.

Ana Carolina: Exato. Esse é um ponto a se considerar. Ao mesmo tempo, eu desconfio que toda essa questão de se repetir - que estamos discutindo - esteja sendo abordada como problema pela próprio álbum agora mesmo, como acontece em “Daydreaming”, “The Numbers” e “True Love Waits”. No fundo, na proposta do álbum todo.

Breno: No nível das letras, você diz?

Ana Carolina: Bem, não posso avaliar no nível musical. Não tenho formação musical. Também por isso, as dúvidas. Juntando a mensagem como um todo, é possível justificar. Ver o vídeo de "Daydreaming", por exemplo, me faz pensar nisso seriamente. De fato, o vídeo pode não chocar, mas expressa muita falta de direção, uma busca sem sentido e voltas intermináveis. No fim, na caverna (numa espécie de túmulo/num “anti-útero”?), o Thom Yorke está até falando ao contrário. Vi num site que a frase seria “Half of my life”. Se isso não pode ser interpretado como uma problematização de ter que servir e de ter que se repetir por metade da vida (no fundo, sem direção alguma), então, não sei mais....

Vinicius: Um ponto mais a favor da banda no começo que contra ela agora, fundamento da minha opinião sobre a força dela, é a passagem de uma rebeldia adolescente desvitalizada dos discos “indies” para uma recuperação, ao passo da invenção sonora, de vários tipos literários da revolta e da melancolia romântica, misturados com referências pop. A sátira política (Electioneering), o jogo com o absurdo (2+2=5), a zoomorfia (Wolf at the door), o retrato do espaço íntimo como fantasmagoria (Crawling up the walls), o heroísmo sacrificial (Airbag), o escapismo lírico (Sail to the moon), o perspectivismo Sci-fi como crítica dos costumes urbanos (Subterranean Homesick Alien), a utopia de numa nova infância artificialmente criada, que é aproveitamento das discussões sobre manipulação genética (Kid A) etc. Não sentia que isso era mero tempero. Era um projeto consistente de música pop que foi encontrando essas passagens porque o caminho da crítica da reificação é concreto, historicamente formado, e traz de volta essas construções. Mas depois do In Rainbows o que era incômodo me parece ter virado elogio do informe e do idiossincrático (daí acho vem o nome desse disco). Ou melhor: me soa a uma adaptação ao vazio transformada artificialmente em expectativa pelo diverso e o desconhecido.

Ana Carolina: Outra pergunta que continuaria meu comentário anterior: por que raios regravaram “True Love Waits” justamente agora? Além disso, com uma modulação ainda mais sentimental! Inclusive, recentemente li alguém comentando que essa canção várias vezes fechou os shows. Ela também é a última faixa de “I might be wrong” (2001), coletânea ao vivo. Fazendo um esforço, me lembrei de que o Thom Yorke agradece ao público, no final dessa gravação.

Vinicius, citei acima a questão do “clima deprê” porque isso é usado como ataque ao Radiohead e à recepção da banda, desde o começo, de forma até meio sistemática. No mais, concordo com a interpretação que você propôs das canções que citou.

Gente, vamos falar da Beyoncé?

"Acredito que um dos argumentos de venda do Radiohead como produto da indústria cultural é uma ilusão de projeto, que tornaria cada lançamento um acontecimento histórico. Nesse sentido, invocar o crivo do tempo como argumento premonitório é especialmente complicado, pois é comprar a ideia de que, de fato, cada lançamento de disco é um acontecimento digno de reverência" (Breno).

Breno: Eu gostei bastante do disco novo da Beyoncé (Lemonade, 2016). É radical em termos formais (“radicalismo” aqui na acepção adotada pelo Antonio Candido) e indica uma nova via para a música de protesto nos EUA, dentro do contexto das lutas identitárias e de revisão histórica que estão rolando por lá agora.

Ana Carolina: Assim, eu particularmente acho essa cena da caverna na “Daydreaming” spooky. Tem uma coisa ambivalente que parece ou tentar sobreviver ou caminhar para a morte.

Vinicius: Parece uma voz apocalíptica que narra mesmo. Tem clichês de filme de conspiração na letra tbm (“This goes way beyond you and me”). Massa. Não curto o tecladinho com as escalas que ficam se repetindo e variando. Esse é um ponto também. Eles foram se dirigindo à aleatoriedade mecânica nos arranjos. Isso cria um efeito de frieza, impessoalidade, não uma sensação espectral como antes. Esse tipo de efeito reforça a ideia, que está surgindo aqui, de que existe uma aceitação das repetições, um clima de esfriamento do embate ou pelo menos da formulação das posições. Talvez a diferença seja o juízo que se deriva disso...

Acauam: Achei um disco mais fácil de encarar, no sentido de que você pode seguir a linha melódica com certa segurança, diferente do King of Limbs, por exemplo. Aliás, me parece que eles atiram para dois lados, simultaneamente: um mais “experimental” minimalista, e outro mais tranquilo, com melodias fáceis, sem grandes invenções. E tem coisas boas nos dois lados, porque os caras são uns baita músicos, e o Thom York é um compositor de primeira linha. Mas nesse disco tem também composições a meu ver dispensáveis, como “Glass Eyes” e a chatinha “Presente Tense”, que podia ser de qualquer outra banda. Outras como “Tinker Tailor” me lembra o melhor do Kid A, porque cada palavra tem o sentido modificado pelas interferências sonoras, os famosos “barulhinhos”. “The Numbers” podia ser Floyd, mas com personalidade Radiohead. E dá pra entender porque o Breno gostou mais de “Ful Stop”, que vai sutilmente migrando de Kraftwerk para Joy Division até chegar no Radiohead.

Com relação ao que se tem discutido aqui, acho que a sensação de que o grupo teria criado uma fórmula que se deturpou em traço de estilo tem a ver com o fato desses últimos discos não captarem mais como antes o espírito de sua época, de forma radical. O “Ok Computer” é uma espécie de canto do cisne dos anos 1990, mas que já apresentava algo de desumanização paranoica, uma beleza robótica que ia migrar pra uma lógica meio de música eletrônica a partir do “Kid A”, que não deixa de ser canção, em sentido profundo (que não tem nada a ver com a modinha de pop\MPB eletrônico, porque cria um sistema). A partir daí, a melodia não será mais o núcleo de organização das canções, estruturadas por meio de texturas sobrepostas. O mais louco nesse processo é que o grupo foi “ensinado” seu público a entrar nesse novo universo sonoro organizado por camadas, dando o melhor acabamento para um novo parâmetro de canção. Essa guinada que desloca as linhas convencionais de organização sonora paradoxalmente salvou a canção, que ainda pode se sustentar criativamente por belas melodias, relativamente simples, sem perder força estética com isso, por incorporar-se criticamente à dissolução.

Em 1997 eles criaram uma obra que define o fim de uma era, preparando o caminho para o futuro. Em 2000 eles meio que se tornaram o futuro.

Voltando a questão da Ana, eu concordo com ela no sentido que encontrar um modo expressivo próprio e depurá-lo em vários discos NÃO é um problema por si só. O Chico Buarque mantém um mesmo estilo (ou dicção) básico praticamente desde os anos 1970 o que não o impediu de criar no últimos anos obras fantásticas sobre o “fim da canção”, refletindo sobre o próprio girar em falso da MPB. E o Tom Zé, que criou uma fórmula também nos anos 1970 que serviu para captar como ninguém todo um estado de coisas no seu “revival” nos anos 1990 (os brilhantes “Jogos de Armar” e “Defeito de Fabricação”), e que agora vai se repetindo de forma bem desgastada. A fórmula do Radiohead é ultra-criativa, cheia de qualidades e a meu ver não cansa, porque exige um tipo de escuta que vai sendo ensinada pelas canções (como os livros do Guimarães Rosa). Mas quando ela não dá conta mais de uma determinada experiência de época, pode soar fake, ou mero traço de estilo sem uma necessidade efetivamente orgânica. E daí é aquele momento em que o artista consequente faz um disco se perguntando sobre as razões de sua estética, que é uma abordagem interessante, mas para a qual cabe sempre a pergunta: isso é suficiente?

Acho que a questão proposta aqui gira em torno mais ou menos disso:”A Moon Shaped Pool” é mera repetição e aprofundamento em algum nível de velhas fórmulas do Radiohead, ou se trata de um disco de investigação sobre a própria trajetória da banda, com um grau elevado de autoconsciência de suas limitações? Nesse sentido, a questão pode levar a outra: é um álbum autoindulgente, satisfeito com a própria trajetória, ou que aponta para alguma aporia de forma crítica? De todo modo, acho um caminho excelente esse do auto-questionamento em bandas que contribuíram para mudar a história.

Sobre a Beyoncé, acho que o engajamento - o qual é possível problematizar - fez bem pra ela. Algumas canções são realmente bem melhores do que o que ela vinha apresentando (“Hold Up” é bem boa, “Daddy Lessons” também ), e a postura dela está bem mais interessante. Algumas músicas empolgam pra valer. Mas não me empolguei que nem o Breno não. Pra mim os vícios ainda estão todos muito presentes. Ela tem um vozeirão, mas as soluções do canto dela são todas muito previsíveis, totalmente viciada nas fórmulas que afetam a maioria das cantoras pop. Algumas partes caem naquele tipo de padrão pop em que a mão pesada do produtor quase deixa visível os fios do fantoche, que desperdiçam o talento vocal das moças. Mas o disco tem seu charme, muito por conta do seu engajamento, que forçou as canções a focarem mais no canto e, consequentemente, na mensagem, sem abusar daquelas fórmulas rítmicas e melódicas insuportáveis do pop americano padrão, modeladas sempre pelos mesmos três ou quatro produtores. Mas não deixa de ser um disco padrão “Ídolos”, que pra mim já nasce datado, e está longe de fazer história, apesar de ser um sintoma histórico. O do Kendrick Lamar (e não por acaso uma das músicas mais legais do disco da Beyoncé tem participação dele) é muito mais um acontecimento histórico, e num sentido parecido com o apontado pelo Breno, de renovação de certa canção de protesto. Aliás, disco de Black Music bom pra valer é o do D’Angelo, Black Messiah. Aí é tipo o retorno de Marvin Gaye.

"Será que se trata de um esgotamento, de fato, do projeto do Radiohead ou de uma reflexão sobre a trajetória? No caso de uma reflexão sobre a trajetória, fica a pergunta: seria o fim dela? Seria o momento da melancolia (no sentido de “humor” velho), ou seja, de se deixar ir e fazer uma crônica dessa experiência?" (Ana Carolina)

Ana Carolina: Acauam, fiz uma espécie de diário no meu perfil sobre três dias pensando nessas questões. Quero comentar um ponto. Recentemente, o Reddit, o Buzzfeed e outros sites desses que falam de coisas do momento surgiram com o seguinte tema: uma espécie de efeito paranoico na recepção dos fãs do Radiohead. Trata-se da suposição de que “Daydreaming” - que foi muito bem pensado como um curta e dirigido por Paul Thomas Anderson - seja uma retrospectiva da trajetória da banda. Vários planos e sequências do curta estão sendo comparados - como indícios - a outras fontes visuais e temáticas na história do Radiohead. Não acho que a ideia seja procurar pelo em ovo e provar a relação, mas sim observar que a banda conseguiu causar com os fãs e levou muita gente à loucura. Eu mesma encontrei duas referências no filme (uma a “There There” e outra a “Paranoid Android”), que não tinham sido comentadas anteriormente e que, ainda assim, foram validadas por outros fãs. O exercício leva a uma espécie de busca desesperada, de estilo paranoide, misturada à angústia e ansiedade quanto ao projeto atual do grupo. O álbum pode ser considerado melancólico. Dessa vez, não chocaram frontalmente e ainda apresentaram como metade do álbum canções muito antigas. No fim, ouvimos ainda um “Just don't leave”, de 1995, mas reatualizado em 2016. A frase parece fantasmática, como se fizesse uma pergunta: “Afinal, estamos juntos desde os anos 1990? Se sim, até onde vamos?’.

Isso tem a ver com duas coisas que você comentou:

1. O Radiohead educou o público, segundo um regime próprio de canção, que fazia referência frontal a uma passagem de eras.

Nesse ponto, o que dizer do fenômeno de que o vídeo de “Daydreaming” enlouqueceu o próprio público e de que o álbum deixou os fãs à deriva por meio de um efeito melancólico?

2. Será que se trata de um esgotamento, de fato, do projeto do Radiohead ou de uma reflexão sobre a trajetória? No caso de uma reflexão sobre a trajetória, fica a pergunta: seria o fim dela? Seria o momento da melancolia (no sentido de “humor” velho), ou seja, de se deixar ir e fazer uma crônica dessa experiência?

Quanto à Beyoncé, gostaria de fazer um comentário de gênero. Pela coincidência de que tanto ela quanto o Radiohead lançaram álbum mais ou menos simultaneamente, comecei a ficar impressionada em como quase não há mulheres discutindo Radiohead, ou em como há muito poucas. Nos fóruns, comunidades e até no microcosmo dessa conversa, a maioria esmagadora é de homens. O que isso quer dizer? Será que a formação da banda já proporia um recorte de gênero enviesado? Afinal, só homem poderia falar do fim do mundo nos anos 1990 e 2000?

Ao mesmo tempo, o debate sobre a Beyoncé anda acalorado nos círculos feministas, especialmente, nos círculos interseccionais. Tenho pensado em tudo isso por conta de amigas minhas que questionaram o que um álbum da Beyoncé significa para os movimentos de militância. Isso se significar algo... Numa perspectiva pessoal, inclusive, fiquei perplexa no meu papel de gênero por estar, inclusive, mais distante da obra da Beyoncé.

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