• Acauam Oliveira

Discografia CHIC: Beto Guedes - A página do relâmpago elétrico (1977) e Amor de Índio (1978)


Bem vindos a sessão de discografia do CHIC Pop! Aqui de vez em quando iremos selecionar alguns álbuns que nossos colunistas consideram fundamentais em suas prateleiras, seja por importância histórica, seja por serem trabalhos incríveis! Aproveitem pra deixar sua sugestão nos comentários.

Clique nas capas para ouvir os discos:

É relativamente fácil reconhecer nesses discos a matriz de muitas das coisas mais lindas que encontramos no Clube da Esquina, dispostas aqui em um estilo menos barroco, com uma pegada mais "banda". Não qualquer banda, é claro, mas o Som Imaginário, aquela mesma que nos deu uma das melhores sonoridades de rock progressivo feitas no país, justamente por não se restringir aos limites estritos do gênero.

Ouvindo os dois primeiros discos solo de Beto Guedes, percebe-se porque suas canções combinam-se perfeitamente com a voz milagrosa de Milton Nascimento: as melodias exploram os prolongamentos vocais e as grandes extensões de altura, que variam muito ao longo das peças, ancoradas por uma sequência harmônica que transita por inúmeras modulações. Como acontece em Cais (Milton Nascimento\Ronaldo Bastos), muitas vezes nas canções de Guedes as partes instrumentais completam os sentidos sugeridos pelos versos, ali mesmo onde as palavras se mostram insuficientes - ou suficientes demais. Os diversos sentidos do conceito de liberdade que atravessam as letras ao longo desses álbuns são em grande medida construídos por meio dessa "flutuação harmônica" que desdobra os sentidos esperados pela melodia. Ou seja, a complexidade da matéria propriamente musical, que por vezes retorce e subverte musicalmente o caráter entoativo próprio da canção, é fundamental no trabalho artístico de Beto Guedes.

Note-se nesse sentido a sensacional A página do relâmpago elétrico, um convite para uma viagem musical que se dá tanto na fluidez abstrata dos conteúdos semânticos das letras, quanto nos caminhos traçados musicalmente. Essa complementariedade complexa é muito bem analisada por Túlio Vilaça em seu blog: “Pois esta característica da introdução a um mundo paralelo (expressão clichê, mas vá lá) acontece simultaneamente em dois planos, na canção como um todo e dentro de cada estrofe. Por isso, a primeira estrofe é toda cantada apenas sobre violões, bandolim e percussão leve, numa suave cama flutuante quase como um acalanto (reforçado pelo compasso ternário), como um aprofundamento no sono para, com a irrupção instrumental, despertar, mas no outro plano, onde o caráter não lógico das frases da letra – e aparentemente arbitrário dos acordes – assume sentidos particulares, expressão bem a calhar. Vários sentidos a desatar seus nós".

Existem algumas diferenças importantes entre esses dois trabalhos. Em "A página do relâmpago elétrico" as partes puramente instrumentais têm mais espaço para brilhar, sustentando o clima das canções e direcionando seus sentidos. Já em "Amor de Índio" as partes instrumentais são reduzidas, destacando-se mais as partes propriamente cancionais, belas e complexas. Digamos que "Amor de Índio" é comandado mais diretamente pelo Beto Guedes cancionista, ao passo que em "A página do relâmpago elétrico" a cena é divida entre o cancionista e o instrumentista virtuoso. Não que a música e os arranjos não sejam fundamentais também em "Amor de Índio". A relação de complementariedade entre letra, melodia e desenvolvimento harmônico é notável em ambos os discos, mas na "Página do relâmpago elétrico" os sentidos da letra são frequentemente prolongados pela parte instrumental, que se "autonomiza" para sugerir novas possibilidades.

Um dos grandes baratos que a canção popular brasileira é capaz de proporcionar a sues admiradores é essa capacidade de uma canção harmônica e melodicamente tão complexa como Lumiar se tornar o maior sucesso comercial de um disco. Trata-se sem dúvidas de mais um daqueles momentos fantásticos em que a qualidade estética concilia-se com o gosto das massas. Não é de se estranhar, portanto, quando algumas pessoas lamentam a perda de Acontecimentos culturais como esse, que pode parecer obra de bruxaria para quem acredita que a qualidade estética só pode ocorrer quando a arte se afasta do gosto popular.

Clique e ouça Lumiar, de Beto Guedes

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