• Natália Leon Nunes

Dilma, Marcela Temer e todas nós


A França do final do século XVIII foi palco de uma impressionante participação feminina na vida pública e política. O processo revolucionário teve intensa participação das mulheres, que foram às ruas, protestaram e chegaram a se organizar em grupos de leitura femininos - uma vez que muitas não sabiam ler porque não tinham acesso ao ensino, muito restrito aos homens, elas se reuniam para ler e poder participar da dimensão intelectual do processo. Essa novidade - mulheres nas ruas, mulheres fazendo política - é apontada por muitos historiadores como "causa" (em história é bom tomar cuidado com essa palavra) do mito criado no século XIX, da mulher recatada e do lar. A história, essa disciplina muito nova, produz no século XIX muitos documentos que contam o passado ignorando as mulheres ou, o que é mais tenso, documentos que mostram como mulheres agindo no mundo público e político foram responsáveis por tragédias - Michelet, grande historiador, foi um dos que escreveu sobre a catástrofe das mulheres na política. Isso tudo que falo foi lido, pesquisado e descrito por muita gente, mas há uma boa síntese no início do livro "Deslocamentos do Feminino", da Maria Rita Kehl.

Pois bem. Eu não dou muita bola pra Veja, mas já que vocês falaram tanto, lá vai aqui o que eu acho. O machismo é estrutural e segue existindo no Brasil. No entanto, eu acho que a Veja tinha dois grandes objetivos com essa matéria sobre a Marcela Temer: comemorar uma vitória que ainda não se efetivou (o impeachment) e opor a Marcela à Dilma, um pouco como os pensadores do XIX fizeram. Tá vendo só no que deu uma mulher na presidência? Deu num país em crise. É melhor que a mulher fique em casa. É claro que é hiper machista.

Mas tenho a impressão de que a Veja tinha mais intenção de opor a figura da mulher que não faz política à mulher que faz política do que opor a recatada à dita piriguete. Apesar de machista e conservadora, a Veja está no mercado e nós sabemos o quanto o mercado soube se apropriar das muitas campanhas feministas do ano passado, chamando mulheres para escrever, elogiando mulheres que são figuras públicas etc.. Eu chorei de rir lendo a matéria da Veja (sim, depois de vocês falarem tanto, eu li), que é caricata, mas em termos de discurso que dita como as mulheres devem ser, eu achei ela muito menos nociva do que, por exemplo, esses instagrams de musas Fitness e revistas como a Marie Claire.

Minha crítica às muitas amigas e conhecidas que postaram fotos de si próprias com a legenda "bela, recatada e do lar": ao menos na maioria das fotos que eu vi, e considerando as imagens que tenho acesso, as mulheres apareciam sem blusa, bebendo, numa festa, com saia curta etc.. A legenda era posta de forma irônica e me parecia mais uma oposição ao modelo da mulher de um homem só, que casa virgem, se preocupa e se embeleza pro marido, do que ao discurso da Veja que, para mim, vai além desse machismo batido que discutimos todo dia sobre a mulher se dar o respeito, ser pra casar, não ser rodada etc.. Eu acho que teria sido mais interessante ver fotos de mulheres em atos, em falas de debates universitários, no trabalho, em reuniões, em assembleias. Para mim o grande ponto da Veja é esse. Não exatamente como devem ser as mulheres em geral, mas como deve ser uma mulher na política pra ser elogiada pela revista.

Além disso, há um outro problema nessa critica feita, sobretudo, por meio de fotos em redes sociais. Para explicá-lo, lembro do que foi a campanha #meuprimeiroassédio. Milhares de brasileiras relataram episódios de assédio na internet, trazendo à tona algo que permanecia em silêncio. Lendo os relatos, descobri violências que mulheres amigas e conhecidas sofreram e dos quais elas nunca tinham falado para mim. O impacto da campanha, a meu ver, ocorreu porque o que não era dito passou a ser dito. Algo veio à tona e rompeu com a ordem do dia. As vítimas saíram do silêncio e da solidão e expuseram o lado feio, dolorido e traumático da infância e da adolescência.

No caso das fotos que ironizam a matéria da Veja, parece não haver grande ruptura. Num país em que é comum ouvirmos que a culpa do estupro é da estuprada, que usou roupas curtas, o grande volume de imagens de mulheres exibindo seus corpos não parece causar grande impacto nem reverter esse tipo de juízo. Basta olharmos para a televisão, os sites de moda, as propagandas de academias de ginástica: mulheres de lingerie, de mini saia, não são elemento novo. Talvez há algumas décadas, talvez em um país em que o uso da burca é obrigatório para as mulheres, uma campanha com fotos que exibem os corpos femininos tivesse maior capacidade de chocar. Aqui, parece-me que ela não destoa tanto do mar de imagens no qual estamos inseridos. E corre o risco de cair no narcisismo, próprio das redes sociais, nas quais as imagens são centrais. Ganhamos likes, mas seguimos sem fazer muito barulho nem atingir, de fato, o machismo.

Pensando num feminismo que tente dar voz a quem ainda não tem lugar de fala e mostrar o que ainda não é imagem comum, banalizada e aceita, termino com foto que eu achei num blog feminista: as verdadeiras recatadas do lar do Brasil, que não são a Marcela Temer nem pessoas como eu, mulher branca de classe média. Porque não ser do lar (inclusive do lar dos patrões) e não ser recatada ainda é um privilégio de classe neste país.

PS: após escrever essa crítica, soube de fotos de meninas funkeiras e rappers que brincaram com a legenda da Veja. Bom exemplo para relativizar o fim do meu texto e para questionar a ideia de que, em 2016, só mulheres ricas e de classe média podem não ser recatadas e se exibir em redes sociais hoje em dia. Deixo à crítica restrita ao que vi: facebooks de mulheres de classe média, que fazem ou fizeram faculdade e tiveram, na sua maioria, ambiente familiar que permitiu que elas escolhessem se queriam ou não ser do lar.

#convidado #cultura

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