• Acauam Oliveira

Nacionalismo entre pares: o não-manifesto das manifestações de domingo (13\03\2016)


Confirmado: essa foi a maior manifestação da história do país, o que finalmente desautoriza a versão falsa de que se trata de um movimento de meia dúzia de coxinha que quer a volta da ditadura. Não é (apesar de ser verdade que a ultradireita é preocupantemente tolerada nesses espaços). Entretanto, ao que tudo indica os manifestantes em sua maioria absoluta pertencem à classe média branca, o que significa que a periferia não foi para as ruas se manifestar junto com esse grupo. Estarão satisfeitos? De forma alguma, pois ao contrário do que prega a fábula binária petista, o índice de rejeição da Dilma por ali é também enorme (a mulher só tem 10% de aprovação). Nem o povo está com Dilma, nem a classe média fecha completamente com Aécio, tendo em vista que ele foi convidado a se retirar da manifestação que ele mesmo convocou, com o rabo entre as pernas.

Porque, então, nas manifestações anti PT as ruas não são ocupadas por todos os que estão contra a Dilma, e sim por uma parcela gigantesca da classe média, parcela tão grande que é quase TODA ela em alguns contextos (segundo Pablo Ortelado, em sampa era como se pelo menos um membro de cada família de classe média estivesse nas ruas – lembrando sempre que o contexto em outros lugares do Brasil, como no nordeste, é bem diferente)?

Podemos começar a imaginar os motivos ao atentarmos para alguns aspectos interessantes que só poderiam acontecer em uma manifestação com inexpressiva participação da periferia: uma polícia extremamente cordial, o metrô abrindo suas portas tranquilamente, grande adesão a pautas liberais como o casamento homo-afetivo, tolerância com a ação genocida da polícia, discurso de ódio contra a única coisa positiva do governo petista (pessoas que acham que o bolsa-família pecou por excesso, quando na verdade ele pecou pela falta). E o que talvez seja o mais simbólico: as selfies com a PM. Se fosse uma manifestação com participação da periferia, essa prática que exige uma alta dose de insensibilidade, pra dizer o mínimo, não seria possível. Mesmo aqueles na periferia que apoiam a linha dura da PM - e não são poucos - não iriam tirar selfies, pois estariam se arriscando a apanhar de graça.

Coloca-se, portanto, um tipo de divisão bastante clara - e é só lembrar das manifestações emocionantes dos estudantes secundaristas, ou do tratamento recebido pelos professores em seus protestos: as ruas e os direitos de manifestação NÃO são permitidos aos mais pobres. Mesmo que seja contra o PT em um estado do PSDB. Manifestações dos pobres, quaisquer que sejam, são em geral tratadas como caso de polícia.

A despeito da "coincidência" de interesses até certo ponto, as classes sociais não podem e não querem se misturar. E o sistema ideológico cultural e simbólico, além da força bruta pura e simples, se encarrega de organizar as diversas formas de segregação. Porque se misturar vai dar merda, parceiro, como já alertava o capitão Nascimento não faz muito tempo. O duplo padrão de atuação da PM não tem a menor ideia do que fazer com pobres pretos e classe média branca em um mesmo espaço de reivindicação social. E muito menos a classe média, que ficaria horrorizada e sem saber como se portar em seu protesto perfeito. "Reivindicar" tem significados distintos nos dois campos. Pode até haver coincidência de interesses, mas é absolutamente essencial que as classes se mantenham segregadas, e que a mestiçagem de cores e valores seja regulada pela definição de espaços institucionais cuja função é interromper qualquer dinâmica "mestiça", por mais imaginária que ela seja. Existem fraturas que calam mais fundo.

É preciso separar essa divisão racial e de classe, que é marca nacional, da sua apropriação ideológica pelos setores em disputa. Para a rede Globo e afins, uma parcela localizada e específica da população representa TODOS os brasileiros (seguindo na tradição de pensar o país por meio da exclusão). Já para o PT, o meio milhão de brasileiros na Av. Paulista são, quando muito, meia dúzia de “coxinhas”. O interessante é que ambas as interpretações – que padecem, respectivamente de miopia e de astigmatismo – fundamentam-se coerentemente na realidade. De fato, como insiste a rede Globo, o sentimento de indignação contra o PT é de ordem geral, indo muito além dos interesses de uma parcela elitista de classe média. Apesar das profundas diferenças e ressentimentos entre as classes, o ódio ao PT – que traiu suas bases – é um traço de união pelo ressentimento, ancorado pelo fato de que o dinheiro para o projeto lulopetista acabou. O que é falso nesse caso não é o descontentamento, mas a despolitização, que subordina o descontentamento geral a ordem de interesses dos corruptos e canalhas de sempre, como o empresariado anti-trabalhista, os políticos tucanos e a grande mídia. Por outro lado, não está errada a versão governista de que as ruas são ocupadas por um mesmo grupo social, com um mesmo tom de pele e um mesmo abadá amarelo. O problema está na suposição astuciosa de que todo mundo que não está nas ruas é, portanto, favorável ao governo.

Digamos que a questão aqui é que mesmo esse consenso ideológico - por mais simbólico que seja - é incapaz de superar diferenças sociais mais profundas, pois o próprio “consenso” só se torna unânime e tem força de mobilização caso esteja garantida a manutenção das formas de segregação de praxe – daí a importância da generalidade das pautas anti-corrupção. As manifestações fora PT assumem contornos antipopulares nas ruas não porque a periferia é favorável ao governo, mas pela certeza, confirmada pelas performances nas ruas, de que as hierarquias de sempre permanecerão garantidas.

O Brasil é dividido sim, mas não em partidos políticos que são versões mais ou menos vergonhosas do PMDB. Essa divisão é mais antiga e alimenta um sistema de diferenciações violentas, construído na bala, para a qual não existe "senso cívico" que consiga romper. Afinal, só é possível a classe média branca sentir-se parte de uma comunidade nacional que grita "sou Brasileiro com muito orgulho", quando ao olhar para o lado reconhece apenas seu próprio reflexo, como em uma espécie de carnaval cívico regulado por abadás - ou camisas da seleção.

#política #AcauamOliveira

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