• Acauam Oliveira

O gigante acordou? O papel da música nas manifestações (2013 – 2016) (2 de 2)


LEIA AQUI A PARTE I DA ENTREVISTA

A música cumpriu papel politizado nas manifestações? Se sim, acertamos? Se não, porque erramos? Ou, o que faltou (ou ainda falta) na politização da música brasileira atual? Essa pergunta é porque você escreveu um texto sobre o indie brasileiro despolitizado...

Eu voltaria um ponto nessa definição do engajamento da música como “acerto” e o desengajamento como um “erro”, o que não é evidente sob nenhum aspecto. Afinal, porque a música relacionada às manifestações atuais deveria cumprir um papel similar ao que teve na ditadura? Se a mobilização cultural acontece agora em outro campo, isso deve ser, sem dúvida, compreendido, mas não necessariamente lamentado. De todo modo, como já disse, acredito que uma “trilha sonora” específica das manifestações não seria possível, tanto pelo caráter estrutural das manifestações, quanto pela posição contemporânea da música popular mais politizada no interior do campo cultural.

Como você fez menção a meu artigo sobre a MPB neo indie, acho que convém avançar em um ponto dele que gerou certa controvérsia. Ao contrário de algumas críticas, minha questão não foi atacar a falta de politização dessa produção neo-indie, a falta de aspectos mais diretamente sociais nas canções, etc. E para deixar bem claro esse ponto, logo no início do texto eu proponho uma comparação com a Bossa Nova, que também faz um tipo de canção radicalmente despolitizada, com conteúdos as vezes quase infantis, e que também foi constantemente “atacada” por isso (e poderia seguir citando uma infinidade de compositores “despolitizados”, como Fagner e Jorge Ben, que eu considero geniais). No entanto o sentido social e ideológico da despolitização neo-indie é radicalmente diferente, pois a Bossa Nova dilui seus sentidos mais diretos e imediatos em nome do fortalecimento do conjunto, chamando a atenção para a estrutura musical, um movimento que entre outras coisas tornou possível uma imaginação política de tipo novo no campo da cultura – não haveria MPB sem o gesto criativo de João Gilberto. Nada mais distante do movimento neo-indie, que quer fazer um tipo de canção feita pra acabar e “desaparecer” diante de nossos ouvidos, apostando naquilo que eu defini como sendo uma estética da irrelevância, bem próximo ao que o Romero Britto propõe no campo das artes plásticas, só que aqui com um teor mais melancólico que festivo. Obviamente que uma melancolia encenada e autocomplacente que mal disfarça a satisfação e o conforto de sua posição. O interessante é que enquanto o Romero Britto é escorraçado, não sem certo elitismo, no interior das artes plásticas como um ideólogo de baixo nível, a MPB neo-indie é muitas vezes tratada como um tipo de som alternativo e mesmo progressista, contra a violência e a barbárie do mundo, cuja principal qualidade está em seu “descompromisso”. De repente, assumir que a música é mesmo trilha sonora de margarina, e que isso é ótimo, se tornou cult. Ora, não é preciso ser nenhum adorniano pra entender o grau de rebaixamento e perversidade que essa “felicidade” engarrafada pressupõe – qualquer seriado americano faz essa crítica. A minha questão, portanto, foi justamente identificar o quanto desse descompromisso está profundamente comprometido com certa ordem e que, no limite, casa muito bem com ela. No mais, o que eu defendo no artigo não é nenhuma novidade, e foi suficientemente escancarado pelas mulheres na campanha contra #meuamigosecreto: o fofo é o novo canalha, como afirmou o Xico Sá. Aquele camarada gentil, delicado, que escuta e sabe de cor as principais reivindicações feministas, mas que as usa sempre em beneficio da manutenção de seus próprios privilégios. O cidadão de bem liberal mudou de forma, mas continua sendo um canalha, que não assiste Ratinho porque é muito agressivo, mas chora de rir com o muito mais cool CQC, aquele programa que fez o desfavor de colocar em evidência o Rafinha Bastos e o Danilo Gentilli. A minha crítica, portanto, não é a favor da politização em música, mas é um questionamento sobre o sentido ideológico desse tipo canção, do qual não se consegue escapar.

Por outro lado acho realmente importante o debate sobre a “perda” de potencial crítico das canções hegemônicas. E aqui é interessante retomar outro debate recente do qual eu participei indiretamente, com o texto polêmico do Vladimir Safatle sobre o “fim da música” no Brasil. O argumento do Safatle causou bastante discussão, o que foi ótimo, e basicamente sustenta que as canções brasileiras hegemônicas eram dotadas de qualidade até o início do lulismo, mas que nesses últimos anos essa dinâmica se alterou drasticamente. Ou seja, nos anos 1970 tivemos hegemonia da MPB, nos anos 1980 do ainda crítico Brock, os anos 1990 foi dominado pelo pagode e pelo axé, mas ainda havia amplo espaço para grupos como Rappa, Planet Hemp, Nação Zumbi e Racionais MC’s (embora Safatle ignore completamente o rap). A partir dos anos 2000 pra cá, contudo, a hegemonia pertence quase que com exclusividade a estilos pobres esteticamente e claramente adesistas ao status quo, como o funk e o sertanejo universitário. Ou seja, ao contrário do que se argumentou, Safatle não quis dizer que não se produz mais musica de qualidade no Brasil, ou que só a música erudita é que presta, e sim que a música hegemônica, massiva, aquela que mais se consome, caiu de qualidade e perdeu em potencial crítico, o que é um fenômeno difícil de se contestar. Aliás, acabo de ler um texto excelente sobre essa polêmica, que inverte a questão e demonstra que o elitismo está no olhar paternalista da esquerda que defende uma pureza do campo popular. No campo que me interessa mais imediatamente, é praticamente impossível não reconhecer o que se perdeu em termos de conteúdo crítico na passagem do rap para o funk carioca. O olhar proposto pelo rap é muito mais complexo e rico que a média do funk e, de fato, algo de certo aspecto progressista de aposta na comunidade periférica se perde na valorização da ostentação pura e simples, por si só. E quem diz isso não eu, mas os próprios moradores de periferia ligados a cena cultural. Se antes um jovem que curtia um rap ficava curioso pra saber quem era Malcon X, Luther King e Marighella, hoje ele corre atrás para saber o que é Hornet, Bandit e RR. Não da pra sustentar que se trata da mesma coisa, e que deve ser valorizado por ser da periferia, como se essa fosse sempre idêntica a si mesma.

Entretanto, reconhecer o quanto dessa dimensão progressista se perde não significa o mesmo que afirmar que o funk não tem absolutamente nada a oferecer. E é aqui que o olhar de Safatle escorrega. O filósofo demonstra uma certeza muito acentuada de seus próprios critérios de qualidade, certeza que é imediatamente colocada sob suspeita por todos os lados, com intensões críticas ou nem tanto. Safatle parece tão certo de seus critérios que não coloca em questão em nenhum momento a sua posição de fala, contrariando justamente a principal lição que os movimentos sociais contemporâneos vêm gritando pelo menos desde 1968. Seu lugar de acadêmico uspiano, branco, cis Éé tomado como ponto de partida não problemático - provavelmente porque para ele isso seria ceder ao anti-intelectualismo hegemônico, que de fato existe e é onde brilham sujeitos como Lobão, Olavo de Carvalho, Reinaldo Azevedo - como se esse gesto básico de reconhecimento da sua posição imediatamente deslegitimasse suas afirmações. A meu ver, o que acontece é justamente o contrário: Safatle acerta no diagnóstico, mas erra na postura, fechando o caminho para o diálogo ao mesmo em tempo que afirma que o problema da periferia é a falta de diálogo com a alta cultura. Ora, onde o texto dele realizou esse diálogo? "Não adianta querer ser, tem que ter pra trocar". No fim das contas sua escrita parece bem pouco disposta a dialogar de igual pra igual com a cultura periférica, e é justamente essa postura que os manos não engolem mais, por saber perfeitamente bem aonde é que ela leva. Não dá simplesmente para um cara na posição do Safatle jogar pra periferia que eles tem que abrir seus horizontes sem fazer nenhum esforço de aproximação legítima. A despeito do acerto do argumento, faltou postura e proceder... Não se trata, portanto, de sustentar que o funk não tem problemas, ou que os conteúdos das canções não são muitas vezes profundamente regressivos, em nome de um olhar paternalista que se exime de fazer crítica. Mas a alternativa oferecida por Safatle - que não realiza, por exemplo, qualquer análise do funk, se recusa a imaginar nesse qualquer positividade e enfatiza muito mais os benefícios do contato da música erudita com o popular do que o contrário (e o popular é muito mais aberto ao erudito no Brasil do que o erudito ao popular) - segue reproduzindo o mesmo problema que ele acerta em diagnosticar.

Entretanto, o processo que ele apresenta sem se aprofundar nas causas ou razões (ele chega a sugerir que tem a ver com o lulismo, mas não faz nenhuma análise estética que o comprove, ao mesmo tempo que reclama da falta de análise estética das críticas sociológicas), é real. Existe sim um processo em curso de precarização estrutural que atinge não só a música popular, mas também outras áreas da cultura, como o futebol, e que não tem imediatamente a ver com a qualidade estética (tem sido produzido música de qualidade aos montes), nem é irreversível. Trata-se antes de uma transformação radical do estado geral do campo da indústria de entretenimento no país, que passa por um de seus mais radicais processos de reestruturação, comparável a mudança do rádio para a TV, ou do disco de 78 rotações para o LP moderno. Esse estado geral de precarização atinge os ídolos de massa, os modelos de distribuição, o circuito dito alternativo e as culturas tradicionais, e prepara terreno para um estágio novo por vir.

Você vê (ouve) algum destaque na cena musical atual, politicamente falando? Quem?

Reconhecer que a música popular não cumpre um papel de destaque no cenário político recente das manifestações, sobretudo se comparado com o papel decisivo que teve com o RAP e a MPB dos anos 1960, não significa de forma alguma que não se esteja produzindo música popular de qualidade com sentido político e crítico, atualmente. De todo modo acho que sua pergunta se refere a uma relação mais imediata entre o conteúdo das letras, o posicionamento público do artista e a abordagem de temas políticos relevantes para o contexto atual, o que exclui as relações mais abstratas entre política e música instrumental, por exemplo. Vou deixar de fora também um músico como o Lobão, que tem inegavelmente um grande impacto político no cenário contemporâneo, a direita, mas ligado principalmente a sua militância nas redes sociais e em publicações impressas, e não em suas canções. Também suponho que quando você utiliza o termo “destaque” - e também porque você estabeleceu uma relação com a música durante a ditadura militar – significa que você está se referindo aqueles artistas que tem uma atuação política que tenha um alcance mais amplo, o que exclui aquele conjunto imenso de artistas que tem pouca ou quase nenhuma visibilidade midiática. Por isso um grupo que eu admiro muito como El Efecto, que tem letras claramente politizadas e um conteúdo formal radical e inovador, também não entra na conta, apesar de ter tido certo destaque quando das manifestações mais radicais em 2013, sobretudo com a música O Encontro de Lampião com Eike Batista. Assim como outros nomes pontuais que surgiram ou (re)surgiram com canções tendo o processo política atual como mote: Leoni, Detonautas, Capital Inicial, Edu Krieger (interessante caso que tenta recuperar a mesma dicção da MPB engajada, mas com uma visão bem afinada ao caráter abstrato das reivindicações – Gol da Vitória, Desculpe Neymar, fazendo reivindicações padrão Fifa).

De todo modo, com relação aos processos políticos contemporâneos o papel da música popular tem sido secundário, cabendo as redes sociais e seus militantes digitais um lugar de destaque bem maior. Nesse sentido, nenhuma canção cumpre hoje o mesmo papel simbólico de “Pra não dizer que não falei das flores”, “Apesar de você” ou “Cálice”. Mesmo artistas que relacionam política e arte de forma mais direta, como Lecy Brandão e Chico César, não tem uma obra que atinja o público de forma tão efetiva quanto na época áurea da MPB do final dos anos 1960, ou no começo da mobilização em torno do rap nas periferias de São Paulo nos anos 1990, para citar dois momentos chave da história da música brasileira.

Mas essa relativa ausência da música nas manifestações não significa que o sentido político ou crítico esteja ausente da música popular. Ainda que não seja a produção hegemônica, pois esta é especialmente dominada pelo sertanejo universitário que trata de temas hedonistas herdados do rock n’ roll adolescente mais descompromissado, agora sem os ares de rebeldia juvenil (trata-se apenas da diversão de adultos infantilizados, solteiros ou adúlteros, pois casamento e suas regras é muito chato). Contudo, com relação a outras pautas, como as políticas de identidade, a música tem tido sim um lugar de destaque cada vez mais pronunciado. Aqui eu destaco as participações do Emicida no debate público sobre questões relacionadas a desigualdade racial e social, e os diversos temas do debate de gênero que tem atravessado a obra de artistas como Karina Buhr, Valesca Popozuda, MC Carol, e outras funkeiras, assim como a roqueira Pitty. Note-se que eu não estou aqui discutindo a efetividade desse discurso, se é ou não feminismo o que faz a Valesca, mas apenas demonstrando que as questões de gênero comparecem efetivamente aí. Acho que em certo sentido a síntese desse movimento mais recente está no último disco da Elza Soares – A mulher do fim do mundo – que relaciona em uma síntese poderosa as diversas configurações da marginalidade (mulher, negra, às margens da MPB e, sobretudo, o simbolismo de sua idade) que quer gozar e cantar até o fim, para além da dinâmica produtivista dos corpos. Talvez seja esse o trabalho de maior força estética que pude ouvir nos últimos tempos, e nele o papel do discurso crítico é fundamental. E não devemos nos esquecer de que essas pautas das chamadas políticas de identidade estão diretamente relacionadas com a crise da representatividade política, centrando o debate num corpo irredutível que não quer ser representado, mas incluído diretamente na ordem política.

Portanto, as diversas formas de engajamento e desengajamento seguem valendo no campo da canção, ainda que seja importante pensar nas razões para esse descompasso entre a música de protesto e o tipo de novidade política trazida pelas manifestações pós 2013. Talvez seja possível arriscar pelo menos duas previsões: 1) para que a música possa assumir um papel mais importante no que está acontecendo nas ruas é necessário criar outro modelo de canção de protesto, que incorpore a fluidez e inconsistência radical dos protestos - uma forma musical mais diretamente adaptada a realidade da internet – ou 2) é preciso aceitar de vez que a música talvez não seja o canal mais adequado para circulação da imaginação política das ruas pós 2013.

Música politizada, vende?

Vende sim, e não é pouco. É preciso não se esquecer que o desenvolvimento da música popular brasileira desde o início é um processo vinculado estreitamente à indústria de entretenimento, para desgosto dos críticos da Indústria Cultural, que literalmente têm que sambar pra explicar como pode haver arte de qualidade nesse meio. A consolidação da linguagem do samba está estreitamente ligada ao desenvolvimento do rádio, assim como a MPB se relaciona ao desenvolvimento da televisão. Mesmo o rap, que cria um verdadeiro mercado paralelo em território nacional, não pode ser pensado fora do processo de mundialização da cultura norte-americana. Nesse sentido os mecanismos comerciais encontram maneiras de obter vantagem tanto das posturas mais “alienadas” quanto das mais engajadas – é só lembrar da criação do movimento punk, que só é ilegítimo caso permaneçamos presos a necessidade de criação de mitos de origem puros.

Portanto, a questão interessante aqui a meu ver não é tanto a oposição entre engajamento e mercado, mas as formas como essa relação é estabelecida. Os Racionais passaram anos desvinculados dos processos de mercado mais convencionais, criando uma postura de coerência ética diretamente vinculada a sua qualidade estética. No caso da MPB, seu engajamento é praticamente impensável fora do circuito midiático, o que não comprometia sua qualidade – pelo contrário, sua força consiste precisamente em articular esses dois impulsos, bem como as relações entre erudito e popular. Já no caso da música do Latino para as manifestações, trata-se de um claro modismo que procura lucrar com a disposição de espírito do povo nas ruas, talvez criando um hit para a próxima novela que não deu muito certo. De todo modo, não é o fato de ser um gênero estético vinculado ao mercado que tornam falsas as formas de engajamento na canção.

E você acha que a música tem esse "poder" de "politizar" (ou de esclarecer politicamente) as pessoas? Antigamente (da ditadura para anteriormente) e atualmente.

Bom, como já disse essa relação é bem complexa não só no que se refere à música, mas nas relações entre arte e política de uma maneira em geral. Eu gosto da definição de Antonio Candido, de que a literatura é política na medida em que faz viver. Ou a definição de Rancière de que a arte é política apenas na medida do que lhe é possível, no caso, na partilha do sensível, que é basicamente a forma de se imaginar as maneiras como se arranjam as coisas no mundo, que está na base da política enquanto tal. Dito isso, e sendo viciado em materialismo, não creio que a dimensão política seja inerente a arte mas, sendo esta essencialmente linguagem, participa inevitavelmente dela. E a musica, portanto, vai cumprir uma função política importante em diversos momentos da história. Desde o papel central do rap na formação da identidade periférica e na mobilização política desse segmento, até o menos óbvio papel dos blocos afro no processo de valorização da negritude no axé baiano. Para não falar do papel decisivo do samba no processo de imaginação da comunidade nacional nos anos 1930.

Com relação a comparação que você propôs, é evidente que o papel de politização por meio da música se fez muito mais ativo no período da ditadura militar, por uma série de fatores. Entre eles os vínculos dos compositores da MPB com as ideias de esquerda – comunismo, movimento estudantil, contracultura – e o papel central que a música representou para a indústria de entretenimento naquele momento – o sucesso de público da MPB está estreitamente vinculado ao surgimento da televisão – bem como o vínculo estético da MPB com a Bossa Nova, que representou a nossa modernidade musical (João Gilberto realizou em âmbito local, por um caminho totalmente próprio e anos antes, aquilo que Bob Dylan representou para a música pop americana). Hoje – e quero dizer de 2010 para cá - o papel de mobilização cumprido pelas redes sociais é muito mais forte do que no campo da canção. Mas é sempre oportuno lembrar que nos anos 1990 a arte politizada estabeleceu um novo vínculo profundo entre estética e política, por vezes mais radical e contundente que diversas propostas dos anos 1970, por meio do rap produzido nas periferias, sobretudo em São Paulo. E durante o auge de um processo que o senso comum via como o momento de maior vulgarização da história da nossa música (título que ressurge basicamente a cada década), com a hegemonia do pagode e do axé. Portanto, antes de anunciar a morte da música, convém lembrar que seus diamantes costumam surgir da lama.

Como você vê a geração atual de artistas da música, politicamente falando?

Eu acho que essa já foi respondida. Mas aproveito pra lembrar apenas que os conteúdos políticos e sociais da música não estão apenas em temas e conteúdos diretamente engajados. Muitas vezes a verdadeira dimensão política da arte está mais efetivamente presente na forma que no conteúdo. No mais, os dilemas dos artistas parecem acompanhar o mesmo ciclo de contradições e reestruturação das forças políticas. Nomes importantes da MPB áurea que ainda estão na ativa produzindo música de qualidade acabam seguindo a visão política conservadora de Roberto Carlos no quesito biografias; o rap vai cada vez mais se firmando no mercado hegemônico, abrindo concessões cada vez maiores; o funkeiros criam uma linguagem no mais das vezes plenamente adequada a ordem, mas são mortos pela polícia em nome dessa mesma ordem, incomodando mais que o rap, que tem conteúdo mais crítico; os roqueiros dos anos 1980 voltam a linha de frente do debate político, mas com pouco avanço musical e adesão à direita; a música contemporânea altamente criativa parece incapaz de por si só criar meios de conexão com o grande público, apesar de no geral não ser um som de difícil acesso; a música que atinge o grande público segue pasteurizada, a despeito da aparente liberdade digital que é mais controlada do que gostaríamos de reconhecer; fronteiras artificiais de gênero são rompidas continuamente, mas as velhas separações retornam com tudo, violentamente, pela porta da frente; não dá mais pra dizer com tranquilidade o que é exatamente MPB, mais ainda corre muito sangue na disputa pra se fazer parte de seu seleto time.

Enfim, não sei se o grande fato musical\político da nossa época é aquele sugerido pelo Safatle – a hegemonia de uma canção adesista de baixa qualidade, que coincide em alguma medida com o pacto lulista. Se for assim, a tendência com a derrocada do PT é a produção hegemônica voltar a melhorar. Mas acredito que esse diagnóstico ganha em valor interpretativo quando é compreendido no contexto mais amplo do que chamei, baseado em um diagnóstico de Rômulo Fróes, de processo de precarização do sistema cancional brasileiro, que atinge tanto a canção comercial “de massa”, quanto os circuitos alternativos, tanto a música mais ligeira quanto a mais séria. Processo esse que está ligado diretamente ao momento de reconfiguração do sistema após a derrocada da indústria fonográfica, e com a articulação de novos modos de distribuição e organização da matéria musical, que ainda não se consolidou (por exemplo, segundo Lorenzo Mammi, por mais que o CD - que por sua vez copia a estrutura do LP - não seja mais a forma privilegiada de organização sonora, os discos lançados diretamente pela internet ainda obedecem ao conceito de álbum, diretamente ligado as possibilidades físicas do LP, que já foram superadas). Precarização que marca uma derrocada e a possibilidade de novos começos, como podemos acompanhar na efervescência da cena de São Paulo e do Rio de Janeiro.

#música #política #AcauamOliveira

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