• Acauam Oliveira

O gigante acordou? O papel da música nas manifestações (2013 – 2016) (1 de 2)



LEIA AQUI A PARTE II DA ENTREVISTA

Tive o prazer de conceder essa entrevista ao parceiro Igor Cruz, que está concluindo sua pós-graduação em jornalismo com uma pesquisa sobre as relações entre música e política de 2013 para cá. Gostei bastante do tema e das perguntas, que giram em torno de diversas questões importantes, como o papel da música nas atuais manifestações, a diferença com o período da ditadura militar, o impacto político da música hoje. Como o resultado ficou extenso, publico aqui em duas partes.

Em junho de 2013 tivemos as grandes manifestações e muitos personagens da música se manifestaram de diversas formas. Alguns fizeram músicas (Tom Zé, MV Bill, Latino, entre outros) outros subiram nos palanques e deram uma direção em suas opiniões (Lobão, Roger). Como você vê essa participação dessas personalidades em um momento delicado politicamente falando, no Brasil?

Adesão genérica

Bom, acho que aqui é preciso especificar o tipo de participação em cada caso, o histórico de cada um dos envolvidos e o espectro político que ela cobre. Tom Zé é um artista que desde o início da carreira demonstra uma preocupação política em seus trabalhos. Mais recentemente ele tem buscado firmar parcerias com a nova cena musical paulista (Filarmônica de Passárgada, Trupe Chá de Boldo, etc), em que trata de temas ligados a ironicamente denominada geração Y. Por isso era de se esperar um posicionamento dele diante desses acontecimentos. A participação do Criollo também é coerente com sua trajetória recente. Convoque seu Buda está cheio de canções que trazem uma reflexão sobre essa nova geração que foi às ruas, incorporando aspectos de suas reivindicações nas letras. Da mesma forma a participação de MV Bill não é nenhuma surpresa.

De outro lado temos aqueles compositores desconhecidos que também decidiram se manifestar, seja por dever cívico, seja pra aproveitar um tema da moda. Um trabalho interessante nesse sentido é a música do Gabriel Moura com Seu Jorge (Chega - não é só pelos vinte centavos), pois a meu ver ela traz a tona o problema mais evidente das reivindicações atuais - mas que ao mesmo tempo foi o que garantiu a ampla adesão das massas, sobretudo de certa direita liberal que não se assume enquanto tal. “Não é só pelos vinte centavos”, é “contra a corrupção”, por “mais saúde”, etc. Pautas genéricas que servem a qualquer campo ideológico e que progressivamente se converteriam em “fora Dil-Bandida e Lularápio”, “fim do PT”, etc., como se esses slogans representassem uma grande vitória democrática – e não o triste fim anunciado de uma tradição de esquerda com longo histórico de erros, mas também acertos importantes. Outra música interessante nesse sentido, por incorporar algumas contradições centrais dos protestos é “As coisas não caem do céu”, do Leoni. A canção tem um conteúdo bastante crítico, sobretudo com relação a certo comportamento passivo da classe média brasileira, celebrando a juventude com coragem de ir às ruas. A canção, no entanto, para por aí, nessa convocação dos acomodados, mimetizando um pouco do próprio lugar que a música brasileira ocupou nesses protestos: admirando a coragem dos jovens, mas sem saber muito bem o que fazer ou quais caminhos propor. E quando a geração de Leoni for propor coisa mais concretas – como Lobão – dada essa fragilidade ideológica de base, será facilmente convertida em um antipetismo bastante conservador, que nada tem a ver com uma crítica à esquerda.

Mas a canção-chave que sintetiza os problemas de todas essas músicas feitas para “aproveitar o clima” das manifestações é a do Latino, “O Gigante”. O cantor tem como marca característica a adaptação de sucessos gringos em versões nacionais sofríveis, aproveitando-se da onda do momento. Aqui se trata exatamente da mesma coisa, ou seja, uma maneira de se aproveitar do sucesso midiático dos protestos em uma canção que é muito mais uma celebração ufanista do povo brasileiro (e que provavelmente seria uma música de celebração da Copa do Mundo, mas que por conta da rejeição em massa desse evento teve que virar outra coisa) do que propriamente uma música de protesto. Ou seja, uma manifestação de “amor” cívico bastante fake e, no fundo, apolítico.

(Acho que vale a pena prestar atenção no novo disco do Lobão que acaba de sair, O Rigor e a Misericórdia, não tanto por sua qualidade musical, mas por sua organização material de certo espírito da direita. Ali tem uma coisa interessante de tipo novo, que expressa bem como essa direita enxerga a si própria enquanto agente histórico. Trata-se de um disco épico, grandiloquente por um lado, mas que tem um registro impostado claramente fake, quase descrente de seu heroísmo anunciado, misturado a um niilismo que é típico de suas canções mais fortes (sim, eu gosto bastante do Lobão compositor). Um épico que foi feito todo em casa atrás de um computador (“todo herói se diverte só”, solta na última canção do disco), mas apontando para a política das ruas. O resultado só poderia soar fake e caricatural, mas isso acaba se tornando fator de qualidade, com resultado menos ideológico do que se fosse um épico de fato. Aliás, épico fake é uma descrição bastante adequada para essa movimentação da direita que pretende moralizar o país, liderada pelo Bolsonaro. Junta-se a isso o fato do disco ser acompanhado do lançamento de um livro que explica o processo de composição, como se as canções não se sustentassem por si, o que por si indica algo do posicionamento frágil da música nesse contexto. Tudo isso pode ajudar a formular um diagnóstico).

Enfim, até onde pude acompanhar a maior parte dessas adesões musicais se dão pelo campo do nacionalismo genérico, que servem mais para evocar um sentimento geral de indignação do que propor críticas políticas de fato. E por isso é um campo amplamente manipulável pela direita (uma pauta como fim da corrupção é puramente afetiva e ideológica, porque não existe ninguém que tenha por bandeira a defesa da corrupção, nem mesmo o Paulo Maluf), embora seja importante dizer que não se trata de um movimento imediatamente orquestrado pela direita. Pois o movimento parte de uma indignação legítima contra o que tem se chamado de crise de representatividade, que demonstra o esgotamento de nosso sistema político e a busca por alternativas. Mas como essas alternativas não se apresentam de fato o que se vê no fim é o ressurgimento de propostas antiquíssimas com cara de novidade (é só acompanhar o texto de estreia do jovem Kim Kataguiri, do MBL, como colunista da Folha de São Paulo), cuja expressão mais evidente é a série de retrocessos que o Eduardo Cunha tem nos empurrado goela abaixo.

Militância renato-russiana

Com relação a participação dessas “personalidades” como você diz, é importante, portanto, separar o joio do trigo, ou seja, tentar definir o que é mero aproveitamento de um modismo, e o que representa um tipo de envolvimento mais sério e consequente. E é aqui que a meu ver entra o segundo grupo que você cita, que são aqueles músicos que se engajaram nesses debates não a partir de sua música, mas a partir de um conjunto de opiniões expressas em redes sociais e afins. Creio que aqui nós temos uma configuração interessante a se pensar, pois alguns dos principais nomes (Roger, Lobão, Dinho Ouro Preto) têm algumas coisas em comum: uma tendência política a direita que se assume enquanto “a” ou “supra” partidária, em alguma medida ligada ao rock brasileiro dos anos 1980. Esse é um ponto fundamental que precisa ser melhor explorado, porque acho que ajuda a desfazer a interpretação a meu ver equivocada de que a principal força da direita nas manifestações é aquela que pede o retorno da ditadura e outras sandices. Acho que essas interpretações forçam um deslocamento para uma lógica binária que não ajuda muita coisa. As forças conservadoras, que são de vários tipos, têm de ser compreendidas no interior do contexto atual, e não como o retorno anacrônico a um contexto pré-abertura. A força do fundamentalismo evangélico que vemos aqui é de tipo novo, e tem relação direta com o abandono do trabalho de base das esquerdas, bem como com o pacto diabólico do PT com o fundamentalismo neopentecostal. Assim como é de tipo novo o conservadorismo da geração Y que desde que quando estava aprendendo a falar já via o PT no poder. Para esses, Lula e sua turma encarnam tudo aquilo que há de podre na política nacional desde a época da colonização. E existe ainda essa geração que se formou no espírito do rock BR dos anos 1980, e assume certa “liderança” intelectual (ao lado dos liberais da revista Veja e da Folha e dos ultraconservadores delirantes como Olavo de Carvalho). Ou seja, aquela geração que viveu o início do período de democratização no país e que procurou fomentar um tipo de engajamento específico, desvinculado tanto de um projeto político imediato (como tinha a MPB do final dos 1960) quanto de algum vínculo mais estrito com alguma base social (como será o rap nos anos 1990). Uma geração que aprendeu a militar com o Renato Russo, o grande paradigma desse modelo de postura crítica conservadora, muitas vezes bastante moralista, do Brock. O Legião Urbana apresenta um inconformismo de cunho bastante conservador, uma cultura bacharelesca bem demarcada como forma de distinção erudita, sobretudo a partir do quarto disco, e um hedonismo ultra-româmantico que gera resultados interessantes e outros sofríveis. A letra e, sobretudo, o clip de Perfeição é bastante sintomático do tipo de revolta conservadora e hedonista que é uma marca de uma geração politicamente imatura (assim como nossa democracia). As mensagens de revolta abstrata da letra destoam completamente das imagens infantis e bobocas do clipe, como se a revolta fosse o tempo todo de brincadeira, com o poeta-sábio pairando serenamente acima de todo o desastre social que canta. Uma revolta em que o sujeito é, no limite, alheio as suas próprias reivindicações, pois o que lhe interessa são outras coisas. O que a princípio parece envolvimento político é na verdade um olhar auto-indulgente de quem paira acima da carne seca, transformando a crítica política em forma de celebração de sua própria distinção.

Diga-se de passagem, essa ideia de que o posicionamento crítico está sempre a esquerda é um mito que a esquerda adora sustentar, mas que acarreta bastante prejuízo em termos de compreensão, pois nada é mais comum no Brasil do que essa aliança espúria entre pensamento crítico e conservadorismo, quase um modo de ser da nossa história intelectual. De todo modo, quando os rebeldes sem causa do Brock, já em franco declínio comercial (apesar do revival dos anos 1990 e início dos 2000 quando assumirem uma postura claramente romântica, com os Acústicos), optarem por se engajar mais diretamente em uma discussão política, essa dimensão conservadora irá se tornar evidente. Soma-se a isso certa habilidade na manipulação midiática a seu favor – Lobão é um mestre da autopromoção, assim como seu antagonista-fetiche predileto, Caetano Veloso, no qual claramente se inspira, mas ao qual acrescenta um perigoso traço de anti-intelectualismo, próprio dos “politicamente incorretos” - e o estrago está completo.

Por isso acho que é incorreto pensarmos em termos de uma “guinada conservadora” da geração Brock. Só se for uma guinada de 360 graus... Nesse sentido pode ser interessante acompanhar as revisões históricas do legado da ditadura que têm sido feitas por pensadores como Paulo Arantes e Eduardo Viveiros de Castro, que desconstroem aquela narrativa hegemônica que sustenta que a ditadura foi “vencida” pelas forças democráticas. Ou pior, que a ditadura foi vencida pela “pressão cultural” da esquerda! Como se os militares resolvessem desistir por não aguentar mais ouvir aquele povo chato cantando “Pra não dizer que não falei das flores” na sua orelha. “Vamos desistir do poder senão o Edu Lobo vai cantar de novo...”. Na verdade, a ditadura se encerrou porque completou seu ciclo, o que significa dizer que nós não vivemos uma transição para a democracia que foi interrompida pela ditadura, e depois retomada: a própria ditadura é que foi a verdadeira transição para a democracia capenga que temos hoje. Nesse sentido é interessante pensar que a geração do rock BR não é composta pelos filhos rebeldes das vitórias dos anos 1970, ansiosos por mais democracia, e sim os descendentes diretos daqueles ideais fortalecidos pela ditadura, e que a partir dos anos 80 se tornam hegemônicos. Não os “filhos da revolução” cantado por Renato Russo, mas os herdeiros da “contra-revolução” sob o qual desenvolveu-se o capitalismo no Brasil, e que é perfeitamente encarnado na figura do Lobão, que inveja o posto de rebeldia midiática de Caetano Veloso enquanto sonha em vestir a farda de algum general. É claro que não se trata de defender que todo rock star dos anos 1980 é necessariamente conservador, mas é preciso especificar melhor os sentidos políticos daquela rebeldia, atentando para seus efeitos no presente.

Em comparação com a época da ditadura militar, você acha que a música cumpriu um papel politizado nesta que é a linguagem artística de maior alcance?

A trilha sonora da vez são vídeos do youtube

A despeito da enorme dificuldade de tratar das relações entre música, ou artes em geral, e política, acho que sua questão diz respeito a função privilegiada que a música popular cumpriu durante os anos de chumbo da ditadura, enquanto fórum de discussão e mobilização de afetos. Bom, creio que a comparação se deve ao aspecto mais amplo de um contexto de mobilização política que cobra o engajamento e posicionamento dos cidadãos, tornando praticamente toda disputa uma questão política de vida ou morte, no caso, pró ou contra o PT. Dito isso, as semelhanças praticamente se esgotam, e é preciso estar atento para o conjunto de diferenças que se impõem.

Uma primeira diferença importante talvez possa ser descrita como certa “clareza” geral de objetivo - ainda que ilusória e constantemente disputada - que unificava os conteúdos particulares ao redor da música popular nos anos de chumbo. De um jeito ou de outro, os militares no poder, aliados das forças imperialistas, eram o inimigo claro e direto da MPB, que segundo o Marcos Napolitano formava uma espécie de “resistência civil” contra o regime militar, muito mais seguro para quem não podia, não queria ou tinha a opção de não pegar em armas. Assim, basicamente qualquer música em favor da liberdade podia ser interpretada como contrária a ditadura, inimiga natural da liberdade democrática, e as canções que não eram críticas eram quase sempre interpretadas como favoráveis ao regime, ainda que as coisas tenham embaralhado a partir da guinada tropicalista da MPB em direção a si própria. Contudo, a despeito de toda a complexidade histórica dos agentes, ideologicamente as coisas estavam colocadas de forma mais clara: existia uma resistência (de esquerda) contra a ditadura (de direita) e a MPB era sua trilha sonora oficial, inclusive em termos mercadológicos. Foi precisamente esse conjunto de certezas que ruiu a partir de certo momento da história, a começar pela clareza da sigla MPB, que ninguém sabe mais ao certo mais ao que se refere. Nas ruas estão diversos grupos em disputa, e mesmo quem tem uma definição política mais clara não tem exatamente um lugar completamente seguro para engajar-se. As vezes ser de esquerda é defender o PT contra o Bolsonaro, as vezes é atacar o PT contra os governistas, as vezes é sair do jogo, outras é entrar de cabeça. Como muitos analistas já demonstraram, a descentralização e a horizontalidade são a tônica desse novo modelo de manifestação. Talvez por isso a dificuldade de uma trilha sonora específica, pois sem sentido unificador não existe trilha sonora unificadora. Daí que se apele para o hino nacional, é um pulo.

Mas não é só a diferença estrutural entre os protestos contra a ditadura (em que havia uma centralização dos afetos à esquerda, com toda ambiguidade possível) e as manifestações pós-junho (onde a descentralização faz parte das reivindicações, para quem achava que as pautas descentralizadas das políticas de identidade não possuíam poder de mobilização) que está em questão, mas também o papel da música em relação a cada uma delas, a despeito dessas diferenças. Nesse ponto acho que um aspecto decisivo é justamente o aspecto marginal que a música ocupa nessas manifestações, sobretudo se comparado com a centralidade da mobilização na época da ditadura. Sem sombra de dúvida, os colunistas sociais de diversos meios assumiram um papel bem mais central e decisivo do que os músicos nesse contexto. A tal ponto que os músicos mais influentes no debate são aqueles que se tornaram colunistas influentes nas redes sociais, como o Lobão ou o Tico Santa Cruz. O agente midiático da vez, onde se concentra o núcleo cultural decisivo desse processo político não é mais a canção popular, e sim as redes sociais e o colunismo político-cultural, marcados também pela descentralização (tanto a MPB quanto a televisão, que crescem juntas, operavam por meio da centralização). Essa diferença é, a meu ver, fundamental: enquanto na ditadura os artistas ligados à música popular, sobretudo na MPB, estavam no centro do que se reconhecia como o campo da “resistência civil” ao regime militar (independentemente do quanto essa resistência de fato articulou-se enquanto ameaça real ao regime), nas manifestações atuais as principais “lideranças” estão em alguma medida relacionadas aos meios de comunicação, digitais e impressos, e as redes sociais. Em todo caso, não é na música popular que a dimensão cultural desse processo se articula com mais força.

É por esse caminho que se entende também a baixa qualidade dessas canções feitas imediatamente para os protestos, sobretudo se comparada com a qualidade excepcional de algumas das canções de protesto da MPB em seu auge. Esse é outro aspecto importante a se considerar: porque essa onda de protestos contemporâneos, que a meu ver já é um dos eventos políticos mais significativos da nossa época (como um marco, por exemplo, do processo radical de ruptura entre movimentos sociais e política institucional), não fomentou uma trilha sonora de qualidade? Porque a dinâmica criativa e inovadora foi parar em outros meios, sobretudo os digitais? A meu ver isso não tem relação com a “canção de protesto” em si (existem inúmeras canções críticas excelentes, muitas delas ligadas as demandas por identidade), e sim com essas manifestações em particular, com sua insistente flutuação de sentidos para o qual ainda não existe trilha sonora possível, apenas arremedos como o Hino Nacional, que funciona ideologicamente como a nona de Beethoven ao longo da história, unificando paixões pelo reconhecimento e apelo cívico a uma coletividade inexistente.

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