• José Virgínio

Reminiscências do Cantinho da Amizade (ou por que o bloco tem o nome que tem)


Boas folias!

No sétimo dia da semana, das vigas lascadas de um bar fuleiro, nenhum deus fez um bloquinho de carnaval sair pra rua. Mas sim um coletivo amorfo interessado em fazer folia popular, aberta e, dentro do possível, livre. Deus, se existisse assim de se pegar no corpo e na voz, como disse o poeta, talvez até desaprovasse o fato de esse cordão umbilical ter vindo à luz cheio de purpurina e glitter. Como não estamos aqui para discutir a teologia profunda do verbo divino, vamos ao assunto dessa crônica lacunar e puramente afetiva, ainda que hoje algo desse tipo pareça praticamente inviável.

Um grupo de amigos formado por homens e mulheres frequentava, em meio a tantos outros grupos, turmas e panelinhas, um boteco situado na rua Iquiririm. Posso me equivocar na data e no tempo, mas acredito que essas visitas constantes desse grupo em específico (do qual o narrador faz parte) tiveram início em meados de 2004. Seja como for, mesmo com as sucessivas mudanças de dono, o estabelecimento sempre foi chamado e conhecido por todos os seus assíduos beberrões como Cantinho da Amizade. Ali comemorávamos nossos aniversários, marcávamos encontros, ajambrávamos rodas de samba, organizávamos despedidas de amigos que estavam deixando a babilônia por um tempo; comíamos porções de frango a passarinho puxadas no alho e beliscávamos escabeches salgadíssimos de uma conserva duvidosa; conversávamos sobre nossas vidas, nossas militâncias, elaborávamos projetos artísticos, jogávamos sinuca, estreitávamos laços de amizade, paixões se incendiavam, relacionamentos eram rompidos; sabíamos todos nós “era o nosso ponto de encontro tácito”; dar uma passadinha, às vezes, era o mesmo que intimamente falar para a própria consciência e para o tão castigado fígado “se preparem molecada que hoje só sairemos daqui com o galo da rotatória se esgoelando às cinco da manhã”; isso porque entre todas essas coisas, nos reuníamos em nosso boteco de estimação para, sobretudo, beber com os amigos, estivéssemos de bem ou não com a vida. No Cantinho da Amizade era extremamente difícil para cada um desse mesmo grupo de amigos, homens e mulheres, abastecer a fisionomia sozinho. Quando isso estava acontecendo, não tão raro, quem estivesse do outro lado do balcão acompanhava, num gesto solidário e inequivocamente humano, aquele ser isolado fosse lá qual fosse sua obstinação, e era assim que ambas as figuras mergulhavam em alguma meia-maratona etílica regada por duas ou três doses de conhaque contrabalanceadas por uns quatro cascos de cerveja e uns sete cigarros soltos.

Muitas vezes o Cantinho fechava mais cedo, nestas ocasiões era permitido à galera permanecer dentro do bar, mesmo que este já estivesse com as portas trancadas. O passaporte da alegria era destinado às muitas pessoas que faziam a última jornada do dia naquele antro (era o terceiro turno comprimido sofregamente no corpinho mirrado do tempo e que de vez em quando vai dar nas teias e telhas da aurora). Isto é, ficavam lá as pessoas que batiam o cartão de manhã em qualquer canto da cidade para depois comparecer no serão recreativo da noitada cantinesca que costumava ir longe.

Foi dessa maneira que enxertamos as paredes daquela construção com nossas histórias, povoamos aquele espaço que, sim, nos formou e ajudamos de algum modo a formar com nossas pequenas experiências pessoais e coletivas. Aquele quadrado de concreto e ferro nos alimentava com a diversidade de malucos que transitavam por ali na disposição de travar diálogo. Nós retribuíamos os diferentes acolhimentos buscando manter um proceder com o bairro, com a comunidade que habitava a rua antes dos nossos vinte e poucos anos despencarem ali sem paraquedas (em sua grande maioria, essa era nossa faixa etária, embora nada seja assim tão rígido e homogêneo). E éramos parcialmente mais felizes antes da lei do psiu, antes do avanço demolidor do conservadorismo, antes da especulação imobiliária chegar e colocar no chão uma parte significativa de nossas vidas, uma parte que hoje cheia de pó de cimento e tijolos se mistura ao barulho alto da jukebox gritando na memória qualquer canção do Roberto, da Ângela Rô Rô e do bloquinho de carnaval fundado ali, com um nome que presta sincera homenagem ao bar mais aconchegante e esperançoso (pois era o último que fechava) da Vila Indiana, Butantã.

Infelizmente, o Cantinho da Amizade só pulou dois carnavais com o bloquinho de rua que seu espaço tão hospitaleiro (nosso ninho de amor, não é preciso ter medo de ser brega) engendrou. As primeiras reuniões do Te Pego no Cantinho ocorreram em meados de 2011, o bloco saiu do papel no carnaval de 2012 e ainda em 2013 partiu em seu cortejo deixando para trás, na frente da sua sede original, um rastro de purpurina, lantejoulas e confetes. Através desse caminho de cacarecos carnavalescos conseguimos retornar com o bloco para o nosso recantinho inicial, cientes de que no ano seguinte seria diferente: o anunciado encontro com o buracão vazio. No carnaval de 2013, o terreno onde estava construído nosso Cantinho da Amizade já fora vendido para o supermercado ao lado para virar estacionamento do mesmo, violência. Ou seja, mais do mesmo: reflexos do metal vilão abocanhando nossos espaços boêmios de encontro, amor, esboços e programas de arte, luta e folia.

Em 22 de abril de 2013, tomamos as últimas doses em nosso cantinho querido (“din din don que nóis fizêmo muito dos nossos amigo”, pois no coletivo foi se espremendo mais gente). O bar já não estava funcionando, mas seu guerreiro administrador de penduras e fiados abriu as portas para a despedida. Era uma pequena festa, um encontro entre camaradas, e comemorávamos naquela ocasião, não não e não o “descobrimento” do Brasil, mas o aniversário de uma queridíssima amiga: taurina arretada, i-ching nervoso, bonsai do mal enraizado nas fontes úmidas e telúricas da Vila Indiana, um sopro de poesia e um soco de pelica. O burburinho passou das 3 da matina, e aquela foi a última vez. O Cantinho da Amizade morreu numa madrugada de terça-feira gorda.

Em 2014 e em 2015 fomos maravilhosamente acolhidos pelo bar que ficava quase em frente ao Cantinho (digo quase porque, olhando reto, a linha dava uma sempre deitada para a fatal diagonal esquerda), nos pegamos no Bambu e continuamos redescobrindo e reinventando nossas relações, nosso carnaval e essa bomba relógio que chamamos amor – mas o nome do bloco continuou o mesmo. O Te Pego no Cantinho ainda carrega no nome a memória daquilo que foi diluído, mas dentro de nós não acabou.

Outros Carnavais!

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