• Acauam Oliveira

David Bowie: o termômetro camaleônico


Foi o parceiro Rafael Senra que falou bonito: Bowie não era daquele tipo de gênio que Erza Pound definiria como inventor, aquele criador responsável pelo surgimento de um processo estético de tipo novo. A rigor, David Bowie não inventou nada, não antecipou nenhuma tendência. Não fez nada antes de nenhum outro. Também não diria que se trata de um mestre, outra das categorias de Pound: aquele artista que explora em profundidade os processos descobertos pelos inventores, levando-os até dimensões insuspeitas (digamos, aquilo que o mestre Chico Buarque faz com as possiblidades estéticas inauguradas pelo inventor João Gilberto). E digo isso porque o mestre estrito senso deve apresentar algum grau de “fixação”, por mais ampla que possa ser sua linguagem. E a própria imagem camaleônica cuidadosamente forjada por Bowie revela um desejo profundo de não fixar-se, de não ser mestre de coisa alguma, mas participar em alguma medida, de tudo o que estiver a seu alcance.

Diferentemente de Caetano Veloso, contudo, – para citar outro artista profundamente camaleônico - Bowie não pretendia ser farol nem modelo de nada (a despeito de, por diversas vezes, acabar sendo representado como tal). Não deseja “organizar o movimento” ao redor de si, fornecendo a direção da cena musical. Seu único desejo é participar da festa em trajes de gala, comendo todo mundo e criando moda.

O que mais me admira em sua figura não são as mudanças de estilo ou de persona, mas a maestria com que essas personagens criam canções de qualidade em cada gênero que se propõem a fazer. Sem inovações mais notáveis, mas sempre com domínio pleno da sua matéria (lembrando nesse ponto os trabalhos pós tropicalistas do Gilberto Gil). Aliás, segundo o amante-amigo Iggy Pop, Bowie tinha por método antes de gravar um álbum seu, produzir o trabalho de outra pessoa no gênero que lhe interessava. Seu pop romântico vai ser lindo, seu soul vai ter pegada de criollo, seu rock vai ser agressivo, sua disco music vai arrebentar nas pistas, sua new wave vai servir perfeitamente para trilha de filme distópico dos anos 1980. O que chama a atenção em Bowie é, antes de tudo, a qualidade da representação - mais verossimilhança que Verdade - e que não é apenas sonora, mas de todo o contexto que envolve a produção de um sucesso, como se ele realmente incorporasse novas personalidades que se realizam no som e na imagem, convencendo enfim pela qualidade final do resultado.

Ao mesmo tempo, em todas as suas múltiplas personalidades, reconhecemos como que por milagre uma bem delineada marca autoral. Ou seja, Bowie é um típico compositor de MPB – um artista que atravessa os mais diversos estilos e gêneros a partir de um projeto autoral bem demarcado – só que em um contexto em que tal conceito não existe. Daí ser interpretado a partir da diferença, como um camaleão, ser em perpétua mudança que é e ao mesmo tempo não é completamente pop. A meu ver, os juízos valorativos que apontam Bowie como uma espécie de percussor de tudo são equivocados: é bem provável que Madonna e seus personagens existissem sem Bowie, e que o som dos anos 1980 existisse sem a trilogia de Berlim, ou ainda que a androgenia se tornasse pop independentemente de Ziggy (os T. Rex já haviam levado a androgenia para o palco, mas é com o sentido geral dotado por Bowie que esta se configura enquanto movimento glam rock). Mas a construção de seus personagens e de sua linguagem, que busca inserir esses elementos em uma totalidade de sentido, muitas vezes acabam por iluminar (por concentração) as potencialidades de cada época.

Sobretudo, David Bowie foi uma espécie de farol que ilumina alguns dos caminhos tomados pelo rock na passagem para os anos 1980, em sua transfiguração para um universo cada vez mais pop. A virada para uma época em que ninguém mais acredita que o rock e seus ídolos são capazes, desejam ou mesmo devem se esforçar para mudar o mundo. A persona de Ziggy Stardust - um alienígena que se torna astro do rock, mas exagera na dose e morre - é criada em plena época de ouro do rock’n roll. Quando o mundo acreditava que aquela juventude tinha força e vontade para mudar o planeta. Ziggy, ao contrário, é pura imagem pop, idolatrada como um Deus e indiferente a tudo que não seja auto-satisfação. Somente anos mais tarde é que o universo pop veria a realização concreta daquela alegoria na figura do seu maior astro: Michael Jackson, uma figura também bem próxima de uma espécie alienígena, dado o caráter sobre-humano de tudo o que fazia com o corpo, no palco e na vida. Da mesma forma, a trilogia de Berlim indica uma mudança fundamental da transição dos anos 1970 para os 1980, simbolizada metonimicamente pela passagem do LSD para a cocaína (Station to Station até Lodger) como entorpecente geracional. A obra de Bowie encena como poucas essa transição, assumindo em sua essência o caráter fake do universo pop. Não por acaso, será uma figura fundamental para a construção da carreira artística de Madonna, segunda a própria cantora que definiu como seriam as cantoras pop até os dias de hoje.

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