• Constantino Luz de Medeiros

Pode o Subalterno falar? Spivak e o Protagonismo nos Movimentos Sociais


No cruzamento de duas grandes avenidas de São Paulo, uma jovem levanta o punho cerrado em protesto contra a reorganização arbitrária das escolas, proposta pelo governo paulista. Após algumas semanas de luta e quase duas centenas de escolas ocupadas, estudantes secundaristas colocam o governo na parede.

Há alguns dias, centenas de mulheres negras marcharam sobre a grama verde do Palácio do Planalto, lutando contra o racismo e por melhores condições de vida. Nas redes sociais, travestis e transexuais esclarecem questões de gênero, denunciam a violência que afeta suas existências e criticam a falta de políticas públicas de inserção social.

Um jornalista negro escreve uma coluna semanal em revista de grande circulação, abordando a realidade escandalosa da violência policial contra os negros. Uma jovem mantém um blog que trata de questões específicas da luta das mulheres, enquanto se propagam pela internet depoimentos denunciando casos de abuso sexual.

O que está acontecendo? Afinal de contas, pode o homem falar pela mulher? O movimento negro pode ser representado por um intelectual branco? A mulher negra tem voz no movimento feminista?

Quem vai falar por travestis, transexuais, crossdressers, bigêneros, agêneros ou mesmo genderfuck, um homem cis, uma mulher cis? Assim, parece que ficou bem mais complexo compreender a diversidade de denominações e grupos que querem ser sua própria voz e representar a si mesmos nas lutas sociais. O fenômeno, conhecido como protagonismo, tem causado acaloradas discussões dentro e fora dos movimentos sociais.

O temor que se difunde por parte de alguns pensadores tem relação com sua compreensão da concepção marxista da autonomia da ação dos sujeitos (individuais ou coletivos) nos processos históricos e sociais, o que acaba por fazer com que contemplem a multiplicidade de representações, a miríade de vozes anteriormente excluídas dos discursos como algo que pode enfraquecer a luta de classes.

A visão apocalíptica sobre o protagonismo atual – que chega a identificá-lo como algo que possa causar o esfacelamento total e o consequente enfraquecimento dos movimentos sociais – parece nascer da mesma fonte que também recusa a pós-modernidade, classificando-a de apolítica e alienada.

Por detrás da concepção de que o sentimento pós-moderno pode ser meramente categorizado em uma totalidade conceitual, no fundamento dessa sede de denominações e interpretações apressadas, surgem termos como “alienante”, “superficial” e mesmo “antirrevolucionário” para definir a época atual. Se pensarmos a constituição moderna do sujeito enquanto uma construção cultural semelhante a tantas outras, assim com o faz Bruno Latour em “Jamais fomos modernos”, poderemos chegar ao veredito de que a multiplicidade inovadora (e ao mesmo tempo incômoda para alguns) dos sujeitos pós-modernos responde igualmente pela estruturação dessas vozes perante um mundo cada vez mais reificado.

Por outro lado, há nessa revolta contra o protagonismo e a pós-modernidade um estranho apego e uma pretensa forma dogmática de considerar os fenômenos sociais e culturais segundo uma compreensão equivocada das noções de sujeito histórico e de emancipação humana expostas na famosa fórmula apresentada por Karl Marx, em seu Dezoito Brumário, segundo a qual os pequenos proprietários camponeses “não podem representar a si mesmos; devem ser representados”.

Uma das vozes mais ativas dos estudos pós-coloniais, marxistas, feministas e desconstrutivistas, Gayatri Chakravorty Spivak, em seus escrito “Pode o subalterno falar?”, utiliza essa e outras afirmações de Marx para teorizar sobre a representação e, ao mesmo tempo, criticar o modo como Foucault e Deleuze simplificam a questão.

Ao afirmar que esses grupos subalternos não estão sendo representados em outros discursos, Spivak busca demonstrar que, em verdade, até mesmo em tentativas de intelectuais de regiões não pertencentes à hegemonia do pensamento eurocêntrico ocorre a exclusão (ainda que não intencional) de outras minorias.

Para a autora, esses pensadores não teriam levado em consideração a diferença estabelecida por Marx entre os dois verbos alemães, os quais podem ser utilizados para traduzir o ato de representar, “vertreten” e “darstellen”, ou seja, a “representação” [Vertretung] enquanto um “falar por alguém”, e, por outro lado, a “representação” [Darstellung] como exposição, do mesmo modo em que o termo é compreendido na arte e na filosofia.

Dessa maneira, a representação [Vertretung] dos subalternos por outrem inviabilizaria o processo revolucionário. Spivak busca refutar o que chama de “agenciamento”, ou seja, a representação de subalternos por indivíduos de outras classes sociais, pois, “ao representá-los, os intelectuais representam a si mesmos como sendo transparentes”, quando de fato não o são (p. 41).

Argumentando fortemente em favor do protagonismo e se contrapondo a essas vozes que se colocam como representantes de discursos emudecidos, e que acabam por silenciar de vez os subalternos do mundo, Spivak traz a tona a importante questão da recusa. A autora compreende a “recusa ideológica coletiva” como algo que os intelectuais devem ser capazes de fazer para se abster dessa prática sistematizada pelo imperialismo, deixando que cada grupo assuma sua voz, evitando, assim, a produção de um simulacro que corresponderia a tradução (ou traição) do discurso do outro.

O exemplo do protagonismo na luta contra a “reorganização” das escolas de São Paulo é sintomático desse movimento da voz dos subalternos descrito por Gayatri Chakravorty Spivak.

Ao paralisar o trânsito e levar a aula para o centro da avenida, para o frenesi da vida urbana, chamando a atenção para o descaso, a violência e a arbitrariedade na tomada de decisões que envolvem milhares de vidas, os jovens secundaristas paulistas fazem ecoar a sua voz e demonstram que a resposta à pergunta retórica de Spivak é sim! O subalterno pode e deve falar!

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Constantino Luz de Medeiros é Doutor em Teoria Literária e Literatura Comparada pela Universidade de São Paulo.

Referências:

LATOUR, BRUNO. Jamais fomos modernos. São Paulo: Editora 34, 2009. Tradução de Carlos Irineu da Costa.

MARX, Karl. O dezoito de Brumário de Louis Bonaparte. In: MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Obras escolhidas. Moscou: Progresso, 1982.

SPIVAK, Gayatri Chakravorty. Pode o subalterno falar? Belo Horizonte: Editora UFMG, 2014. Tradução de Sandra Regina Goulart Almeida; Marcos Pereira Feitosa; André Pereira Feitosa.

Imagem:

c. Sâmia Bonfim


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