• Camila Dias

Em tempos de Cunha, quem tem Ava é rei! (ou melhor, rainha!)


“São tempos difíceis para saber ler e escrever”, disse algum meme pela internet. Eu adaptaria e diria que são tempos difíceis de ouvir. Está complicado ouvir que família é somente pai, mãe e filhos, que ação criminosa de mineradora é desastre natural e (algumas) mulheres dizendo que nunca sofreram machismo.

Com uma bancada inteira propagando que vivemos no século XIX, mulheres têm suas (poucas) conquistas ameaçadas: o fim da pílula do dia seguinte, um preconceito institucionalizado no controle sob corpo feminino por meio da criminalização do aborto, nenhuma movimentação por salários igualitários.

Mas já diria o filósofo, que é também da coerção que nascem as possibilidades de resistência e anda bonito de ver a mulherada unida nas ruas, os hashtags cibernéticos (#meuamigosecreto #primeiroassédio #agoraéquesãoelas) e o que pode ser uma (ainda minúscula) luz no fim do túnel.

No campo das artes, o Teatro Oficina sempre foi um ponto de resistência política em tempos obscuros, como o que parece que vivemos hoje. Concordemos ou não com as concepções artísticas de Zé Celso, é inegável o papel que o espaço representa no florescer de artistas combativos e (alguns) talentosos.

Foi lá que Ava Rocha, carioca, se encontrou. Cineasta desde o pai (ela é filha de Glauber), a artista participou da montagem de Os Sertões e se descobriu cantora. Seu disco, Ava Patrya Yndia Yracema, uma colagem psicodélica de ritmos e letras que desafiam o ouvinte a sair de seu conforto para se entregar a vários tons.

No universo de cantoras contemporâneas (quase todas iguais), Ava foge ao esteriótipo de voz doce, vestido floral e olhar magérrimo durante interpretações de canções pop. Em sua performance ao vivo no Sesc Vila Mariana, quando a vi pela primeira vez, Ava surgiu poderosa em um vestido vermelho e preto, evocando o melhor de uma pomba gira multi-artística. Sua voz visceral combina com uma presença de palco que traz a figura da mulher do século XXI: defendendo e ocupando o espaço que é seu.

Escute o disco completo:

Em seu disco, o novo papel feminino é percebido em canções como "Você não vai passar de um cara", na qual o eu-lírico coloca a figura masculina no oposto do lugar idealizado, devolvendo a ele o lugar do comum de pouca importância.

Em "Transeunte coração", nos versos "quando pensares que sou eu / por favor não me olhe / porque não vou te conhecer" encontramos a emancipação feminina na liberdade antes reservada somente aos homens.

Em "Uma", a cantora divide os vocais com a filhinha em uma representação de mãe dos anos 2000.

O álbum ainda traz a combativa "Auto das bacantes", sua ligação com o Teatro Oficina, e a metalingustica "Hermética", de Negro Leo, que fala sobre o "som cabeça oca" que não serve mais nos dias atuais de tantas lutas.

"Boca do céu" e "Beijo no asfalto" são dois poemas concretos, com imagens que casam com as melodias e harmonias apresentadas pela banda em sua execução crua dos instrumentos.

"Doce é o amor", de Domenico e Bruno di Lullo, apresenta-se como uma metáfora que podemos interpretar como uma ode ao amor ou a experiências lisérgicas, a la Lucy in the Sky with Diamonds. De ambas as formas, a voz de Ava está presente de forma contundente mas igualmente harmoniosa.

O disco também traz as contemplativas "O jardim", "Mar ao fundo" e "Oceanos", que encerra o disco que é como um mergulho no mar, ora calmo e prazeroso, ora redemoinho e mistério.

Em tempos difíceis de se viver, em que nos agarramos em hashtags, catarses coletivas, protestos nas ruas e alguma coisa que nos faça dividir a dor para ver se renascemos juntas, Ava é uma boa razão para se ouvir, cantar junto e se manter firme!

A cantora se apresenta em São Paulo neste próximo final de semana em dois shows - na Casa de Francisca, dia 28/11 e na Casa das Caldeiras, no festival do Mundo Pensante, dia 29/11.

Não percam a chance.

Evoé!

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Camila Dias é adepta do movimento "bailarina sem fronteiras" nas pistas de dança e sabe tocar duas músicas de cor na escaleta. É integrante da @bandaliterária e escreve no @jazmim_escritos


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