• Camila Dias

Música afetiva: onze tentativas de justificar meu favorito.


Esses dias me peguei pensando sobre a presença dos Beatles na minha vida desde minha infância. Por alguma razão, eu quis cavucar quando foi que ouvi o quarteto pela primeira vez. Será que eu era louca por "Yellow Submarine" ou pulava quando tocava "Hello, Goodbye"? Será que eu dancei "Twist and shout" na formatura da pré-escola sabendo quem era o quarteto? Quando foi que eu percebi que aqueles meninos jovem guarda tinham se tornado hippies nos anos 60?

Minha péssima memória de infância não me permitiu refazer esse caminho com exatidão, mas optei por pensar que essa falta de precisão também se dá ao fato dos Beatles sempre estarem lá. Eles e aquela mesinha de madeira entalhada sob a qual minha avó colocava o telefone em casa. Essas duas coisas e mais algumas, como a maleta preta do meu avó durante o período que foi representante comercial (depois de ter sido caixeiro viajante, motorista de ônibus, fotógrafo, e de ter tido mais umas oito ocupações), o conjunto de pratinhos e garfinhos laranjas de piquenique também da minha avó e o baleiro de vidro com flores desenhadas na minha casa. Todos esses objetos não tinham início, eles representavam o sempre, o permanente, o que estava antes e ficaria depois.

Por isso, quando fui desafiada a fazer a lista de top 10 discos da minha vida, eu sabia que os Beatles estariam lá! O difícil era decidir qual disco. Sabe a brincadeira do que você levaria pra ilha deserta? Pois fui logo acometida por aquele frio na barriga do que ficaria em terra firme e me descobri apegada ao "White Album”, louca pelo "Abbey Road" e incapaz de dizer adeus ao "Sgt. Pepper’s". Mas brincadeira é brincadeira e, como boa capricorniana, eu tinha que levar aquilo a sério!

Consegui finalmente digitar: seria o Revolver! Tudo que ouvi em seguida, como era de se esperar, foi como eu poderia ter deixado de fora este, aquele, e o outro lá. Mas estava convicta! Por que? A seguir tento explicar que essa história tem dois lados, ou melhor, onze faixas, ou melhor ainda, seguem as onze tentativas de pedir desculpas a “Rubber Soul” e “Let it be”.

LADO A

1) o ritmo da guitarra de “Taxman” e sua letra marcam o protesto de um mundo controlado pelo dinheiro. E porque gosto muito de gravações que começam com a marcação “1, 2...1, 2, 3, 4...” dos músicos.

2) para mim não existe Beatles sem o violoncelo e o violino presentes no começo de Eleanor Rigby. A memória musical que se tem do início da canção é marcante e ela se constitui em uma das crônicas mais bem escritas e executadas da história da música;

3) em “Love you to” a faceta hippie dos Beatles em “make love all day long / make love singing songs”;

4) ouvi a melodia de “Here, there and everywhere” infinitas vezes no carro com meus pais aos sábados a noite, voltando das compras do supermercado ou das visitas às casas dos meus tios;

5) quero pensar que quando criança eu cantava “Yellow Submarine” sem nem saber a letra, nem quem eram os Beatles, e a amava mesmo assim, como vejo crianças fazendo hoje e dia;

6) em “She said, she said” há a prova da minha teoria da conspiração de que a comunicação é um mito e estamos todos caminhando lado a lado, mas nunca nos entendendo de verdade;

LADO B

1) escuto “Good day sunshine” sempre que quero lembrar da ingenuidade de um dia de sol e um amor, bem simples;

2) depois da ingenuidade, a realidade de “when she says her love is dead / you think she needs you” presente em “For no one”. Para mim, essa canção é como aquele conselho de um amigo que senta do seu lado e relata o que está acontecendo, mas só você não vê. Esse conselho que mantém o mesmo tom do começo ao fim porque a função maior é como te toca não pelas palavras, mas pela melodia presente ao fundo;

3) o piano de “I want to tell you” justifica os quase dois minutos e meio da música;

4) a meia-lua é o instrumento que marca a maior parte de “Got to get you into my life”. E como todos sabem que os frustrados que não sabem tocar nenhum instrumento sempre podem dizer que tocam meia-lua, essa canção me representa;

5) o disco fecha com a cítara, o que marca a entrada definitiva dos Beatles na psicodelia que nos presentearia com as influências indianas em Sgt. Pepper`s.

A primeira vez que encontrei meu desafiante depois da tarefa de montar a lista de top 10 discos da vida, lá estava ele com um vinil de “Revolver” na mão de presente para mim. Parece que eu o tinha convencido.

A mesinha entalhada da minha avó não resistiu aos modernos suportes de telefone sem fio ainda nos anos 90; a maleta do meu avó foi usada como brinquedo por todos os netos depois que ele se aposentou e deve ter sido doada com os nossos brinquedos quando crescemos; o baleiro da minha casa tenho quase certeza que se quebrou e o kit de piquenique laranja desapareceu e ainda é motivo de desavença entre primos que o queriam como herança e virou assunto quase proibido em prol de um bom almoço de domingo ou noite de Natal intacta. Mas todas as memórias ao redor deles e dos Beatles seguem reinventadas nas minhas lembranças.

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Camila Dias é adepta do movimento "bailarina sem fronteiras" nas pistas de dança e sabe tocar duas músicas de cor na escaleta. É integrante da @bandaliterária e escreve no @jazmim_escritos


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