• Camila Dias

Diário acadêmico de uma bailarina sem fronteiras


"Pode colocar bandas nos agradecimentos do mestrado?" foi o que perguntei um dia a minha orientadora.

Sim, o mestrado é uma escolha. Ao contrário da graduação, a opção por dar este passo na vida acadêmica é mais consciente. Ou deveria. Ou foi assim comigo. Muitos dos meus amigos de faculdade seguiram a carreira acadêmica. Apesar da grande diversidade entre nós, talvez pelo perfil da universidade pública, pela constituição da própria USP, pelas características do curso de Letras, ou até por uma conjunção astrológica que nos uniu ali - hoje em dia acredito em nada, acho possível tudo, ao contrário daqueles dias tão materialistas - a maioria saiu da graduação para o mestrado, em diferentes áreas, em diferentes anos (mais difícil do que passar no vestibular pode ser se graduar por lá). Eu me perguntava se eu também não deveria. Conversava sobre com professores nos últimos semestres, fazia aulas como ouvinte depois de graduada, mas a vida me levou de volta a essa escolha somente alguns anos depois.

E, então, no último semestre do mestrado eu me via ali, diante do word aberto branco, mais de cem páginas prontas para serem preenchidas. Com o que? Alguns dias, escrever se tornava um martírio e eu amaldiçoava a NASA, que levou o homem à lua mas não inventou um pendrive que conecta seus pensamentos direto ao word. Fazer citações e colocar a referência da ABNT para, logo em seguida, ter que explicar tudo com suas palavras; perceber que o que você sabe corre em um ritmo e o que você digita, em outro; lembrar que o prazer de escrever, divagar e criar poderia ser cortado a qualquer momento pela lembrança do prazo do depósito, do artigo, do comitê de ética. Nesses dias, e nos que precederam a esses, eu encontrei um modo de instantaneamente me sentir bem em meio ao turbilhão de tarefas e sensações: colocar o play no Ramdom Access Memories do Daft Punk.

Originários da periferia de Paris, o duo de música eletrônica lançou este disco em 2013 e os sucessos "Lose yourself to dance" e "Get lucky" já tinham me embalado nas pistas no 1o semestre do mestrado. Naqueles tempos eu não entendia porque amigos da pós diziam não ter vida, ou melhor, viver para a academia. Eu fazia as aulas e trabalhava, mas a entrada no mestrado coincidiu com aquela fase pé na jaca que todo mundo já teve mas poucos ousam revelar. Meus fins de semana começavam na 5a e duravam até domingo, com eventuais 3as que perdiam a classificação de dia útil para virarem úteis noites de diversão.

Mas "Ramdom access memories" vai muito além de dois hits. Do começo ao fim, o duo francês faz uma trajetória pela música eletrônica que inclui até mesmo um discurso de Giorgio Moroder, músico italiano, um dos pioneiros da música eletrônica, durante a música "Giorgio by Moroder", contando sobre esse início. A primeira faixa "Give life back to music" traz versos únicos (let the music in tonight / just turn on the music / let the music of your life / give life back to music") que se repetem ao ritmo marcado pela incrível guitarra de Nile Rodgers e sintetizadores que remontam essa trajetória eletrônica da dupla.

Quando as linhas se embaralhavam no computador e mais ainda na minha mente, esse refrão não me tirava do torpor, me colocava em outro e, como mantra, limpava mente e corpo em passinhos improvisados frente à escrivaninha. As canções que misturam o pop com letras primorosas como "The game of love" e "Within", traziam uma calma vindas dos pianos e tecladinhos junto a seus versos. Eu cantarolava "Instant Crush", que conta com a participação de Julian Casablancas dos Strokes, reproduzindo a crônica de relações atuais em que o refrão "I listen to your problems, now listen to mine / I didn't want to anymore" era cantado a todo gás, me lembrando daquelas pessoas mais íntimas que eram obrigadas a me ouvir durante aquele processo.

Em outros momentos era somente um se entregar a música mesmo, corpo dançando a sons como de "Touch", "Motherboard" e "Fragments of time" pelo puro prazer. O Daft Punk não entrou na lista de agradecimentos ("ahhhhh", diz o coro) mas continuo a pensar que todos que estão ali registrados, nesse livro empoeirado encostado em alguma parte da biblioteca da PUC (e nos arquivos digitais), contribuíram tanto quanto essas músicas para que eu discorresse sobre o fenômeno que decidi estudar. Mas contribuíram muito mais para o processo, sofrido mas também recompensante, de produzir algo seu, um projeto tomando forma, suas palavras ganhando vida.

Demorei a me decidir viver essa experiência, mas foram dois bons anos colecionando histórias pra contar. Mas é óbvio que no final o que dissémos é "Ufa, acabou, posso voltar a dançar Daft Punk de 5a a domingo, e em eventuais 3as também".

__________

Camila Dias é adepta do movimento "bailarina sem fronteiras" nas pistas de dança e sabe tocar duas músicas de cor na escaleta. É integrante da @bandaliterária e escreve no @jazmim_escritos


9 views