• Camila Dias

Sobre o que levamos do fim


"Acabou", quem nunca disse ou ouviu essa palavra? Assim mesmo, com esse ponto final, como um ponto final.

Parece que a vida é feita de muitos deles, e tem grandes sábios por aí que afirmam que sem ele, o tal fim, nada recomeça. Para Freud, por exemplo, a castração é fundamental para nossa formação como sujeito. E o que é a castração se não uma espécie de fim? Um freio naquele desejo, pulsão? Nessa interpretação infantil de Freud - infantil porque esse olhar é quase da criança mimada que diz "por que não posso eu fazer tudo que quero, ora bolas?" - o fim pode ser também sofrimento.

É bem comum pensarmos os términos como restritos aos relacionamentos amorosos. Ah, românticos que inventaram esse negócio de sofrer de amor que persiste na pós-modernidade!

E antes dos recomeços, nascem os lamentos sobre os términos. Esses podem ser intermináveis lamúrias que você profere sempre que bêbado ou sóbrio, quando se torna o terror de qualquer roda de amigos.

Porém, há quem transforme isso em música! De um lamento pelo fim (ou comemoração, por que não?) nascem canções incríveis que falam sobre esse sentimento quase universal.

Um disco que me acompanhou em alguns términos e conta a história de tantos outros é "Que isso fique entre nós" do cantor paulistano Pélico.

Diz uma amiga minha: "não sei se sou boa em términos, mas ando praticando bastante". Eu, que raramente fecho a porta dos fins, e mesmo quando o faço, ela teima em se reabrir reagindo assim a força que pus no braço, andava praticando bastante nessa época e, coincidências a valer, o disco foi gravado em 2011, ano que o "acabou" reverberou em mim não só na perda de um relacionamento longuíssimo, como também na partida de um ente muito querido.

Mas, se neste ano eu me desfazia em lamúrias, não é o que acontece com as canções do Pélico.

O disco abre com "Ainda não é tempo de chorar" que traz questionamentos de quem ainda não se decidiu sobre o fim. Em seguida, "Sem medida" empresta sua letra a um eu-lírico que clama em descobrir como lidar com o fim. Sem limite e sem respostas, a canção pergunta "então me diga, como quer que eu te queira?", angústia que será brevemente respondida em "Não éramos tão assim", que em olhar em retrocesso tenta redimensionar a relação terminada e diminuir seu peso, quem sabe, para diminuir o sofrimento.

"Que isso fique entre nós", música que dá nome ao disco, e “Tenha fé, meu bem” trazem as intimidades que permanecem em nós, independente da relação ou fase da vida que possa ter chegado ao fim, os seus resquícios. Nessa mesma levada positiva, “Levarei” trata o final como algo que traz alegria e alívio com a certeza de que o outro vai nos acompanhar em memória, mas que novos caminhos devem ser seguidos.

Não a toa, é no meio do disco que também encontramos as situações indefinidas, as pedras do meio do caminho, como o desejo do direito de vingança em “Recado”, o clamor por mais uma chance em “Vamo tentá”, com um refrão empolgante, e “Não vou te deixar, por enquanto”, que remete ao apego e, ao mesmo tempo, a uma acomodação de quem esperará a vida decidir, pois “nosso trato prevê o pior, mas o destino é impreciso”.

O desfecho desse disco eu deixo como caminho a ser percorrido sozinho, como é todo término.

As diferentes formas de fim estão presentes no disco todo e me fazem recordar todos os outros vividos, e que nem sempre são bem resolvidos: o fim da faculdade, da qual sinto saudade quase todos os dias; o de algumas amizades, que foram se perdendo na pretensa correria da vida; a saída da casa dos pais, um fim para um recomeço mais adulto; a decisão de morar sozinha e o fim do amigo companheiro no quarto ao lado; o fim do mestrado, com comemorações e alívios, mas que te leva embora o cotidiano de aulas, colegas e discussões; o fim de outro relacionamento aos 30, tão diferente de quando o temos aos 20; a despedida da padaria favorita pra encontrar uma nova em um novo endereço.

Nem mesmo do disco "Que isso fique entre nós" me desapeguei!

Pélico está a todo vapor com "Euforia" (será que após términos bem vividos, é isso que sentimos?), lançado esse ano e com canções que continuam a nos mostrar que a música independente têm tanto a nos dizer! Já ouvi, gosto e recomendo!

Mas escolho discorrer sobre o disco anterior. Sigo criança mimada que pergunto "por que não posso ter tudo, ora bolas?", mas cada vez mais, me acostumo com o fato de que parece que dele, esse tal de fim aí, não fugimos.

Ainda bem que tem gente transformando tudo em (novos) discos. E histórias pra contar.

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Camila Dias é adepta do movimento "bailarina sem fronteiras" nas pistas de dança e sabe tocar duas músicas de cor na escaleta. É integrante da @bandaliterária e escreve no @jazmim_escritos

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