• Camila Dias

Do coletivo ao solo acompanhado


A primeira vez que ouvi sobre o Gustavo Galo ele era mais um em uma trupe pra lá de numerosa. Na época, um namorado me acompanhava na plateia do show da Trupe Chá de Boldo e apontou para uma das 13 pessoas no palco: “Eu acho que fiz PUC com esse cara”.

Seguia um fato que poderia se tornar clichê: Galo era mais um músico que nascia do circuito PUC-USP e afins, o que faz com que a música independente paulistana quase receba o adendo “universitária” ao seu final.

De fato, muitos músicos da cena tiveram ligações com essas universidades – se não de modo formal, como alunos, informal, nos circuitos de festas, shows e eventos culturais ligados a essas instituições – mas as atividades de Galo, que pertencia ao Nusol (Núcleo de Sociabilidade Libertária) e fez um mestrado sobre a obra de Roberto Freire, parecia levar sua vida acadêmica mais próxima ao que chamamos de “a vida que se vive”.

Quando algum tempo depois descobri Asa, seu primeiro disco solo, seu nome soou familiar e o ouvi atentamente.

Eu descobriria, então, que não havia ali nada de clichê. Ao contrário, Asa é um universo de canções com letras e harmonias profundas e produção primorosa.

Embora em carreira solo, sem seus 12 amigos da Trupe, Galo já mostra em “Tomara”, primeira canção do disco, que se mantém como alguém pertencente aos coletivos: há um coro ao final da canção, torcida que espera que algo nasça do coração enterrado em uma praça, e que conta com as vozes de Maurício Pereira e Alzira Espíndola.

“Cantei, cantei”, composição sua com Marcelo Segreto, discute metalinguisticamente o abandono no amor. Em “Só”, Gustavo se entrega a uma interpretação delicada da canção dos amigos Peri Pane e Arruda, que traz imagens cotidianas para marcar a solidão em versos primorosos como “parece que não compensa / o amor não é crime nem castigo”.

A regravação de Walter Franco, “(Eu te amei como pude) Feito gente” traz a energia rockeira que irá reverberar em “Moda”, faixa seguinte.

Lembrando a festa mais coletiva existente, “De aeroplano” vem como uma grande marchinha de Carnaval e um desejo de se fundir ao coletivo se atirando “na orgia / no céu azul / lá em cima de vocês”.

Aspirações adolescentes, uma das fases da vida em que estar em grupo é o mais importante, são possíveis imagens que podemos criar com “Um garoto”, que conta a venda de objetos para que o eu-lírico possa alcançar o sonho de ir ao show da Patti Smith.

As três canções a seguir são convites a paixões: “Seresta”, letra do próprio Galo, pede uma entrega que reconhecemos na própria música, que começa lenta, discreta e vai subindo até o refrão, em que janelas e instrumentos se abrem; “Cama”, uma das canções mais bonitas cantadas por essa geração (Tatá Aeroplano é o compositor e sua primeira gravação foi ainda com o Cérebro Eletrônico no disco Deus e o Diabo no liquidificador, de 2010) nos envolve com imagens de um delírio que, entre um padê poderoso e uma canção do Cohen, nos convida ao amor em um refrão entoado bem alto e coletivamente em qualquer show em que ela é executada; o amor que entorpece reaparece em “Nosso amor é uma droga”, em um solo de piano que só faz sentido no conjunto das harmonias dos outros instrumentos ao fundo.

Asa se encerra com música homônima que trata da Terra e da terra, em que ouvimos que não são os terráqueos que a dominam, mas ela mesma que treme, geme e goza, organismo em si, poderosa com sua vista para o céu.

Só muito tempo depois do lançamento do disco pude ver o show ao vivo. E lá, novamente, mais coletivo.

Neste dia, Galo contou com uma banda composta pelos amigos Pedro Gongom, Zé Pi, Meno del Picchia e Chicão (Rafael Montorfano), impressionando em uma performance visceral que fez o disco ganhar forma e força no palco.

Crente que sou da catarse coletiva proposta pela arte, sai daquele espaço naquela noite convicta da cura pelos shows e pela música ao vivo – o que pode até virar igreja e culto por aí.

Neste dia 20 de outubro, amanhã, Galo fará mais uma performance, uma das últimas deste trabalho de 2013/2014. E nós temos mais uma chance de vivermos um outro clichê: ganharmos asas e viajarmos junto com suas canções. Este, um que vale a pena pela catarse de viver a arte em trupe.

----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------

Camila Dias é adepta do movimento "bailarina sem fronteiras" nas pistas de dança e sabe tocar duas músicas de cor na escaleta. É integrante da @bandaliterária e escreve no @jazmim_escritos

#CamilaDias #musicapornaomusicos

23 views