• Fernanda Windholz

Um Café (Poema)


Vontade de tomar um café com você

sentindo o cheiro doce do café preto

que vai ocupando a cozinha, a sala, a varanda.

Vontade de sentir seus olhos pousarem nos meus

depois de voarem tantas léguas

de rodarem tantos quilômetros de asfalto esburacado

de terceiro mundo.

Depois de rodopiarem esquinas,

pagando o pedágio de suor, sangue, dignidade.

Vontade de compartilhar o sangue dos teus olhos

na cozinha da minha casa de aluguel

enquanto o cheiro do café alcança a rua.

Vontade de lavar contigo o chão sujo

de sangue, pó, gasolina e suor

e deixá-lo branco por um instante

enquanto a noite escura despenca pela janela.

Vontade de atravessar avenidas congestionadas, linhas de trem superlotadas,

avenidas interditadas,

campos de soja, campos de café, campos de guerra,

campos de refugiados, becos sem saída, cercas elétricas,

cadeiras elétricas, choques elétricos, golpes militares,

hospícios, guerrilhas, procissões,

atentados, atos, comícios,

toques de recolher,

rios sujos, terras secas, mares devassados,

córregos canalizados que choram baixo,

juros e déficits e dívidas

atravessar tudo sem lucros e sem saldos

e chegar na cozinha da sua casa.

Na cozinha da sua casa alugada

olhar nos seus olhos, ouvir sua voz

que sai do fundo das suas cordas vocais.

Ouvir teus silêncios.

Sentir sua presença negra, luminosa, invisível.

Sua mão.

Comer do seu feijão puxado no alho

cozido no fogão de quatro bocas.

Vontade de atravessar a tela, o tempo

a jornada de trabalho, a hora extra, o desemprego

a fome, o teclado, a tela, a câmera,

o cronômetro, o farol, o metrô, o túnel,

o cubículo, o sono, o tempo

que segue dando voltas em si mesmo de acordo com a velocidade estipulada,

assassinando sistematicamente sonhos, memórias, amores e o valor das ações

que despencam mais escuras que qualquer noite.

Vontade de chegar numa noite sem lua na varanda da sua casa,

e sentir o cheiro doce do seu café preto.

Em São Paulo, a noite é branca.

Vontade de atravessar a tela branca, a luz branca, a tarja preta,

a morte, a falta de ar, a falta de água,

os batimentos cardíacos, o câncer, o crime

o pânico, a insulina, a ausência,

a vidraça, a vitrine, o espelho,

o carro do ano, a cocaína, a conta de luz,

o namorado do ano, o antidepressivo,

a clandestinidade, a ditadura, o sexo,

os hormônios, as proteínas, a fotossíntese,

a endorfina, o abandono, o cortisol,

a fome, o amor, o desejo

os batimentos cardíacos, os pulmões, o oxigênio

o som do atabaque, o som da U.T.I.

o som da sua voz

Tudo me atravessa. Vontade

de olhar nos seus olhos doces cheios de serras,

de pular a janela, desviar a rota,

voar léguas, perder a conta, encontrar rastros,

ouvir passos, sentir o cheiro, pisar no terreiro

que acabaram de varrer mas não de pagar.

Sentir o cheiro de terra batida, escutar o som do atabaque

que ressoa no sonho dos que dormem

numa noite branca.

Vontade de tomar um café preto com você,

acender meus olhos nos teus,

ouvir suas dúvidas, seus medos, suas dores,

banhar-me na água dos teus desejos

e do teu silêncio.

Tão incompreensível quanto íntimo.

Reconhecer e estranhar você, sem saber por quanto tempo.

Antes que o despertador toque.

Ouvir teu silêncio, fácil ou difícil, numa noite sem cor,

e ir dormir.

_____

Para Paulo, Monilson, Aysha, Luma, Danilo, Olavo, Adega, Marcelino, Paulo da Chapada, para toda a turma linda do Butantã e adjacências (que segue se amando e se visitando, na cozinha), para o antigo Vire a Lata, para a ocupação casa aberta, Mogli, Glaucus, Camis, Rafa, Raul, Flora, para todo o povo doido da FFLCH, para o Crusp, Rô, Isa, para os que migraram, para os que brigaram comigo ou me esqueceram, para os que esqueci, para todo o povo do axé, Mãe Maria, Babá Gilberto, Neide, Mãe Yara, para a Bahia de todos os santos e pecadores, Nalvinha, Liú, Marcos, Prachá, Tio Corrêa, Severino, Nice, Evilásio, Neto, Ícaro, Renata e as meninas, para as Minas, para as estradas, para a Pilar e o Sarau do Binho, para Giovani e todos os duendes, para a Jaguariúna da Carol e sua mãe Adriana, para a Glória, Marilene, Rosa, Zina e Dona Inês, que Deus a tenha. Para o samba e o butoh. Para meus pais e meu irmão e tudo que passamos juntos. Para meus antepassados e o tempo que eles passaram nas cozinhas, nas conversas e nas rodas. Para todos os poetas, cantadores, dançadores, agricultores, caçadores e cozinheiros de todos os tempos. Para todos os deuses, e para meu orixá.

Com trechos de versos emprestado sem pedir de Allan da Rosa e Ellen Maria Vasconcellos.

#literatura

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