• Camila Dias

E na terceira década, ele ressuscitou


Quem conhece pernambucanos e, principalmente os recifenses, sabe da sua mania de se referir a tudo como o maior da América Latina: a maior avenida da América Latina, a maior concentração de pessoas em uma festa de rua da América Latina (o Galo da Madrugada!) e, para mim, uma das maiores cenas culturais da América Latina: o movimento mangue beat, que ressignificou a música brasileira nos anos 90. Nação Zumbi, Mundo Livre SA e outros, bem como os seus desdobramentos que perduram até hoje, como Otto, Siba e a própria Nação, são referência para nossa história e vivência musicais.

Mas um tesouro musical recifense andava escondido lá nos anos 70, e foi em uma dessas tardes de brisa de Boa Viagem que eu o encontrei.

Recife foi, sem dúvida, uma das cidades que mais visitei na vida. Durante os anos em que um de meus melhores amigos, metade recifense metade paulistano, morou por lá eu somei duas férias, quatro carnavais (ah, os Carnavais...) e eventuais feriados prolongados que eu aproveitava para visitar os amigos que fiz e usava a cidade como ponto de partida para outras viagens.

Posso confessar que Recife foi o lugar em que minhas risadas foram mais gargalhadas - se tem gente que sabe se divertir é pernambucano! Uma cerveja no Central, um almoço no píer de Brasília Teimosa e até uma (séria) visita ao Instituto Bressane se tornam momentos de completa avacalhação, das melhores!

Foi em uma tarde que não prometia nada além disso que um amigo, atualmente espalhando suas piadas e sotaque pernambucanos por Brasília, me fez passar horas em frente ao Youtube rindo dos vídeos mais idiotas, desses que nos fazem questionar como tem gente no mundo com tempo para garimpar tantas pérolas - e nós mesmos éramos essas pessoas.

Passadas horas, quando eu mal enxergava a tela do computador de tantas lágrimas de rir, ele decidiu me mostrar o melhor de Pernambuco. “Você vai ouvir o maior cantor dos anos 70 da América Latina”, disse ele me arrancando as últimas risadas com aquele bordão tão conhecido entre nós. Foi quando começaram as faixas de Di Melo.

Eu reconheci uma ou outra música de algumas festas de São Paulo nas quais amigos músicos atacavam de DJ vez ou outra, mas nunca tinha ouvido a obra completa e nem sabia da história daquele pernambucano. Em poucos minutos, dançávamos na sala e repetíamos as nossas favoritas alarmando "esse disco em si já é uma festa".

Lançado em 1975, Di Melo é uma pérola que conta com participações de Hermeto Pascoal e Heraldo Dumonte, sendo uma das maiores expressões do soul brasileiro.

A primeira faixa, “Kilariô”, é de uma batida contagiante e imagens bem brasileiras, seguida pela igualmente empolgante “A vida em seus métodos diz calma”.

“Aceitar tudo” continua a mostrar uma brasilidade nas lutas cotidianas da falta de estudo e grana ao mesmo tempo que exalta a alegria do “brasileiro que não desiste nunca” mas que também se conforma com quase tudo, o que ganha continuidade nas introspectivas “Conformópolis” e “Má lida”, que apresentam crônicas de um Brasil reprimido pela ditadura e desigualdade.

Além das letras de protesto, o disco traz canções com arranjos primorosos como o violão e os sopros em “Alma gêmea” e o baixo incrivelmente bem executado de “Sementes”.

O documentário "Di Melo: o imorrível", de Allan Oliveira e Rubens Pássaro, conta como a lenda que ele havia morrido em um acidente de moto contribuiu para a aura de mito em torno do cantor. Mas mostra, principalmente, um Di Melo pronto para voltar a ativa, com mais de 300 composições feitas durante o afastamento da música.

Atualmente, ele faz shows e mostra o antigo e novos trabalhos nas noites de várias cidades do Brasil.

E pode receber o título de “cantor mais ressuscitado da América Latina”. Sorte a nossa!

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Camila Dias é membro do movimento "bailarinas sem fronteiras" em festas e sabe tocar duas músicas de cor na escaleta. É integrante do @bandaliterária e escreve no @jazmim_escritos. E dará alguns palpites sobre música por aqui nas próximas semanas.

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