• Nelson Valadão

A Friendzone não existe, você que é babaca!


Que tal irmos direto ao ponto, só pra variar? A tal da friendzone, esse limbo assustador marcado pela falta do desejo, não existe. Ela é uma invencionice compensatória machista.

Machista porque parte do pressuposto bizarro de que não pode haver amizade entre gêneros, e que se um homem se aproxima de uma mulher é sempre com segundas, terceiras ou quartas intenções, e que se ela for simpática é porque está afim. Afinal, o homem só pensa em sexo, e a mulher, dissimulada, sempre finge que não pensa sempre em sexo. Certo? Se você pensa assim, meu amigo, realmente é impossível que você mantenha amizade com uma mulher. Não porque seja impossível, é claro, mas porque você é um babaca.

Bom, mas digamos que você não seja um babaca, e que acredite sim na amizade entre homem e mulher. Seu problema é com aquela gata específica, que você gostaria que não te olhasse como um amiguinho. Daí você não é machista, certo? Nesse caso, é interessante perceber que o conceito de friendzone é usado quase que exclusivamente por homens. E se você der uma pesquisada por aí, vai ver que as imagens que tratam da friendzone são sempre muito escrotas, com o cara em posição de subordinação, efeminado, etc.

Nesse caso, parceiro, é hora de desconfiar que esse é um daqueles tristes casos em que você pode até não ser um babaca, mas os conceitos que você usa pra entender o que está acontecendo na sua vida são criados para reproduzir o pior da espécie humana. E sim, você caiu feito um patinho, porque a despeito de acreditar nisso ou não, ao colocar seu problema em termos de friendzone, você acaba por reproduzir a misoginia que sustenta o mundo.

Você já parou pra pensar que aquela sua amiga gata, muito gata mesmo, não quer o seu corpinho simplesmente porque como amigo você era um cara legal, mas quando ficou afim dela virou um mané grudento, inseguro, obsessivo e chato pra cacete? Mas como obviamente você é o cara mais legal do mundo, o problema é com a mina, que não se interessa por homem que a trata bem. Friendzone! E mesmo no caso das minas que se atraem por figuras de poder destrutivas, a ideia de friendzone é tão redutora que não ajuda em nada a entender o que acontece.

Além disso, mesmo em termos estratégicos (“não posso pegar uma mina se ela me considerar um amigo”) a premissa está errada. Você não irá pegar ninguém que te considere desinteressante ou desestimulante sexualmente, mas isso tem a ver com atração, não com amizade. Digo por experiência própria: mais de 90% das pessoas com quem eu me relacionei afetivamente\sexualmente eram amigas e - eventualmente, quase nunca, só a cabecinha - amigos, até eu fazer uma opção pessoal por parar com essa história, que apesar de ser uma delícia, também dá seus rolos (ah! A flor negra do ciúme...). E digo mais, nenhuma delas deixou de ser minha amiga. Muito pelo contrário, o conhecimento do corpo complementa o da alma. Amizade é amor.

É claro que existem os casos dos que não te enxergam como um ser sexualizado por conta do tipo de amor fraternal no qual seu desejo foi enquadrado. Mas isso não é uma lei imutável do desejo humano (pra repetir um argumento chocante e horripilante que já tem mais de um século, nem amor de mãe é dessexualizado), e se ele não te quer não é porque vocês são amigas, mas porque esse interesse não foi despertado. Só isso.

A amizade não é a causa da interdição, mesmo quando faz parte do conjunto. Isso significa que se aquele gostoso do seu brother não te enxergou como objeto de desejo até agora, isso não quer dizer que as coisas não podem mudar - e aí tem que rolar um esforço básico de subversão para construir uma amizade trepante. E vice versa, pode ser que aquele seu parceiro fofo de repente seja mais do que isso. É claro que isso também não é uma lei, e que daquele mato não saia cachorro nenhum. Mas aí, paciência. Em todo caso, rolando ou não, você não perde uma amiga. No máximo, amplia seu conceito de amizade.

É por isso que, além de machismo, a friendzone é muleta compensatória (pensando bem, todo machismo é muleta). É claro, se o outra não me quis, o problema não é comigo, que sou perfeito, nem com meu desejo, irrecusável. O problema é a friendzone. O problema é que o cara é gay. O problema é sempre o Outro, num movimento de terceirização ideológica, para repouso do ego em berço esplêndido.

É claro que, pra variar, a alma humana sempre complica. E existe sim aquela zona de indefinição límbica em que o desejo não encontra acolhida, mas também não é livre para concluir seu luto. Trata-se daquela situação que todo mundo já viu dezenas de vezes, quando não a viveu. Existem aqueles – e não são poucos - que a vivem sempre, pois constroem seu desejo ao redor de migalhas, Eu já passei por algumas, de duração variável, e também já fui o causador, do que não me orgulho. É quando aquela pessoa que por quem você é doida, doente, apaixonado, e que sabe que você é doido, doente e apaixonada não diz que sim, mas também não diz que não, te deixando em banho-maria.

Mas mesmo nesse caso, não se trata de friendzone, e sim de desonestidade: a pessoa está te usando como objeto narcisista pra se sentir desejável, ou pra ter um banco reserva quando o time principal não estiver jogando. É aquele cara que só te convida pra sair de terça, nunca no fim de semana que é horário nobre do time principal, ou aquela mina que escolhe você – sabendo da sua vulnerabilidade patológica - para aquela dança sensualíssima que vai atrair outros corpos quando você for dispensado (e o pior de tudo é que poder de te dispensar também funciona como elemento erótico, pra você e para os outros).

Em todo caso, não existe nada mais distante da ficção da friendzone do que essa situação. E a prova maior para mim é que eu não posso dizer que nenhuma dessas pessoas são hoje minhas amigas. Não existe amizade aqui, só manipulação descarada. Ou então, essa pessoa acredita que amigos podem ser manipulados, o que é ainda pior. Nesse caso, corra pra bem longe, de preferência adotando o sábio lema de Roberto Carlos: “Eu só vou gostar de quem gosta de mim”.

______________

Nelson Valadão é formado em Física Teórica e pós-graduado em Matemática Aplicada pela UNE. Descobriu recentemente que não pode entender pessoas com equações.

#cultura #convidado

613 views