• André Bonani

O Carregador de Cannolis


Meus domingos são dias bastante frustrantes. Eis um fato que volta e meia constato ao despertar lá pelo meio-dia, de ressaca, depois de uma noitada de sábado. Mas meus domingos não são dias bastante frustrantes pelos motivos que em geral tornam o domingo um dia bastante frustrante para os outros. Não é por me fazerem lembrar da segunda-feira, nem por causa do sorriso maligno do Faustão. Meus domingos me frustram porque catalisam em mim uma horrenda crise de identidade. É sempre muito mais simples ser eu nos outros dias. Durante a semana, sou o tradutor, o aspirante a escritor, bebo no Mercearia às quintas, vou no samba da 13 de maio às sextas. Aos sábados ouço vinis, vou no Espaço Itaú e bebo uma Seleta no fim da noite. Toda essa trama de máscaras está muito bem atada, e eu a aceito. Mas no domingo tudo se dilui. Pois tenho um único papel incontornável a desempenhar nesse dia teimoso, um que me custa assumir: levar a sobremesa para o almoço na casa dos meus avós. Eis o meu drama identitário: aos domingos, não passo de um mero carregador de cannolis.

Meu avô veio da Itália. Chegou ao Brasil com 13 anos. De sua infância, fala sobre duas coisas: uma bicicleta amarela e os cannolis que sua avó fazia. Hoje vive ao lado do Parque da Água Branca, mas logo que veio para São Paulo, foi morar com a família no Bixiga. Quando saí do apartamento de meus pais, mudei-me para uma casa na Rua dos Ingleses, muito próxima daquilo que se convenciona chamar de Bixiga. Não tardou para que meu avô ficasse sabendo disso. Já no domingo seguinte ao sábado de minha mudança, ele me chamou de lado, todo cuidadoso, e me disse:

- Deco, soube que você se mudou para perto do Bixiga. Posso te pedir um favor? Tem uma barraca na feirinha da Praça Dom Orione que vende cannolis. Será que você poderia começar a trazer alguns aos domingos para a sobremesa? Lembro de comê-los quando era moço. Me faziam lembrar os da minha avó.

Como dizer não a um avô nostálgico? Esse foi um daqueles momentos em que não há meios de se fugir da raia. A vida me pegou no ombro e disse: “Vai, André! ser carregador de cannolis aos domingos.”

Desde então, religiosamente, passo na barraca antes de ir para a casa de meus avós. Essa é uma das faces que me define. O problema é que quero mais do que isso. Sei que soa egoísta, afinal trata-se de fazer meu avô feliz. Mas há tanto para se ser num domingo além daquilo que tenho que ser!

Resolvi mudar, experimentar uma nova identidade. Maneirei na birita nesse último sábado, e às 9 em ponto do domingo estava vestido para criar um outro eu. Fui aproveitar a manhã de sol no Minhocão, entrando nele pela Consolação. Dali eu seguiria direto para a Água Branca, já munido dos famigerados cannolis, que agora carregaria numa mochila para não atrapalhar minha caminhada.

Como pode ser rica a vida aos domingos! Quantos odores sobem a nós da feira da Santa Cecília! Parei ali, desci do elevado e bebi um caldo de cana, observando as frutas e uma mulher de vermelho numa janela. Em que misteriosas meditações estaria mergulhada? Depois subi e retomei a caminhada, seguindo com o olhar um casal andando de bicicleta, sorrindo, os cabelos ao vento, como se saídos de um sonho de enquadramentos luminosos. Qual seria o segredo de sua felicidade dominical? A bicicleta? Eu bem que poderia tentar ser ciclista... Também poderia assumir de uma vez o hipster dentro de mim e fazer como esse pessoal que vende roupas ou fotos delicadamente estendidas em toalhas coloridas pela extensão do elevado. Ou arranjar um cachorro e adestrá-lo para praticarmos cooper sem coleira. Ou beber chimarrão lendo um livro e tomando sol. Ou adotar um filho e levá-lo ali para chutar uma bola ou brincar numa piscininha de plástico. Bastava escolher.

Ao final da caminhada, entrei no Parque da Água Branca para refletir. Eu estava confuso. Tantas opções possíveis para se ser num domingo! Em meio a esse estado de desordem ontológica, vislumbrei um enorme grupo de pessoas se aproximando de mim. Eram jedis, jaspions, cavaleiros do zodíaco, pokémons. Na placa ao lado do banco em que estava sentado havia um letreiro: “Convenção de cosplay no domingo dia 24 de agosto.” Pois é, eu pensei, aparentemente não sou só eu que quero ser outra pessoa aos domingos. Ali, cercado por um grupo de Darth Vaders, resolvi afogar minhas mágoas: abri minha mochila e devorei os cannolis já um tanto destruídos pela caminhada. A vida é dura.

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André Bonani é escritor nascido e vivido em São Paulo. Gosta de janelas, cerveja no copo americano, pão com manteiga e de riscar fósforos. Nas horas vagas, costuma caminhar ou ouvir jazz recortando revistas. Sua cosmovisão é regida por dois imperativos: simpatia e elegância. Ainda está em busca do nome perfeito para seu futuro gato.

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