• Gabriel Gonçalves

Nós dizemos sim, Chef!!! Uma receita quentinha para por ordem na cozinha.


* Agradeço ao suaves toques goumertizadores de Acauam Oliveira que, infelizmente, não conseguiu concluir a prova.

20 minutos, participantes!!

As panelas soltam o vapor. O calor passa a ser intenso e deixa o cenário mais esfumaçado. Os competidores passam a balbuciar sua ansiedade: “Não dá tempo”; “P@##$,devia ter feito o peixe primeiro”. O som de alumínio dos instrumentos de cozinha se transforma em um continuo e desordenado barulho agudo. A fritura acompanha a sinfonia ardida.

Tira do fogo...

À frente dos fogões, um palco central com um tablado cuja altura diferencia do chão alguns centímetros. Não muito alto. Mas, de maneira que a última fileira e a primeira possam ver três vultos. Talvez Outros, que não sejam nós. Que diferença faz agora? Não é o momento. Os participantes apenas olham e conversam entre si, falando baixinho nos ouvidos. Durante o teste, se colocam frente a frente, como uma breve reunião. Dissolvem o círculo.

Izabel, tá fazendo o que?

O vapor.

A fritura.

A tensão, o gelo e o peso que pressiona a nuca, não deixam muito nítido quem são.

Ainda cozinhando, Chef!!

A TV brasileira nos últimos 15 anos passou por um processo interessante com a abertura de sua grade de programação para os reality shows. Com a estreia de Big Brother Brasil, as emissoras abriram espaço para programas em que pessoas “reais” são as personagens. Desde então tivemos uma enxurrada de novos enlatados do tipo. Conhecemos como são os “artistas” em seus íntimos. E íntimos mesmo: tomando banho, cagando e lavando a roupa suja, literalmente ou em sentido figurado, como no celeiro de subcelebridades da falecida Casa dos Artistas. Outros canais desenvolveram suas narrações em programas semanais que colocavam as pessoas no mais extremo de seu limite. Ou apresentando o desempenho dos “atletas da cozinha”, como no atual MasterChef, na Band.

Uma característica comum a esses programas é sua aparente ausência de script, ou seja, não tê-los escritos antes do programa ir ao ar. A espontaneidade das reações dos participantes permite que se vá além da fixação de um roteiro, possibilitando que vez ou outra algum participante solte um “filha da puta” indesejado. (Para quem quiser acompanhar, o You Tube tem uma coleção fascinante de tretas. Até o ex-apresentador do “Bom Dia e Cia”, Yudi, dá o seu “AAAAlô!!”)

Pois é precisamente aí que está a chave do sucesso! É nessa suposta ausência de roteiro prévio, aparentemente sem ações deliberadas por alguém que determina previamente o andamento das coisas, que o roteiro se desenvolve com plena "liberdade", como se todos estivéssemos envoltos em uma ordem simbólica, tal como definida por Zizek: aquele algo não escrito na sociedade, mas que “está aqui, dirigindo e controlando os meus atos, sem que eu nunca possa segurá-lo”.

Isso aqui não tá ruim não.

Obrigado chefe!

Tá horrível...

O-obrigado chefe

Para melhor exemplificar esse não escrito, podemos recorrer a três categorias lacanianas centrais: o Simbólico, o Imaginário e o Real.

O simbólico seria algo como as “regras do jogo”, tudo aquilo que ao longo de nossas vidas é internalizado pela fala, a aceitação dessa maneira de dialogar com o outro aceitando a sua dependência dele. Poderíamos colocar aqui também os padrões morais de nossa sociedade. No MasterChef tal dimensão é bastante emblemática. Para se tornar o chef vencedor do programa é necessário que cada participante passe pela pressão do jogo, afinal, “é o que vocês encontrarão lá fora”. Cada jurado procura deixar isso bem claro, especialmente nos momentos de discussão das escolhas dos pratos pelos participantes. Ou seja, trata-se do conjunto de não-ditos internalizados como modos de ser, e que fazem o jogo funcionar.

O Imaginário opera nos momentos em que cada pessoa pensa no que deve ser, ou melhor, naquilo que ela “imagina” de tal objeto ou pessoa. Ao apresentar os Outros, os que ditam a “lei” para chegar à vitória, cada participante assume uma virtualidade de si, ou seja, seus atos refletem os seus planos de como devem transparecer aos jurados. Podemos pegar como exemplo, Fernando e Jiang. O primeiro tem o ímpeto e a ambição de ser o melhor. Esse é seu ethos. A cada derrota, Fernando se irrita, como um samurai que não honrou seu mestre (no caso, seu próprio imaginário). As provas são encaradas como um processo de seleção natural do jogo, algo semelhante a um darwinismo, ainda que velado. Jiang, por sua vez, é a imigrante que tenta a vida nova no Brasil: imigrante chinesa, que fique claro. No imaginário brasileiro, trata-se de uma imagem complexa, formada por trabalhadores esforçados do terceiro setor que falam “englaçadinho” e vendem comida “goldulosa”, a um só tempo familiares e estranhos (no limite, assombra o comunismo). Sendo meiga e dócil, Jiang caiu nas graças do público como representação da mocinha indefesa em país estranho. Mas ela só é amada por todos enquanto preenche o imaginário de sua torcida na condição de mocinha frágil, afinal, sempre exige-se do “estrangeiro” que nos ame mais do que a si próprio. Como sugeriu o Sensacionalista numa brincadeira acertadíssima, caso ela tivesse mantido suas “raízes” até o limite, preparando um saboroso “cacholo ao molho madeira”, imediatamente a balança mudaria e Jiang se tornaria “monstruosa”, pois estaria se recusando a ocupar seu papel em nosso imaginário. Fernando, por sua vez, era tido como arrogante e considerado “o vilão do Masterchef”, a despeito de ser um dos concorrentes mais bem preparados. O papel que cumpre no imaginário brasileiro também não é difícil de reconstruir: aquele “japa” que sempre tira as melhores notas, roubando o destaque que era pra ser nosso (como eles conseguem?).

O Real, por sua vez, é a trama complexa de impossível conceituação, a infinidade de imprevistos e problemas trazidos a cada momento pelo jogo, e que causa um estranhamento não assimilável pela trama simbólica ou pela costura do imaginário. Podemos citar aqui o exemplo do Cristiano, participante de origem pobre, negro e baiano. Essa última era a característica mais explorada pelo programa, não só pelo sotaque, mas por características como a “calma” e a “malemolência”, assim como certa emotividade exacerbada. “Não meche com o cabra que o baiano é arretado”. Essa imagem, cujo estereótipo reconhecemos facilmente, fizeram de Cristiano um dos personagens mais queridos do público. Verdadeiro, “quando gosta de alguém, gosta mesmo. Agora se pisar no calo dele... sai da frente. Baiano é assim”. Progressivamente, contudo, Cristiano vai deixando de ocupar seu lugar na trama imaginária. Talvez cedendo à pressão, ele vai adoecendo, tornando-se exageradamente desconfiado, quase paranoico, num claro estado de fragilização psicológica. Evidentemente, fragilizar-se é o pior pecado no universo de competitividade de um reality show – espaço em que sua vida é representada como um eterno trabalho precarizado. Por isso explica-se porque, na última votação, Cristino estava em último lugar de popularidade. O espírito competitivo do programa e a pressão sobre-humana fizeram o baiano sair do seu papel e apresentar uma fagulha de um sujeito fragilizado que simplesmente “não aguentava mais”. O público, que é brasileiro e não desiste nunca, não perdoou. O baiano arretado se transforma no pobre descontrolado e rancoroso que deixou a fama subir a cabeça. Em suma, um pobre mal agradecido que não soube aproveitar a belíssima oportunidade que lhe foi dada (e que, de fato, não é pouca coisa dado o atual nível de degradação). Ao se defrontar com o final da competição, a ordem simbólica se fratura e faz ver, por alguns instantes, a Real dimensão da barbárie que, graças a Deus, imediatamente expulsamos. O jogo é cheio dessas nuances.

Tá chorando por quê? Vai temperar com lágrimas?

Voltando ao não escrito, a ordem simbólica do jogo, o Masterchef está longe de ser um programa de culinária, ou Reality Show tradicional. Quer dizer, como em qualquer reality, fica evidente a dimensão de capitalismo selvagem que traz. Entretanto, a ordem simbólica é a azeitona nessa empada. As provas criam situações de retomadas de significantes, tais como, autoritarismo, hierarquia, cordialidade, favor, dentre outras coisas, que costuram a trama sádica do programa com um tempero gourmet.

A todo momento as condições desse Real virtual do programa colocam em xeque as decisões e os valores dos participantes. Em uma das provas de equipe, o capitão do time derrotado (no caso, o malévolo Fernando) deveria escolher um participante para se safar, podendo escolher a si próprio, que é a sua opção. Após isso, a narradora Ana Paula Padrão quebra o fluxo narrativo do jogo para ressaltar a polêmica do capitão que deixou o barco afundar com os marinheiros. O sentido, entretanto, é positivo, pois não se trata de defender que a amizade vem em primeiro lugar, ou outros moralismos do tipo. Se existe uma moral, trata-se da impossibilidade de alternativas, o famoso “antes ele do que eu”, afinal isso aqui, que é a vida real, que é um jogo. Reafirma-se mais uma vez a seleção natural e a impossibilidade de alternativas. O real virtualizado do jogo tenta trazer a identidade do real cotidiano dos telespectadores. Um brinde à naturalização dos sujeitos tornados coisa!!!

No entanto, isso não significa que estamos na condição de meros fantoches, ou subjetividades pré-programadas como um computador. Os sujeitos valoram suas escolhas a partir de momentos de necessidades e possibilidades criadas por suas ações, mesmo em condições não desejadas e anteriormente dadas. É nessa contradição, em que temos as fissuras da Ordem simbólica do Grande Outro, que opera a ideologia.

E o frango, tá pronto?? Alguém vai rodar essa noite!

Sim, chef!!

Você quer rodar?

Não.

Não, o que?

Não, Chef.

Enquanto no Big Brother os reguladores dos programas, os Outros, estavam atrás dos espelhos da casa/cenário, no Masterchef temos a presença de três Jurados. É deles a tarefa de impingir a lei sob os concorrentes no constrangimento de suas receitas ou no planejamento da comida. Os reconhecidos chef’s jazem em um tablado em frente das bancadas dos aspirantes a cozinheiro. Perfilados, estes novatos, trabalham com suas cabeças voltadas para o fogão, as facas e as panelas. Ao levantarem têm a presença dos três jurados a olhá-los - a Lei - buscando o acordo ou em desacordo com o que estão fazendo.

Os membros do júri, os já consagrados Masterchef’s, são como os santos no altar para o qual cada participante tende a olhar. São aqueles a quem diremos Sim. Os símbolos reais que buscaremos, sem sucesso, atingir.

(Por um aviso do Outro, atrás das câmeras, um dos juízes vai às bancadas e olha o que cada participante procura fazer. Questiona: “olá, o que temos hoje?”. “Tô fazendo o arroz com alho, cebola e sal”. “Isso vai dar certo?”. Aqui, sob os comandos da edição, é o momento em por em tensão o participante, mesmo que ele faça a mais óbvia das receitas, o arrozinho nosso do dia a dia. “Será, chef?”).

Ao mesmo tempo, os participantes estão em um processo de negação de quem são - ou seja precisamente de onde vêm suas receitas e forças. Não é a toa que em vários momentos do programa às receitas são afirmadas a partir de referências anteriores: “esta é uma receita de minha família”, “ai mãe, desculpe, não deu certo”. Nesse processo de negação de suas identidades, buscam a aprovação desse novo pai simbólico – santíssima Trindade – um processo destinado ao fracasso (o lugar do grande chef jamais será ocupado, pois jamais saberemos seus desígnios – basta lembrarmos da saída sem sentido da Jiang, para ficarmos em um exemplo óbvio recente) que tem como resultado medo, angústia e tensão – por isso, o momento de maior verdade do programa até aqui foi a “crise de pânico” de Cristiano.

Caso atentarmos para os trabalhos de cada participante, e para as razões de sua participação no programa, encontraremos o mote da “superação do trabalho alienado em nome da vocação”: ex-Marketing, Promotora de Eventos, Estatístico, Empreendedora, Gerente de Projetos, agente de trânsito, etc. Esse desejo e tudo que envolve de pressão pela “grande chance” é o aparente catalizador do medo. Contudo, tal “mudança de vida” não é, de forma alguma, evidente. Não está claro no que, afinal, é preciso se superar e transformar. Por isso, temos a presença de um não dito, uma fissura não sistematizável em conceitos. Ai é que a trama do programa expõe o seu “DNA”. A criação simbólica desse Grande Outro, obsceno ao público e ao participantes, cuja função é semelhante a figura do Pai em Kafka:

“Tu me perguntaste recentemente por que afirmo ter medo de ti. Eu não soube, como de costume, o que te responder, em parte justamente pelo medo que tenho de ti, em parte porque existem tantos detalhes na justificativa desse medo, que eu não poderia reuni-los no ato de falar de modo mais ou menos coerente. (KAFKA, Cartas ao meu Pai)”

Essa mensagem trazida ao programa, na apuração dos pratos ou nos questionamentos, expressa-se subjetivamente pelo medo/tensão da resposta à ordem simbólica. Mas, esse medo não deriva somente do desejo impossível de agradar aos chefs, correspondendo às suas expectativas, no limite, indefassáveis. A tensão deriva da própria ordem simbólica instituída pelo programa, o script não escrito, a ausência\presença dele. A figura dessa autoridade difusa e irrecusável, ao qual não se consegue nunca agradar, embora seja absolutamente necessário não desagradar, garante a identificação do espectador com seu cotidiano, e as demandas impossíveis do superego.

15 minutos, participantes!!!

Você não acha que falta mais tempero aqui? Olha que alguém vai rodar hoje a noite!

Sim, Chef!

Na chamada do programa, temos as apresentações de cada um dos jurados, com falas que podemos trazer para uma composição de seus símbolos. “Elegância, sofisticação e delicadeza.” O próprio imaginário goumertizador. “Eu sei avaliar um bom cozinheiro, acreditem.” A provação. “Comigo não tem papo furado, aqui você vai aprender como funciona”. As condições serão duras, o papo reto, sem frescura. O mistério não revelado consiste precisamente na passagem do primeiro enunciado para o terceiro: como chegar a um resultado delicado sem papo furado ou frescura? O segredo está no segundo enunciado, a avaliação, o Saber dos Jurados, cuja chave não se apresenta. Como demarcamos anteriormente, devemos aceitar a ordem simbólica já estabelecida pelo Grande Outro. Para “nascer” ou transcender no Masterchef é necessário à aceitação dessa ordem cujo sentido é a própria figura cifrada dos Jurados. Esse não-dito (perfeitamente representado pelas feições enigmáticas da chef Paola Carosella) é o que faz o trabalho funcionar.

Tempo esgotado , competidores.

A ausência do roteiro e a espontaneidade dos participantes é que deixa caminho livre para a coerção dos jurados, e o afloramento de todo o jogo de significantes acima apresentados. Esse é o trunfo cínico do programa, não há outro jeito senão aceitar, estar de acordo. Inescapavelmente, sem expectativas, chegamos ao fim. As regras já estão ali, apresentadas pelos jurados, que as encarnam sem enunciar. E se você não conseguir chegar até o fim, parceiro, é por que não seguiu a receita.

Para se chegar ao topo é preciso acertar e aceitar a receita desse recauchutado sistema de significantes. Afinal, todos ali veem no programa a única possibilidade de obter o gozo, a grande chance de mudar de vida. E, para isso “o mais importante de tudo é aprender estar de acordo” (BRECHT).

***

Deixa no púlpito o seu prato, e afasta-se devagar ao deixa-lo. Nisso, se aproxima o Chef, olhando desconfiado se o competidor chegou ao objetivo posto na prova.

Fernado, entregue seu prato.

Sim, chef.

Hum. Deixa ver o tempero, apresentação do seu prato. Tem que estar de acordo. De acordo?

Sim, chef. Estou de acordo.

#tv #realityshow

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