• Camila Dias

Ouço enquanto leio: do baixo-augusta à matinê do Sesc


“Com um punhado de giros nos pedais, a velocidade cresce tanto que a trepidação das rodas contra as pedras da rua se torna quase insuportável. Mas o Ciclista conhece bem aquele trecho e sabe que precisa aguentar os pulsos firmes por mais alguns instantes até que, numa manobra angulosa para a esquerda que pareceria loucura a um ciclista comum, ele salta sobre o canteiro central da rua do Canteiro aproveitando um ponto rebaixado do meio-fio, cruza a pista oposta, sobe na calçada em trajetória diagonal por uma rampa de garagem e maneja com destreza o guidom da bicicleta para fazer uma rápida correção da roda para a direita, bem a tempo de evitar o choque frontal com um muro de cimento sem reboco cuja superfície parece bastante aderente a pedaços de pele e carne humana.”

A descrição do Ciclista Urbano é um trecho do primeiro capítulo de "Mãos de cavalo" de Daniel Galera, que pedi em um amigo secreto e devorei em poucos dias.

Neste curto romance, Galera narra três fases na vida do protagonista, quando criança, adolescente e depois adulto. Mas nenhum trecho foi tão marcante quanto esse primeiro capítulo em que ele descreve a grande aventura de pilotar pelas ruas de Porto Alegre.

Freud deve explicar meu encanto, uma vez que não sei andar de bicicleta (e nem escrever romances tão bons), mas um fato marcante durante toda a leitura foi a lembrança de uma música que marcava o ritmo do fluxo literário como trilha sonora da cena: "Magrela Fever", de Curumim.

Na minha mente, cena um do filme: o personagem do Galera, um guri na década de 80, "de camisa amarelinha, com a magrelinha invocada..." pilotando sua bike ao ritmo marcado pela bateria do instrumentista e cantor "com a cabeça fria e o pé quente".

Li este romance em 2010, quando voltava aos escritores contemporâneos (depois de anos encerrada nos clássicos, mas principalmente nas críticas dos clássicos que a universidade obriga) e vivia o (que para mim era) auge do Studio SP, cena da música também contemporânea. Tulipa Ruiz, Anelis Assumpção, Emicida, Criolo, e muitos outros tocavam músicas e público com suas performances no palco que marcaram o Baixo Augusta.

Era muito comum quando conversávamos sobre os planos do final de semana alguém perguntar “O que vai ter no Studio SP?” e decidirmos que esse era o destino certo. Shows de músicos como Metá Metá e Vanguart, além de projetos já extintos como o Três na Massa (de Pupilo, Dengue e Rica Amabis) que convidava cantoras e atrizes para dar voz a suas interpretações e o original Trash Pour 4 e as experimentações de seus integrantes (Natalia Mallo, Maria Portugal, Gustavo Ruiz e Dudu Tsuda) que seguem presentes em excelentes projetos musicais da atualidade.

Em uma dessas (célebres) noites, assisti a performance de Japan Pop Show de Curumin. Uma mistura de japonês com espanhol que deu em um brasileiro encantado por batuques, percussões, caixas, baquetas e afins, o artista, que já havia acompanhado Arnaldo Antunes e Céu em seus trabalhos solos, mostrava toda sua bagagem de funk, hip hop, samba e dub (meu querido dub!) em um disco dançante e, nem por isso, descompromissado.

Em faixas como “Kyoto”, uma lembrança do tratado ambiental afirmado dez anos antes, “Caixa preta”, um funk sobre crimes do colarinho branco, e “Mal Estar Card”, que denuncia a desigualdade social, o artista paulistano colocava a boca no trombone e a gente pra dançar e cantar repetindo “tamo aí na resistência; mantendo a procedência; confundindo o sistema; modulando as frequências”.

Em outras, faz referências à própria música, em metalinguagem direcionada a essa paixão: “Mistério Stereo” brinca com termos como dissonante, harmonia e melodia em uma possível declaração amorosa; “Compacto”, por sua vez, é o escancaramento do amor aos vinis e antigos compactos de 45 rotações, extremamente raros no Brasil, e conta com uso de samplers imitando anúncios em uma rádio.

O amor aos vinis, aliás, fica claro desde o princípio, ao som de uma agulha de vitrola que antecede os primeiros acordes e sons da faixa um do disco.

Portanto, nada mais justo do que “Japan Pop Show” ser lançado também em bolacha. O show em comemoração a este fato acontece essa semana, 6a feira dia 18 de setembro, no Sesc Pompéia. Curumim irá se apresentar ao lado dos parceiros de vida e som Lucas Martins e Zé Nigro.

Nós, plateia, já estamos cinco anos mais velhos e trocaremos a madrugada do Baixo Augusta pelo horário quase-matinê do Sesc. Mas tenho certeza que a explosão nas letras e na bateria fará desta mais uma noite memorável.

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Camila Dias é adepta do movimento "bailarina sem fronteiras" nas pistas de dança e sabe tocar duas músicas de cor na escaleta. É integrante da @bandaliterária e escreve no @jazmim_escritos

#musicapornaomusicos #CamilaDias

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