• Vinicius Pastorelli

Plata y Plomo - "Narcos", Muito Além do Espanhol de Moura


I

Orgulho nacional nunca foi mesmo um bom ponto de partida para avaliar coisa alguma. Todos os que têm ouvidos e moram em algum lugar do Oiapoque ao Chuí sabem bem disso. Ainda assim, dando uma olhada nos comentários virtuais sobre "Narcos" parece que foi esse o principal ingrediente responsável por transformar a estreia de uma série numa verdadeira comoção.

Quem ama o seu, teme também pelo alheio. Portanto, pode ter sido isso ou então, quem sabe, foi algum zelo documental que fez com que, antes mesmo de sabermos do que se tratava, as piadas diante do imperfeito sotaque espanhol de Wagner Moura tomassem a frente do próprio interesse pelo programa.

Aliás, Wagner Moura, pra quem não sabe – e depois de atravessar o burburinho todos já sabem –, além de ser nosso infelizmente eternizado Capitão Nascimento, é o protagonista dessa biografia de Pablo Escobar dirigida por José Padilha ("Tropa de elite I e II" e remake de "Robocop"), filmada por uma parceria americana entre a Net Flix e a Gaumont Internation Television. Uma produção transnacional que reconstrói o caso nas locações originais, envolvendo também um elenco numeroso advindo em grande parte do México, da Costa Rica, dos EUA e da própria Colômbia.

Enfim, essas questões de recepção são sempre um mistério. Pelo sim e pelo não, prefiro a versão do Sensacionalista, que talvez tenha acertado nalgum esnobismo de free shop quando soltou: "Muitos dos que criticam o sotaque espanhol de Wagner Moura pedem cueca-cuela em viagens".

:-)

II

Mas agora falando sério. Tem um milhão de coisas mais importantes pra se criticar nessa série do que o sotaque dos atores. Sem querer dar uma de porta-voz da educação moral e cívica, não faria mal lembrar que, vendida num aplicativo por assinatura, ela burla a censura etária, de costume aplicada à TV sem o crivo pessoal, e com isso consegue ser extraordinariamente violenta em vários níveis.

Em primeiro lugar é uma série violenta porque Padilha, tomando parte noutro ramo do tráfico de entorpecentes, exportou para Medellín todas as cenas de tortura que filmou em sua sequência sobre o BOPE. Não falta nenhuma, do revólver cutucando corpos (desta vez duplamente pornográfico) ao infame saco plástico. Isso é bastante sinistro. Afinal de contas, pensando em conjunto "Cidade de Deus" com essa repetição sequer disfarçada, a gente começa a notar que um qualificativo brasileiro para a rota cinematográfica internacional pode ser a capacidade de transformar em diversão técnicas de tortura que matam centenas de pessoas nas periferias do mundo inteiro, todos os dias, em aberta violação dos direitos humanos.

Segunda razão. Em pleno clima de avanço da causa antiproibicionista – mesmo que entravado por formas questionáveis de regularização –, ela estabelece como narrador nada mais nada menos que a figura elegível favorita dos últimos tempos, decididamente avessa a tal direção: um agente americano do DEA que vai de policial perseguidor de hippies na Flórida a coordenador de um programa de eliminação de cartéis na Colômbia.

Lógico que, tanto aqui quanto na Rocinha cinematográfica às vésperas da instalação das UPPs, a curva dramática se estabelece segundo a ideia de que, para combater um mal maior, é aceitável deixar cadáveres pelo caminho. A desconstrução da humanidade do policial, já discernível na retrospectiva narração em off, é o processo com o qual a gente deve se identificar, mesmo que não meta a mão na massa.

Mais que isso, o interessante a se notar é que esse narrador – policial de baixa patente enviado à Colômbia por uma decisão burocrática alheia à sua vontade - reproduz em seu discurso, na verdade, não uma perspectiva externa, intervencionista. E sim uma espécie de imperialismo pobre, inicialmente exógeno, gradualmente aclimatado, sempre perfeito para que o espectador se veja involuntariamente preso no terceiromundismo de que gostaria de escapar (ou com o qual preferiria se envolver só nesses 50 minutos de diversão apimentada).

É inconfundível nesse sentido o enfado com que a voz em off sempre diz, seja para contrariedades burocráticas, seja para banhos de sangue: "Na Colômbia é assim que as coisas terminam...".

Por outro lado, a progressão dramática constrói um engajamento crescente do policial hesitante com o lugar detestado. Um engajamento marcado, não pela compreensão ou a intervenção social, como seria o caso da igreja cheia de vermelhos e gringos idealistas, e sim animado pelo desejo de eliminar distorções com rajadas de metralhadora.

Os dois efeitos são combinados e intensificados porque se trata de uma série: os preenchimentos cotidianos da ação, exclusividade do gênero (o café no corredor, o passeio com a esposa, o tempo perdido no elevador) tornam sensível a perspectiva do policial trabalhador. Inversamente, o fato de a série envolver uma trama internacional recuada no tempo, citada por colagem, faz ver o tamanho da engrenagem que o maltratado herói tem de levar às costas.

E assim se justifica a decisão, tomada fracasso após fracasso, como bem sabe qualquer trainée.

III

Há outras questões que também chamam atenção. Filmada como uma ficção que se mistura com cenas documentais, “Narcos” reconstrói a história de Pablo Escobar em detalhe, recuperando, para tanto, o pano de fundo geopolítico do momento. Um dos pontos principais dessa reconstrução, desdobrado no plano geral e no específico, é o argumento de que a esquerda na América Latina colaborou com o narcotráfico, o que resulta numa visão bem redutora de seu papel.

Ninguém está dizendo que isso não é verdade. Mas um tratamento decente da questão implicaria mostrar o caminho que forçou a essas alianças. Por exemplo: o fechamento dos horizontes parlamentares (quando havia) trancados pelas direitas; o intervencionismo americano que agia bem antes dos golpes de Estado providenciados; a falta de apoio de uma URSS caindo aos pedaços; a dissonância entre uma diretriz de organização urbana da esquerda e países pouco mais do que agrários; variadas formas de enraizamento em contextos variados; falta de recursos. Como se a razão mercantil fosse sempre a primeira, disso tudo a única coisa que sobra, e é perfidamente explorada (ainda mais pensando em projetos de leis antiterroristas escritos praticamente contra movimentos estudantis em nome de vidraças), é uma retórica desmiolada, nacionalista, facilmente adaptável a propósitos criminosos sem mais.

Claro que a série é sutil o suficiente para criar um contraponto entre o material documentado e a elaboração dramática do assunto. No entanto, com isso o ponto de vista apenas se torna manifesto.

A quadrilha de desguarnecidos universitários perdida na floresta (a célula marxista M-19) é facilmente manipulada pelo paisá colombiano, muito mais bem enraizado no povo sequestrado que qualquer classe média intelectualizada pé nas nuvens. Mas se o espectador não gostar da interpretação, pode notar – em imagens de época interrompidas por pronunciamentos oficiais – que, a bem da verdade, foi a política mais burocrática que ideológica de Reagan quem tachou terrorismo a estratégia da Nicarágua em se oferecer como rota de passagem da cocaína para os EUA.

Analogamente, o que restou da Contracultura, homenageada como simples moda nos figurinos dos flashbacks dos primeiros capítulos, toma forma em Carlos Neher, segundo a voz em off, porra louca endinheirado, filho de alemães e colombianos, simultaneamente fã de John Lennon e de Hitler (go figure!), que mais à frente se tornará um dos operadores do Cartel de Medellín.

Outros exemplos estão espalhados aqui e ali, mas a lógica é sempre a mesma. Generalizado por enquadramento numa visão comandada pela voz do explorado que trabalha para a repressão, o retrato de toda e qualquer ação política é desolador, inclusive os acordos e investidas de um presidencialismo encurralado entre o Estado de Sítio e a negociação com o crime. Mas não num sentido que permita enxergar, de fato, os conflitos em causa. Sobretudo as forças que investiam contra a solução do tráfico em nome da popular.

Roubando um pouco de um procedimento inventado para imaginar alternativas ao desfecho frustrante da história, a técnica narrativa se aperfeiçoa para a geral. Mas como o ponto de vista é monoliticamente decidido e a pesquisa intencionalmente superficial e dirigida, dá no mesmo.

IV

Outro problema bem sério é o retrato da justificativa demagógica de Pablo Escobar quando ele tenta entrar na política. A série se desenrola na passagem dos anos 70 aos 90. Dito de outra maneira, a carga de conformismo que alimenta sua artilharia é equivalente ao abismo de desesperanças políticas que foi cavado entre o imediato pós-guerra e o neodesenvolvimentismo.

Há, portanto, boas razões pra que um escopo de ações que foi do reformismo parlamentar à ação armada, tenha sido derrotado e soe hoje desvirtuado. Mas não segundo o que assistimos em “Narcos”. Como se todo comício na América Latina fosse balela, é como farsa evidente que o candidato Pablo Escobar, em mangas de camisa, em frente a bandeiras que lembram as de qualquer movimento autônomo atual, incita diante das câmeras compradas com dinheiro sujo e outros favores a população contra os oligarcas, promovendo-se assim como homem do povo entre homens do povo. Sendo que a causa da autodeterminação dos povos, sob um projeto comum latino-americano, foi sim uma bandeira emancipatória.

Não bastasse isso, a cena gera significados hoje. Ou seja, quer ser interpretada num momento que não é o dos anos 80. Mas sim uma fase em que se fecha, com muitas tensões e perseguições, um ciclo em que lideranças populares, eleitas legitimamente no Brasil, no Uruguai e na Bolívia, num contexto de crise político-econômica dos países centrais, tentaram redirecionar o desenvolvimento da América Latina tentando conciliar os interesses da especulação financeira com os da inclusão social (o que não coincide nem com desenvolvimento nacional, nem com autonomia popular, como já está claro).

Lunáticos de canarinho no peito e congêneres mundo afora não levarão dois segundos para fazer a ponte com as provadas e fabricadas alegações que estão enterrando nosso curto, insuficiente - e de fato vendido, mas não como se diz - lampejo socialdemocrata.

V

Quando vemos gente comemorando uma superprodução americana com participação brasileira deveríamos ficar orgulhosos porque, mais no âmbito da circulação que no da teoria, nosso cinema rompeu seu suposto isolamento provinciano, condição de que atavismos e conservadorismos vários fazem parte, certo?

Bom, não tenho tanta certeza. Especialmente levando em conta que a direção oposta ainda parece ser mais criticamente produtiva e que a inversão do tráfico legítimo não deixa de pagar o preço que estamos vendo.

Pra voar baixo e com alcance proporcional: Oliver Stone, pensando em parte nos absurdos gerados pelo culto à celebridade, em parte também chegado numa pancadaria, filmou "Assassinos por natureza". Mas quando deu um pulinho no mesmo país que serve de cenário para essa história 20 anos depois – porque só agora?, a gente se pergunta – estava interessado em entender o que a CNN não mostrava. Das razões que impedem que "Narcos" seja comprada pelo nosso império televisivo (o sacro e o laico), só consigo pensar no excesso de violência exposta em nome de providências, essas realmente violentas, que ele costuma apoiar e recomendar diariamente.

Ainda vai passar depois da faixa nobre. Lamentavelmente com algum atraso programático...

#crítica #cultura #tv

41 views