• Camila Dias

Uma Geração de Hermanos


Eu quase sempre gosto mais das bandas ao vivo. A que ponto? Ao de esperar o lançamento do disco no palco e, só depois, me dedicar àquele produto redondinho no conforto de casa. Nada como ouvir aos acordes ali na sua frente, prestar atenção na alteração (ou não) da ordem das músicas e sentir a emoção dos envolvidos ao, finalmente, tocar ao vivo o que foi levado à exaustão no estúdio.

Parte disso pode se dever ao fato de amar brincar de "qual é a rima?", e sou muito boa nisso. A brincadeira consiste em você ir cantando junto sem saber a letra e prever a próxima frase do vocalista. Todos sabem meu talento natural pra coisa, acerto mais de 70% das vezes e me divirto 100%.

Mas essa preferência também foi criada por um vínculo afetivo: foi dessa forma, ao vivo, que conheci e me apeguei a uma das minhas bandas favoritas!

A essa altura vocês já estão pensando se continuam ou param a coluna, "lá vem mais uma fã do Los Hermanos". Mas prometo fazer um relato da experiência de conhecer o "Ventura" ao invés de ficar tagarelando sobre como eles são incríveis - há muito descobri que Los Hermanos é uma questão de amor ou ódio tão forte que pode te custar amigos no facebook quase tanto quanto as eleições.

Obviamente, eu havia ouvido Los Hermanos antes de vê-los ao vivo. No começo dos anos 2000 eu era estudante de Letras, a maior parte dos meus amigos usava calça xadrez e carregávamos a melancolia de uma geração que (ainda!) mantinha as bandas dos anos 80 como seus ídolos de rock. Éramos carentes e todos fãs em potencial.

Nem por isso eu tinha dado qualquer importância àqueles barbudos quando algum amigo colocou o primeiro disco e pediu para que eu prestasse atenção nas letras, nem quando eles lançaram o segundo álbum, de nome tão comprido que me inspirava preguiça.

Foi quando, em uma tarde, cheguei à Fnac Paulista para um café com um amigo, vi uma fila de adolescentes e jovens e descobri que o Los Hermanos faria um pocket show de seu novo disco, "Ventura". O amigo furou, eu fiquei para o show e lá foi meu queixo ao chão quando ouvi aquelas músicas ao vivo. Até hoje não sei o que foi, mas provavelmente um misto das histórias retratadas nas letras, do coro de pessoas que cantavam como se tudo aquilo tivesse acontecido com elas, pessoalmente, com aquela sonoridade, para mim, nova.

Levei o disco, ouvi nada menos do que cinco vezes seguidas inteiro quando cheguei em casa e parti para outro show, dessa vez completo, na mesma semana.

Para um disco de uma banda de rock, "Ventura" abre com um "Samba a dois", como a dois serão as composições do disco que alterna músicas de Camelo e Amarante, que ganham unidade na produção primorosa de Kassin.

A emblemática "O vencedor" propõe a reconstrução do sentido de herói como aquele que encara o mundo não pelo viés da invencibilidade, mas sim da vivência da dor e do fracasso. O "não" deve ser encarado como aquilo que te mostra "o que te sobra além das coisas casuais", como vemos em "Tá bom", faixa 3. Nem por isso há menos dor e, pelo contrário, a agonia e o cansaço tomam conta de uma vida que se perdeu, como em "O pouco que sobrou", faixa 10 do disco.

Esse antiherói parece tomar uma forma mais robusta em "Cara estranho", hino nos shows em que os fãs entoam não só a letra mas também o solo de guitarra em vocalizes uníssonos.

Mas nem só dessa temática vivem as composições de Camelo, que ainda trazem o sofrimento feminino e masculino no amor, respectivamente em "A outra" e "Do lado de dentro".

Amarante apresenta "O último romance" como sua primeira canção do disco, reconstuindo o clichê da paixão em cenas cotidianas bem pinceladas.

A primorosa "Do sétimo andar", em seguida, constitui uma das músicas mais reflexivas da banda com uma melodia que remonta, de um lado, a monotonia da espera sofrida pelo eu-lírico, e de outro sua agonia, na entrada da bateria mais pesada e dos metais.

Em "O velho e o moço" e "Um par", Amarante traz crônicas, a última de duas vozes sobre a juventude no que aparenta ser uma conversa entre pai e filho, assim como Camelo apresenta a sua sobre a família na canção seguinte, "Além do que se vê". Nesta faixa, Los Hermanos atesta a importância dos metais sem os quais a banda que se constituiu desde "O bloco do eu sozinho" não existiria como conhecemos.

O disco ainda traz as divertidas e descompromissadas "Deixa o verão" e "Conversas de bolas batidas" e fecha com "De onde vem a calma", que o público do show sempre protagoniza a capela durante as execuções do quarteto e seu time que inclui o baixista-quinto-hermano-Gabu.

Depois de "Ventura", foram tantos shows que perdi a conta (a banda que mais vi ao vivo) até seu intervalo em 2007, um show revival (decepcionante!) no Tim Festival, uma outra reunião (maravilhosa!) na noite do nascimento do meu segundo sobrinho em junho de 2012 (que me faz acreditar que os cabelos enrolados do Heitor tem a ver com continuarmos com o legado despojado dessa geração) e novos shows em breve no Rio e em São Paulo mês que vem.

Nesses shows e ao som dessas músicas começamos rolinhos, terminamos namoros, recebemos declarações de amor (quando os nostálgicos ainda se davam ao trabalho de uma mix tape!), choramos a perda de pessoas queridas, vivemos as paixonites livres de amigo-pega-amigo, jogamos confetes (literalmente) para que o Carnaval não tivesse fim.

Mas, acima de tudo, constituímos memórias de vida e musicais que nos acompanham até hoje. E me fazem procurar esse furor em cada show assistido e me entregar a cada um quase tanto quanto esses músicos se entregam, lançando uma parte de quem são, bem ali, no palco.

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Camila Dias é adepta do movimento "bailarinas sem fronteiras" nas festas, é capaz de tocar duas músicas (decoradas) na escaleta, escreve nos instagrams @jazmim_escritos e @bandaliteraria e vai dar palpites por aqui por algumas semanas

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