• Cel Bentin

Sangria, de Ana Karina Bucciareli


Buscando reforçar o compromisso do Chic Pop com a produção literária atual, a partir de hoje estaremos firmando uma parceria com a Editora Patuá (entre outras), um dos projetos editoriais mais interessantes da atualidade, focada sobretudo na publicação de escritores estreantes. A recém fundada editora, do editor-guerreiro Eduardo Lacerda, conta com diversos jovens talentos em seu catálogo, e já acumula inúmeros prêmios importantes. O Chic Pop irá abrir um canal de diálogo com os escritores da cena atual (da Patuá e outras editoras), publicando contos, crônicas e poemas, inéditos ou acessíveis apenas em material impresso, além de trazer, quando possível, informações sobre os autores e suas respectivas obras. Para isso, contaremos com a ajuda do parceiro Cel Bentin, poeta também publicado pela Patuá.

Essa parceria terá início com a publicação de Sangria, conto de Ana Karina Bucciareli presente em seu livro de estreia NOTAS MARGINAIS.

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SANGRIA

Existe prótese para uma alma amputada? Perguntava-se a mulher prendendo os cabelos na touca branca. Depois pendurou o crucifixo prateado no pescoço. Brincou de se enforcar em frente ao espelho, deixando pender a cabeça para o lado esquerdo, com a língua para fora, pingando um resto de saliva que se esquecera de engolir, desacostumada que estava de engolir tantas outras coisas.

Deixou o banheiro do metrô, e imediatamente o mundo passou a responder-lhe com os olhos doces que se dirigem às freiras. Tinha vontade de agradecer de joelhos, como as freiras fazem quando falam com Cristo, por cada um desses olhares que a redimiam de toda a sujeira que tivera de viver por ter nascido mulher. Depois de tantos anos usando hábito de vez em quando, para se limpar de um passado pungente que não se apagara, aumentou vertiginosamente suas doses de purificação. Todos os meses, quinzenas, semanas, e quanto mais se fantasiava de freira para recuperar uma castidade violada pela fé, mais descrente ficava em relação à sua própria cura.

Existe prótese para uma alma amputada? Perturbava-se com a pergunta sem resposta, que ressoava em sua mente. Quantas outras violações podem aqueles que detêm o poder praticar impunemente? Vingança? Perdão? Suas motivações vagavam num trem de condutor ausente. Olhares de redenção não salvam, não fecham feridas, só aumentam a saudade de uma vida que não foi, que não é, que não será. E ela só queria ser: grande.

Andou pela cidade com expressão serena e pacífica, metida no hábito de freira, para mascarar seus fantasmas, mas esqueceu-se de que o exorcismo caiu em desuso. Ninguém quer carregar o demônio alheio. Exorcismo foi o que ela pensou que o padre estivesse fazendo com ela, quando lhe montou feito amansador de cavalo xucro, naquele verão fresco de infância. Descobriu que ele não havia levado demônio nenhum embora, mas plantado nela muitos bichos que a carcomiam por dentro. O primeiro deles: a vergonha de abrigar uma mulher num corpo ainda de menina.

Os anos passavam. Os bichos dentro dela. E o hábito de usar um hábito não secava as feridas abertas. Só fazia sangrar mais. Na cidade, chovia.

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Ana Karina Bucciarelli nasceu em São Paulo, em 1977, e nessa babel cresceu e aprendeu a caminhar nas sendas labirínticas da cidade. Observadora por vocação, a autora trava a disputa de comunicar em meio ao ruído ensurdecedor da metrópole, onde ninguém passa ileso e as relações se modificam a todo instante.

CLIQUE AQUI e acesse a página da autora no site da editora Patuá, onde é possível adquirir o livro NOTAS MARGINAIS.

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