• Camila Dias

Tremendo, um disco


Do meu pai eu herdei essa mania de que a música esteja presente o tempo todo na vida. Minhas lembranças de infância, adolescência e até da fase adulta recuperam sua figura assobiando, cantarolando, encantado com a descoberta do Napster, feliz com as vitrolas que passavam vinis para CDs (até hoje, não entendo o porquê).

Eu me lembro de brincar quando pequena com uma coleção de CDs que ficavam em umas caixas empilhadas no cantinho da estante, naquela altura precisa que na ponta dos pés eu alcançava. Era uma coleção de discos da Jovem Guarda que meu pai, como 90% da sua geração, tinha como trilha da maior parte das histórias da juventude.

Eu sabia cantar Vanderléa, Jerry Adriani, Silvinha. Quando adolescente, me disseram que a Jovem Guarda era o iê iê iê que fazia os jovens dançarem ao invés de cantarem em protesto contra a ditadura, a parte dos jovens que fazia coro em "que onda, que festa de arromba" encobrindo o silêncio deixado por quem estava desaparecido, esse lado comercial da música de massa.

Como toda adolescente, me tornei radical e recusei aqueles refrões que eu ouvia em festas familiares e reclamava quando meu pai aumentava o rádio do carro se "Renato e seus blue caps" começava a tocar. Então vieram os 20 anos, os mais brilhantes da minha vida até então, em que eu mesma poderia ser a que protesta ao invés de ficar calada ao ver o sucateamento da universidade pública. Eis que um dos expoentes daquela geração da Jovem Guarda volta ao meu cenário, agora como as bibliografias que eu anotava na faculdade de Letras: Carlos, Erasmo.

Não sei dizer ao certo quando ouvi esse disco pela primeira vez, mas algumas daquelas músicas embalaram festas de arromba da USP e coloquei o tremendão na minha lista de rocks para ouvir. Sim, eu sei que esse disco entrou para a história como o Erasmo do soul, da MPB, com gravações de Caetano e Ben.

Mas eu defendo que o rock não é só como se diz, mas o que se diz - haja visto que para mim o Gonzaguinha é um rockeiro, mas isso fica para uma próxima coluna. E versos como "nós somos dois animais que se habitam" e "já são seis horas, meu bem; vire o relógio, meu amor; me dê um cigarro, meu bem; primeiro um beijo, meu amor" não são atitude rock and roll? E um disco que, em plena ditadura, tem títulos como "Gente aberta" e "Sodoma e Gomorra"? Em uma das três parcerias entre Erasmo e Roberto no disco, “É preciso dar um jeito meu amigo?” aparece como uma conversa em que os envolvidos não querem ficar calados e acomodados.

Em “Não te quero santa”, os parceiros constroem a imagem de uma mulher mais libertária pós anos 60. Em “26 anos de vida normal”, o ritmo muda ao passo que muda a visão de mundo desse jovem narrador; o que era normal, passa a ser banal.

Os advérbios de lugar preenchem uma letra curta que é o oposto da busca longa e incerta de "Em busca das canções perdidas número 2" Além dessas, mais 7 faixas fecham um disco que foi a estreia dele na Philips com arranjos primorosos de Chiquinho de Moraes, que trabalhou com Elis, Chico... Carlos, Erasmo está sempre tocando por aqui: durante uma festinha, nos fones para uma caminhada longa, quando preciso contar em listas meus gostos musicais para alguém.

Falta figurar na coleção de vinis porque virou peça rara (e cara!) de se encontrar (#ficaadica aos amigos para os próximos presentes). E fico imaginando meu pai em uma provocação "Ah, depois que saiu da USP voltou a gostar da Jovem Guarda, é?"

Pois é, pai, descobri que a vida é mais contraditória do que eu imaginava.

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Camila Dias é adepta do movimento "bailarina sem fronteiras" nas pistas de dança e sabe tocar duas músicas de cor na escaleta. É integrante da @bandaliterária e escreve no @jazmim_escritos

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