• Camila Dias

Je suis Phill Veras


Por alguns anos um dos meus melhores amigos foi morar no Rio.

O doutorado o levou para a cidade maravilhosa e me fez viajar para lá quase tanto quanto eu viajava até a zona leste para visitar minha família (alguns comentam que o motorista da 1001 já me conhecia pelo nome, mas desminto sempre). Nas semanas em que eu não estava em terras cariocas, o whatsapp vinha para suprir os papos diários. Um dia ele me enviou um áudio e disse "escuta essa, um cara do Maranhão".

Encontrei um lugar silencioso, aprontei os ouvidos pra algo dançante, meio reggae (pré-conceito 1) e mandei o "play". Fui surpreendida pela voz de um cara jovem que lentamente, em uma canção, começou a cantar as minhas sensações das últimas semanas. Era "Vício" do Phill Veras. E quem viciava era eu: ouvi a música umas cinco vezes seguidas.

No final daquele dia, eu fiz uma procura no Youtube e Phill tinha aquele ar de quem saiu da faculdade e foi beber uma com os amigos no Ibotirama, bar da rua Augusta (pré-conceito 2): óculos, cabelos enrolados e uma calça xadrez, ou seja, parecido com 90% das pessoas com quem eu convivia em São Paulo. Logo em "Dia dois" percebi que, para além da aparência, os dilemas também eram parecidos: contas pra pagar, a vida adulta que às vezes temos vontade de "deixar pra lá". Mas foi no vídeo de "Já vou tarde", com aquela trupe de amigos tocando e uma escaleta soando, que pensei que eu também já tinha desejado que tudo fosse "mais decente" e que eu havia me tornado fã. Além do Phill, naquele mesmo ano, esse amigo me apresentou uma nova amiga. Ele disse "você tem que conhecê-la, vocês são parecidas e diferentes na mesma proporção".

Meio ressabiada (pré-conceito 3) eu fui encontrá-la em uma festa e, em uma noite e um feriado no Rio juntas, já éramos amigas de infância. Foi pra ela que liguei assim que vi o anúncio do show do Phill em 2013 no Sesc Vila Mariana e éramos nós duas, provavelmente, as únicas pessoas com mais de 30 anos cantando todas as músicas na platéia (pré-conceito 4). E no palco aqueles garotos de 20 e poucos anos que se olhavam e se divertiam como que não acreditando que estavam ali, vivendo das suas músicas sem ter vivido metade das nossas histórias (pré-conceito 5).

Ao final do show nos olhamos e dissémos "temos fé na nova geração". No final daquele ano, Phill lançou "Gaveta". Gosto de pensar que as canções deste disco são como cartas guardadas: em "Se depender de mim" a confissão corajosa de que nem sempre é hora pro amor, ao mesmo tempo em que "Basta ter a coragem" conclama o outro a se render à paixão; em "Cambota" a descrição de uma noite festeira qualquer e em "Mulher" um eu-lírico feminino se confessando aos compassos lentos da canção.

Mas é em "Papo banal" que Phill diz ao que veio: "perco meu tempo fazendo música". Foi neste ano que, ao som dessas músicas, quebrei os pré-conceitos presentes nesse texto e meus preconceitos geracionais: confiei no talento desse menino e fui me apaixonando por suas canções, vi que fazer (melhores!) amigos após os 30 é totalmente possível, e até a uma paixão por uma pessoa 5 anos mais jovem do que eu me rendi.

E Phill estava lá, trilha sonora ao fundo nos mostrando que "um olho viu, e o outro descobriu, a poesia à toa" da vida.

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Camila Dias é adepta do movimento "bailarina sem fronteiras" nas pistas de dança e sabe tocar duas músicas de cor na escaleta. É integrante da @bandaliterária e escreve no @jazmim_escritos

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