• Camila Dias

Vale mais um samba na mão ou as calcinhas voando (ao palco)?


Eu já tive uma banda. Tá bom...confesso que ela durou um ensaio só. Mas o que vale da experiência é o que contamos dela. Na minha única banda, a Mustang Cor de Sangue, eu tocava meia-lua. Tá certo...confesso que não tínhamos uma meia-lua ainda, mas ela existiria caso tivesse havido um segundo ensaio. O caso é que, neste dia, fiquei incumbida de acompanhar e pensar no repertório junto com quem realmente estava tocando. Pouco antes do ensaio começar, fui acometida por uma alergia forte do gato que existia na casa. Naqueles tempos eu ainda não tinha sido curada pelo Chiquinho - gato de um dos editores deste site que, em uma viagem para Sorocaba, me curou dormindo em cima de mim por dias a fio, mas essa viagem vale uma coluna a parte. Voltando a minha alergia, ela me deixou com olhos completamente inchados, sem poder abrí-los. Melhor: eu era toda ouvidos para aquele ensaio. A banda queria tocar brega. Isso em meados dos anos 2000, quando o brega e o Pará nem eram cogitados nas festinhas hype, o que me faz pensar que teríamos sido um sucesso tão estrondoso que, ao invés de críticos neste site, estaríamos por aí tocando pelo Brasil até hoje (os sonhos não envelhecem). Naquele ensaio afirmamos o Wando como uma de nossas grandes inspirações! Pelos acordes desses amigos - dentre eles um que tocava desde os 6 anos, mas havia trocado o piano pelo Murilo Rubião, um outro que tocava violão para seu xavec

o ter um efeito maior nas meninas e um cabeludo que tinha a aparência de heavy metal, mas reverenciava o Belchior - passamos por todo repertóio mais rasga coração do Wando. Foi só quando eu voltei a enxergar depois daquele ensaio, que, ao pesquisar, encontrei seu disco homônimo, de 1975.

Pra minha surpresa, nosso mestre tinha estreiado como um sambista. Na primeira faixa, um canto a Obaluaê abençoa a regravação de Ary Barroso na faixa seguinte.

Em "Velho batuqueiro", parceria sua com Magro, ele afirma que um mineiro de black power pode ser sambista porque “é preto, é branco, todo mundo é igual, na guerra da folia, é paz no carnaval.” Mas é no lado B, no verso "em me viro do avesso só pra te abraçar" de Moça, que Wando mostra o que viria a ser o lado A de sua carreira: mágoas de amor, a Mulher e términos.

Alguns anos depois, em 2009, nosso ídolo tocou na Virada Cultural e lá estava eu na platéia. Afirmo sem medo de ser chamada de hype que foi um dos melhores shows da Virada que já vi! Não há sinceridade maior do que mulheres jogando calcinhas no palco! O Wando conseguiu, mesmo cansado, mais velho, ofegante, nos fazer cantar cada sucesso como se fosse a primeira vez. Mas nenhum deles daquele primeiro disco, exceto "Moça", um hino. Fiquei pensando se ele daria um de FHC respondendo "esqueçam tudo que já gravei" caso indagado sobre esse disco, mas gosto de pensar que, apesar de ter abandonado o black power, aquela alma de sambista persistiu na camisa aberta e correntes no peito, essa figura tão brasileira. ----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------Camila Dias é adepta do movimento "bailarina sem fronteiras" nas pistas de dança e sabe tocar duas músicas de cor na escaleta. É integrante da @bandaliterária e escreve no @jazmim_escritos

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