• Camila Dias

O feio mais sedutor (e rebelde) que já existiu


Há 5 anos viajei de férias para Boipeba e, ao escolher o roteiro, eu tinha exigências bem claras: um lugar onde o celular não pegasse, que a lagosta fosse tão comum quanto ovo frito e que o relógio não passasse de uma decoração na parede. Depois de cinco meios de transporte diferentes, cheguei a Moreré, o outro lado da ilha, onde eu poderia encontrar tudo isso e o chalé que havia alugado.

Fui recebida por Jacques, um suíço morador da ilha há mais de 25 anos. Até então, nada surpreendente, gringos dominam o Brasil desde antes das capitanias hereditárias. Quem ficou surpreso foi Jacques, quando no café da manhã do dia seguinte, impossibilitada de cantar por nunca ter passado do "je m'appelle Camila" nas aulas de Francês, eu acompanhava sussurando a melodia de "La javanaise" de Serge Gainsbourg.

O suíço despachado se aproximou e disse "você tem menos de 30 anos, é brasileira e conhece Serge?". Jacques fez questão de terminarmos o café da manhã em seu escritório, uma salinha de madeira, onde mostrou com orgulho toda a discografia vinda da França e com uma frase explicou quem era Serge para ele: "ele me ensinou a amar, amar todas". De fato é assim que Gainsbourg passou para a história: pegador de todas as (lindas!) atrizes francesas, aquele que canta "Je t'aime", trilha de quase todo motel, o sedutor.

Mas para mim a figura de Serge sempre teve mais a ver com rebeldia, um servir-se do sistema para mostrar que ele é falho. Em 1970, em uma França em que qualquer maneira de amor já valia a pena, Serge foi rebelde ao lançar "Cannabis", trilha incrível de um filme não tão incrível assim.

Em parceria com Jean-Claude Vannier, o disco tem a música-título no começo dos dois lados e ainda oferecida em um bis no final. Três versões para fazer qualquer viagem valer a pena e levar algumas donas de casa francesas (sim, elas existiam em meio a revolução!) apaixonadas por Gainsbourg admitirem gostar de cannabis.

O disco ainda oferece mais do que 13 faixas como misticismo: “Chanvre Indien” e “Arabique” trazem as influências de uma França meio indiana, meio árabe. Para mim, o auge ainda é “Danger”, faixa 4 do lado A. Ainda lembro da sensação boquiaberta por 2 minutos e meio de quando a ouvi pela primeira vez!

Hoje, escrevendo esse texto, lembrando do Jacques, me recordo de como ele decidiu parar de amar todas, como Serge o havia ensinado: apaixonado por uma nativa da ilha logo que chegou à Bahia, havia decidido não mais voltar à Suiça. Assim como Jane Birkin, que deixou a Inglaterra por Serge. E quando Jacques me perguntou: "e 'I want to feel crazy' (gravado por ambos Serge e Jane neste disco) é amor ou rebeldia?"

Eu finalmente entendi: para Serge não havia distinção.

----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------Camila Dias é adepta do movimento "bailarina sem fronteiras" nas pistas de dança e sabe tocar duas músicas de cor na escaleta. É integrante da @bandaliterária e escreve no @jazmim_escritos

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