• Nana Alves

Palavrão é foda


Os vizinhos estão dando uma festa e eu não consigo dormir com o barulho. Primeiro eu ponderei se iria reclamar ou não; depois, como reclamaria caso assim decidisse.

Elaborei dois planos de reclamação. Pelo plano A, eu pediria mil desculpas por interromper a confraternização deles e pediria cordialmente que cuidassem do volume. O plano B, vigente caso o A não surtisse efeito, era enfiar a cabeça pra fora da janela, metralhar xingamentos aos berros e ameaçar chamar a polícia. Botar todo o meu sono e minha frustração pra fora na forma de vários vocábulos considerados pouco elogiosos em alto e bom tom e pronto, dormiria mais tranquila.

A princípio, não gostei do plano B porque envolvia recorrer à polícia. Aí, pensei, poderia caprichar bastante no palavrão e deixar essa história de polícia pra lá. Então me ocorreu questionar se, dentre as opções lexicais, havia algum palavrão forte o suficiente que não fosse desnecessariamente machista, homofóbico, beato ou body-shaming.

Não achei nenhum.

O palavrão nasce do tabu. E o palavrão choca porque ele é um rompimento fulminante com a regra de não falar sobre certas coisas. Merda. Caralho. Viado. Puta. Retardado. Vai tomar no cu. Essas coisas todas existem, só não convêm a um discurso que se pretenda sério porque não há motivo para que essas coisas horríveis tenham lugar social, não é mesmo?

É simples: se você é puta, tem que se esconder; se você é viado, não dê pinta; se você é menina, a mamãe não vai te explicar o que é porra, piroca e pílula porque isso não é coisa de gente direita; se você tiver uma diarreia explosiva e se cagar na rua, você vai morrer de vergonha do seu próprio corpo (a menos que você não seja 'normal'); se você for ter um filho, todo mundo vai dizer que "o importante é que ele nasça com saúde” (porque ninguém nasce sem saúde, né? Mas se nasce, que vergonha...), etc, etc. O palavrão é a sombra da sociedade, o que ela rejeita, esconde, reprime e oprime. Puta que o pariu!

Eu imaginei a circunstância de xingar os vizinhos porque, caso eles não dessem a mínima para um pedido cordial, eu usaria o palavrão para sinalizar o fim da tentativa de acordo pacífico. E quando você fala um palavrão, você quebra automaticamente o contrato de civilidade, você chama pra briga, você ofende. Não é? Porque falar de minorias é ofender. O palavrão incomoda porque as coisas que ele nomeia incomodam. A maior vergonha do mundo é ser filho de uma puta. A palavra "vagabunda" significava uma mulher que vaga, mas quem disse que mulher pode andar livremente por aí? A lista não acaba.

Se engana quem depreende que o palavrão, portanto, é resistência: ele é reafirmação do preconceito. Isso porque a categoria "palavrão” tem o poder de perverter o sentido libertador que poderia haver em falar sobre essas coisas sem inibição. Desde que aprendemos a falar, somos ensinados que há coisas que podem existir e há coisas que não. Simples assim.

(Por isso que eu gosto cada vez mais do Rio de Janeiro. Palavrão não tem alavancagem aqui, faz parte do vocabulário normal. É longe do ideal, mas reflete uma certa aceitação, banaliza, é menos hipócrita. Sei lá, também.)

Meus vizinhos permanecem gritando. Não vou xingar, não vou chamar a polícia e também não vou dormir, ao que parece.

É foda.

#cultura #NanaAlves

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