• César Takemoto

Sobre o Frankenstein do dia 15 de março


Em primeiro lugar, gostaria de dizer que concordo com o fato de que devemos ouvir as diferentes vozes – em oposição, é claro, à Voz uníssona costurada pelo pequeno império midiático brasileiro – presentes na "manifestação" do domingo passado. Ouvi-las, contudo, não significa compreendê-las. Acho que o raciocínio de Zizek, mobilizado por ocasião de uma explicação de seu texto sobre o atentado contra o Charlie Hebdo, vem ao caso:

“Quanto à noção de que devemos contextualizar e ‘compreender’ as chacinas de Paris, ela pode também ser uma completa armadilha. Talvez um dos melhores exemplos de burrice mascarada de profunda sabedoria seja o ditado: ‘Um inimigo é alguém cuja história você ainda não conhece’. Não há exemplo melhor dessa tese que Frankenstein, de Mary Shelley. Shelley faz algo que um conservador jamais teria feito. Em uma parte central de seu livro, ela permite que o monstro fale por conta própria e nos conte a história a partir de sua perspectiva. Essa escolha de Shelley expressa, em seu nível mais radical, a atitude liberal diante da liberdade de expressão: o ponto de vista de todos deve ser ouvido. Em Frankenstein, o monstro não é um terrível objeto que ninguém ousa confrontar; ele está plenamente dotado de subjetividade. Shelley mergulha na sua mente e pergunta como é ser rotulado, definido, oprimido, excomungado, e ainda fisicamente distorcido pela sociedade. O supremo opressor pode assim se apresentar como supremo oprimido. O monstruoso assassino se revela como sendo um indivíduo profundamente machucado e em apuros, ansiando por companhia e amor…” (1)

Este o limite da tolerância liberal, que não funciona como antídoto contra a intolerância profunda demonstrada no "ato", nem como posição política em si mesma. Penso que o fenômeno que vimos – a nós também mediado por instâncias variáveis – alinha-se, contudo, por incrível que pareça, ao que ocorreu na França por ocasião do atentado contra o Charlie Hebdo:

“Há ainda um elemento dos recentes acontecimentos na França que parece ter passado desapercebido: além dos cartazes e das faixas dizendo ‘Je suis Charlie’ havia outras que diziam ‘Je suis Flic’ [Eu sou policial]. A grande unidade nacional celebrada e encenada em grandes mobilizações populares não era apenas a unidade das pessoas, atravessando grupos étnicos, classes sociais e religiões, mas também a unificação das pessoas às forças de controle e ordem.” (2)

Como o Patriot Act que se seguiu ao 11 de setembro americano, o fenômeno de domingo aproxima-se de uma grande celebração, feita em nome da Nação – devidamente uniformizada pelas camisas da CBF... –, no qual as pessoas se voluntariam para serem vigiadas, controladas, guiadas – além de assegurarem que os inimigos “daqueles que pagam impostos” sejam torturados e assassinados em outros lugares longe de seus olhos... Tudo em nome da liberdade, é claro.

Mas voltemos por um instante ao Frankenstein de Shelley. Pois é através dessa velha história literária que podemos talvez esboçar uma crítica radical ao PT – e não transformá-lo boçal e ideologicamente no bode expiatório de um ressentimento. Pois o que me parece ser o crime do PT, em especial a sua corrente majoritária ao redor de Lula, é haver negligenciado politicamente as consequências de suas ações governamentais Recorramos a um outro pequeno comentário sobre o romance de Shelley, desta vez por Bruno Latour:

“Como é sabido, [...] para Mary Shelley, o verdadeiro crime do Criador, Doutor Frankenstein, não é ter criado um horrível monstro. A verdadeira abominação, depois de ter dado vida a uma criatura inominada através de uma combinação de hubris e alta tecnologia, é ter abandonado a Criatura a si mesma. O verdadeiro pecado é revelado no romance pela Criatura quando esta encontra seu inventor. Isso se dá quando a Criatura assevera que não nasceu um monstro, mas que se tornou um criminoso depois de ter sido abandonado por um aterrorizado Dr. Frankenstein que fugiu de seu laboratório tendo visto o seu invento ter espasmos de vida. ‘Pai, pai, por que me esquecestes?’” (3)

Se é verdade que foi o lulismo o Dr. Frankenstein que criou esse monstro, abandonando-o ao que existe de pior na sociedade brasileira – um capitalismo predador, não civilizatório e sem fronteira (ao capitalismo puro e simples, portanto) – o que vimos no “ato” do dia 15 é a própria criatura que não se reconhece na figura paterna, como um filho que se recusa a reconhecer os pais que lhe abandonaram quando criança, identificando-se, contudo, a seus avós generais e a seus velhos novos capatazes. Ao xingar Dilma, Lula e o PT de “estúpidos e maldosos”, o que os “manifestantes” agridem são seus próprios pais e criadores, ainda que estes, muito tolerantes e permissivos, aparentem somente compreender a mágoa raivosa, adolescente e histérica de seus filhos.

O que esses coletivos expressaram em sua forma extrema, ao vivo e a cores, é o fenômeno que Eliane Brum chamou de “boçalidade do mal”:

“A sociedade brasileira, assim como outras, mas da sua forma particular, sempre foi atravessada pela violência. Fundada na eliminação do outro, primeiro dos povos indígenas, depois dos negros escravizados, sua base foi o esvaziamento do diferente como pessoa, e seus ecos continuam fortes. A internet trouxe um novo elemento a esse contexto. Quero entender como indivíduos se apropriaram de suas possibilidades para exercer seu ódio – e como essa experiência alterou nosso cotidiano para muito além da rede.

É difícil saber qual foi a primeira baixa. Mas talvez tenha sido a do pudor. Primeiro, porque cada um que passou a expressar em público ideias que até então eram confinadas dentro de casa ou mesmo dentro de si, descobriu, para seu júbilo, que havia vários outros que pensavam do mesmo jeito. Mesmo que esse pensamento fosse incitação ao crime, discriminação racial, homofobia, defesa do linchamento. Que chamar uma mulher de ‘vagabunda’ ou um negro de ‘macaco’, defender o ‘assassinato em massa de gays’, ‘exterminar esse bando de índios que só atrapalham’ ou ‘acabar com a raça desses nordestinos safados’ não só era possível, como rendia público e aplausos. Pensamentos que antes rastejavam pelas sombras passaram a ganhar o palco e a amealhar seguidores. E aqueles que antes não ousavam proclamar seu ódio cara a cara, sentiram-se fortalecidos ao descobrirem-se legião. Finalmente era possível ‘dizer tudo’. E dizer tudo passou a ser confundido com autenticidade e com liberdade.” (4)

Vemos claramente aqui não apenas os limites da democracia enquanto reino das opiniões (em oposição a processos de verdade política), mas os limites do próprio lulismo enquanto fomentador do capitalismo brasileiro. Pois essa boçalidade do mal é o outro lado da moeda da “banalidade do mal” (Arendt) subjacente ao processo de modernização em curso: seu emblema é a própria peemedebização do governo – que ali está, contudo, desde a abertura democrática dos anos 80. Para combater os fantasmas da ditadura que tiram o sono da esquerda, contudo, deveríamos talvez desacelerar e olhar humildemente numa outra direção, à procura de um outro povo, o verdadeiro negativo do que se viu nas telas da globo: um povo por vir. Em uma nota ao final de seu Há um mundo por vir?, Débora Danowski e Eduardo Viveiro de Castro delineiam esse povo:

“A esquerda tradicional, hoje aliada das ‘elites’ que nos governam, só consegue ver (sempre só conseguiu ver) no índio um tipo de ‘pobre’, um futuro membro da classe trabalhadora destinado à emancipação. Está mais do que na hora de figurar o ‘pobre’ a partir da posição estrutural do índio – afinal, matriz étnica e vastas porções do inconsciente cultural da população pobre do país são de origem dominantemente indígena e africana –, isto é, como alguém que não se trata de libertar, de melhorar, de transformar em uma versão ‘menos pobre’ de nós mesmos, mas de assistir, na acepção bitransitiva do verbo, a/à/em sua transformação autodeterminada em outra coisa que nós mesmos, em outro povo; o povo, enfim, que Darcy Ribeiro tão belamente sonhou como ‘o povo brasileiro’, povo por vir se jamais houve um que o fosse e adviesse.” (5)

Contra os aceleracionistas de direita e de esquerda, uma desaceleração popular.

Notas

1. Slavoj Zizek, “Eu sou estúpido e maldoso”. Disponível em: http://blogdaboitempo.com.br/2015/02/16/eu-sou-estupido-e-maldoso-zizek-esclarece-sua-posicao-sobre-o-je-suis-charlie/

2. Idem

3. Bruno Latour, "'It's development, stupid!' or: How to Modernize Modernization" em: Jim Proctor (org.), Postenvironmentalism. Massachussets: MIT Press, 2007.

4. Eliane Brum, "A boçalidade do mal". Disponível em: http://brasil.elpais.com/brasil/2015/03/02/opinion/1425304702_871738.html.

5. Débora Danowski e Eduardo Viveiros de Castro. Há mundo por vir? Desterro [Florianópolis]: Cultura e Barbárie/ Instituto Socioambiental, 2014, p.158.

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