• Acauam Oliveira

Dois poemas, por Fernanda Kalianny (com ilustração de Emília Santos).


(I)

Composição poética:

A minha buceta unindo-se a sua;

Seus seios grudados em meus dedos.

Compõem poeticamente:

Sua boca sugando os meus mamilos;

O seu cheiro nos meus lábios e queixo;

O gozo que escorre no canto da sua boca

E depois me reencontra

No cruzar de nossas línguas.

Poético:

O vai vem frenético dos nossos corpos

O movimento de suas mãos

Adentrando a minha existência.

Poético:

O gozo múltiplo misturado com suor

Escorrendo em nossas coxas.

As pernas que recusam a sustentar os corpos caídos em sinal de extrema fadiga.

Compõem poeticamente:

Os pelos pubianos que se entrecruzam

Narrando os caminhos que hão de ser traçados por nós.

Compus poeticamente:

Esses versos cansados, após afogar-me, desfalecer e viver de novo em sua boca.

(II)

O encanto morre sentado de cueca no sofá da sala.

Morre no cheiro de cigarro deixado na toalha pendurada.

Morre na insensibilidade, na incompreensão.

No passar dos dias.

O encanto morre na rotina.

No deixar de encarar o outro enquanto um ser que pode viver sozinho.

Morre no beijo não dado, no bom dia mal humorado.

Na não existência.

No não encarar-se no espelho.

O encanto morre quando tiramos a redoma de vidro.

Quando as cores se dissipam e o cinza aparece com força.

Tão forte, tão sem graça.

O encanto morre na miséria, na tristeza.

No soluço preso na garganta, no nó que não se desfaz.

Na incapacidade de perdoar os deslizes.

Na busca inexata por uma perfeição.

O encanto morre no não respeitar dos espaços.

Nas descobertas feitas sem querer, mas querendo.

Morre nas tragédias cotidianas.

No abraço que não é dado mais embaixo da chuva.

Nas mãos que não se dão mais.

Do carinho que se desfaz.

Morre quando as palavras que declaravam

O quanto aquele sexo era maravilhoso

Não são mais ditas.

Morre na frigidez dos dias quentes

Na dúvida sobre como serão os dias frios.

O encanto morre dentro de casa,

Morre fora.

E há de querer te matar também.

Mas é preciso estar atento:

Se há algo para morrer,

Que se mate logo.

Até que o encanto venha

Para, inevitavelmente, morrer de novo.

#convidado #literatura

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