• Acauam Oliveira

Por que existe música? Uma experiência jamaicana


por Steffen Stubager e Breno Longhi

Uma das melhores coisas da vida de professor é ser surpreendido com questões que nunca havíamos feito até então. Há alguns anos, estava dando uma aula sobre o papel social do funk carioca, quando um aluno do segundo colegial me perguntou: "Professor, por que existe música?"

Sem querer fugir muito do assunto da aula, fiz o possível para responder, dizendo que a música existe como forma de expressão intelectual e artística, como ritual religioso e de congregação social. Mas para ser sincero, eu nunca fiquei inteiramente satisfeito com a resposta e aquela pergunta não saiu mais da minha cabeça.

Há alguns dias, dois amigos – a Laysa e o Steffen – chegaram de uma viagem de férias à Jamaica. Curioso, pedi para que me contassem um pouco do que viveram e, sem que soubessem, me ajudaram a chegar um pouco mais perto de uma resposta.

O Steffen é jornalista, um desses caras que gosta de ouvir histórias. Ele me contou que estava caminhando com a Laysa por uma estradinha de cascalho quando viu se aproximar um homem acompanhado da esposa e do filho pequeno.

Com uma força impressionante para seus 61 anos de idade e um sorriso cortês, Hezethroy Wright apresentou Zethroy, de sete anos e a mulher, Nordia, de 26, grávida do segundo filho do casal. Quando Steffen puxou assunto, os três estavam na porta de casa no vilarejo rural de Accompong e convidaram os novos amigos para entrar.

© Steffen Stubager

Entre bananeiras, bambuzais e o que restava da mata nativa, Hezethroy contou que costumava plantar apenas cana de açúcar e bananas no local. Mas os preços nunca foram muito bons e, desde a chegada do filho, ele preferiu se arriscar, usando parte do terreno para plantar maconha, que ele mesmo colhe, prepara e vende em sacolas grandes para pessoas que levam o produto para a praia ou para cidades maiores. Embora a plantação seja ilegal, ele pretende expandir a produção de maconha nos meses que antecedem o nascimento do bebê.

Com o dinheiro extra, ele pode manter os filhos e a esposa com um pouco mais de conforto na casinha de um cômodo onde vivem.

© Steffen Stubager

Mas essa não é apenas a história do amor de um homem pela sua família e dos riscos que está disposto a correr para sustentá-la.

Steffen me contou que logo que entrou na casa percebeu que uma parte considerável do espaço era tomada por um grande aparelho de som, com várias caixas de som, double deck, cd player e um equalizador cuidadosamente regulado. É ali que Hezethroy se senta todos os dias para fazer o que mais gosta: ouvir música.

Gregory Isaacs, Jimmy Cliff, os Mighty Diamonds, Peter Tosh, Toots & The Maytals, Burning Spear, Dennis Brown e tantos outros que ajudaram a colocar a Jamaica – com seus míseros 2.900.000 habitantes distribuídos por menos de 11.000 quilômetros quadrados – no mapa da cultura internacional, influenciando uma geração de artistas de todos os continentes.

© Steffen Stubager

Não perguntei que música estavam ouvindo quando Steffen bateu a foto de Hezethroy concentrado ao lado de seu aparelho de som, mas gosto de imaginar que estivessem escutando One Love, do Bob Marley.

Let’s get together and fell all right;

As it was in the beggining (One love!);

So shall it be in the end (One heart!);

All right!

Hoje Bob Marley completaria 70 anos e, com a imagem da família de Hezethroy abraçada em frente ao aparelho de som, finalmente fico satisfeito com a resposta: É por isso que a música existe!

© Steffen Stubager

Ficou com vontade de viajar para a Jamaica e conhecer a família do Hezethroy pessoalmente? Eu também! Mas enquanto não rola, que tal um gostinho do que eles ouviram naquele dia? Aperte play e escute a MIXTAPE. :)

© Steffen Stubager

© Steffen Stubager

© Steffen Stubager

© Steffen Stubager

© Steffen Stubager

#música

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