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  • César Takemoto

A Psicanálise de Habermas e o Bolsonarismo


Se voltarmos a um erro fundamental da teoria habermasiana, talvez possamos vislumbrar algo de nosso erro político nesse momento. Na concepção desse herdeiro dos frankfurtianos, a psicanálise se diferencia das ciências empíricas no sentido de que ela teoriza a cisão sujeito/objeto de modo diferente. Os métodos quantitativos ou empíricos, a seu ver, visam descortinar e compreender a realidade a partir do ponto vista transcendental de um possível controle técnico. A psicanálise, por sua vez, se constituiria sobre uma promoção de uma relação significativa entre o analista e o seu objeto de estudo: o analisando que se torna um sujeito por meio de sua própria fala. Nessa concepção, as diversas psicopatologias serão vistas como alienações nas quais o sujeito está separado de sua subjetividade, ou seja, condições nas quais ele se vê como um objeto que perdeu a ligação com os seus significados (desejos e vontades), de modo a manifestar sintomas a serem lidados pelo processo analítico. “Símbolos autonomizados e motivos repelidos pelo eu voltam com força sobre as cabeças dos sujeitos”, escreve Habermas, “compelindo-o a gratificações e simbolizações substitutas”. A compreensão psicanalítica seria, portanto, não um processo que procura causalidades mecânicas, mas que busca na realidade restaurar uma identidade entre o sujeito e a sua própria subjetividade. Ele propõe: “a experiência da reflexão induzida pelo esclarecimento é precisamente o ato através do qual o sujeito liberta-se a si mesmo de um estado no qual ele tornou-se um objeto para si mesmo.” Nesse sentido, o ato interpretativo daria ao analisando a oportunidade de reconhecer significados perdidos ou escondidos, a chance de se reapropriar deles. Temos, consequentemente, um processo causal no qual a causa está localizada na reconstituição de resultados transformadores, e não na identificação de fatos psíquicos.

Tendo em vista o brilho e o vigor de tal proposta que parece poder conduzir a uma emancipação baseada na reconstituição de significados pessoais, é com algum receio que se deve reconhecer algo de errado nessa ideia de remontar uma – em certo sentido – coerência narrativa, que seria louvável principalmente se levada a cabo por aqueles que de alguma forma estão à margem dos discursos hegemônicos. Pois se poderia argumentar que, da mesma maneira que indivíduos se beneficiam, dentro do domínio terapêutico, da possibilidade de falar, de narrar suas histórias de modo a delas se reapropriar, também no âmbito político seria precisamente através de uma articulação coerente de narrativas subjugadas que grupos historicamente oprimidos se “empoderam” simbolicamente. As histórias do feminismo, dos direitos LGBTs, da consciência negra e da esquerda democrática trazem exemplos evidentes dessa construção no limite imaginária. Há algo nessa virada em direção à coerência narrativa que causa mal-estar, na medida em que se pode ver um padrão reconhecível em uma longa série de tentativas de redefinir identidades, tentativas que repetidamente resultam em versões mais fortes de si mesmas. A periferia ou o não hegemônico pode desse modo com muito propósito contestar o centro. No entanto, que mudanças de fato essa contestação promove? Quanto dessa contestação não se reduz a uma estratégia de recuo do próprio poder ao permitir e encorajar a confiança, o empoderamento e a dignidade em sujeitos que de outra maneira perderiam a esperança – componente aliás crucial para o bom estado da força de trabalho –, que teriam que se confrontar com o não sentido, com os sintomas de sua própria experiência? Ora, é justamente ao contestar essa estratégia que o bolsonarismo atinge o seu grau de verdade.

A devastação psíquica que a vitória de Bolsonaro nos causou tem muito a ver com essa contestação de certa coerência narrativa que construímos desde a redemocratização, coerência que em muitos sentido é análoga à estratégia da psicologia (de defesa) do ego, a inimiga da psicanálise (freudo-lacaniana). Essa narrativa é, do ponto de vista da metapsicologia, do âmbito do recalque. Mas o que é, propriamente, recalcado? As incertezas, as misérias e as compreensões parciais das identidades “democráticas”, constitucionais e populares, propriamente reprimidas para que uma narrativa de resistência à ditadura e enfrentamento das iniquidades fosse construída. E, em certo sentido, o bolsonarismo está nos ensinando, a duras penas, que de algum modo era uma fantasia que nos fazia acreditar que agíamos por todos, que tínhamos construído algo coeso e coerente nesse ínterim democrático (uma das imagens críticas dessa coerência já foi um dia o Ornitorrinco). Estamos aprendendo com espanto o quanto somos ainda ridiculamente humanistas, ao cobrar coerência e posicionamento das pessoas, quando a verdade é clara: que o sujeito nunca é inteiro; que ele é, não composto por, mas decomposto em pulsões parciais e atravessado por diferentes discursos que emolduram modos de experiência e de vida contraditórios e tensionados por lealdades de poder, tanto corporais quanto mentais. É doloroso, mas o bolsonarismo está nos ensinando que a nossa dignidade era uma ficção simbólico-imaginária, e que a nossa inconsistência, que nós vemos neles, é real.

É por isso, aliás, que a estratégia desse novo Napoleão colostomizado tem sido tão avassaladoramente eficaz. Ela conquistou vastos terrenos populares porque soube “pacificar” ou ordenar campos tensionados por sua própria ação incoerente, restaurando a ordem (obviamente imaginária, mas de qualquer modo pregnante) onde antes vigia a política do ego minoritário exposto em sua fragilidade, sensível a todos os ataques baixos da desinformação sistemática que se espalha pelo rizoma das redes sociais de celulares. Bolsonaro triunfará através da política de autodefesa espontânea dos egos (o eu, por definição, só sabe agir defensivamente), em favor, é claro, de sua própria ficção de um ego militar não falível e restaurador, propriamente mítico-reacionária. Nessas condições, a estratégia que se delineia é a da mudança de posição: deixar o lugar dos sujeitos obsessivos, compulsivamente tentando desfazer e concertar os desatinos que o Outro imputa a nós, verdadeiro espelho da obsessão anti-petista que se autonomizou (no limite atingindo o nível da pulsão) e foi claramente instrumentalizada; e assumir o lugar do analista (ou do objeto a), ou seja, tornarmo-nos impassíveis e mudos diante da fala livre e incoerente que acolheremos e analisaremos calmamente a partir de agora, ou seja, sem nos colocar a nós mesmos como ancoradouro externo, como o inimigo que legitima as ações das falanges. Deixemos que o sujeito bolsonarista se revele a ele mesmo em sua inconsistência e delírio. Que ele não nos use como justificativa e como meio para o que quer que seja.

#política #CésarTekemoto #bolsonaro

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