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  • Acauam Olivera

Ao vencedor as batatas


1. Bolsonaro não vai aos debates não porque não tenha ideias (ele não as tem, é verdade, mas não é esse o motivo). É porque ele se tornou a própria Ideia.

2. É verdade que não foi Bolsonaro quem inventou a violência contra as minorias. Mas ele representa sua legitimação institucional. É como nas torcidas organizadas: elas também não inventaram a violência no país, mas ao institucionaliza-la canalizam aquele desejo já existente de forma ainda mais radical, violenta e perversa que produz um duplo gozo, o de ser violento e de encontrar acolhimento entre os pares. Ser violento e ser visto como um babaca criminoso é muito diferente de ser violento, receber aplausos entusiasmados (o que já acontece) e ganhar medalha. Bolsonaro é essa medalha, o coroamento final.

3. O outrora popstar e agora fora de moda Zizek tem uma reflexão interessante sobre anti-semitismo, em um produtivo debate com Laclau e Lacan (O espectro da ideologia). Lá pelas tantas, Zizek vai argumentar o quão pouco produtiva é a estratégia de confrontar o anti-semita com argumentos "lógicos" e "racionais", explicando por exemplo que judeus não são demônios, não são malignos, não pretendem destruir o planeta, nem obrigar os meninos a usar roupas de menina, etc. Isso porque mesmo que o anti-semita tenha um vizinho judeu e saiba (não desconfie, mas SAIBA) que ele nunca fez nada daquilo que é atribuído aos judeus cotidianamente pela propaganda, o circuito da fantasia já tem a justificativa pronta: "se meu vizinho judeu não faz aquilo que eu sei que todos os judeus fazem, é porque ele é ainda pior do que os outros judeus, porque é dissimulado e falso, e nada mais judeu do que ser dissimulado e falso". Quando a ideologia "captura" de fato os sujeitos, os dados objetivos que a negam também passam a funcionar a seu favor. Não é que as pessoas não sejam capazes de raciocinar - o fato é que aquilo que estrutura a fantasia anti-semita não são (apenas) os dados objetivos. O verdadeiro suporte do anti-semitismo é a dimensão pré-ideológica (fora\dentro da linguagem) de fantasia que sustenta o nosso gozo. Por isso toda vez que você confrontar as fake news anti-petistas mais insanas e dementes com argumentos ligeiramente "racionais", eles serão lidos como mais uma estratégia de manipulação do PT. A fantasia ideológica "sabe" de seu vazio fundamental e incorpora sua própria ruptura. É por isso que as acusações anti-petistas são tão parecidas com aquilo que o bolsonarismo é: as imagens anti-petistas são também aquilo que o bolsonarismo, no fundo, mais deseja (alguém duvida que o desejo secreto de Bolsonaro é ser uma espécie de "Lula do mal")? O combate as fake news via "racionalidade" e desmentidos é importante (sobretudo quando a ideologia se fragilizar), mas é mais ou menos como "confrontar" o trauma de infância profundo de alguém com analgésicos para baixar a febre. A treta real é que os sujeitos são profundamente apegados a seus sintomas.

4. É hora de reler a Igreja do Diabo, do Machado de Assis. Nossa esperança tem de ser daquele tipo, negativa.Sempre vai haver o pecado, mesmo com o anticristo no poder. Aliás, é hora de reler Machado como um todo. Quincas Borba nunca esteve tão atual. Ao vencedor as batatas.

#política #MachadodeAssis #bolsonaro

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