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  • João Paulo Connolly

Wakanda: Nação Xenofóbica ou Aliança Anticolonial?


Um artigo recente sobre o filme do Pantera Negra, afirma que, entre outras coisas: “Wakanda era uma nação xenofóbica, isolacionista, guiada por um monarca elitista, cujo foco era manter seu próprio estado étnico. Dessa forma, T’Challa e o povo de Wakanda são vilões para o mundo dos pobres e daqueles empobrecidos que, como o Killmonger, eles abandonaram.”

Concordo em parte com a análise do artigo, porém, ofereço aqui a minha contrapartida. Enquanto me oponho ao isolacionismo, e penso que o filme também se opõe, Wakanda, por definição, não é um estado étnico. Wakanda é uma aliança de tribos que se uniram para proteger um segredo. E aí está a sacada: isso pode ser visto como uma espécie de história alternativa. Somos permitidos a imaginar que Wakanda é o único grande pedaço de terra habitável no Sul Global que conseguiu evitar uma invasão Européia predadora. Quais seriam as consequências de tal invasão? Nas “Veias Abertas da America Latina” Eduardo Galeano defendeu, como uma das suas principais teses, que os lugares mais ricos em recursos naturais na América Latina foram justamente os que se tornaram mais pobres e miseráveis. Como se tivessem sido amaldiçoados pelas suas próprias riquezas, ou seja, condenados ao pior tipo de colonialismo predador e extrativista. Enquanto todo o colonialismo nos deixa um legado maléfico, defendo que o legado do colonialismo extrativista é o mais amargo. Por onde passa, após um breve banquete opulento, deixa um rastro de destruição, sobram pessoas famintas em terras mortas, sem infraestrutura ou, ou com uma infra-estrutura direcionada a extração (portos e ferrovias para o litoral). Foi esse o caso de algumas das cidades mais ricas da América Latina, como Potosi, na Bolívia, ou Guanajuato no México, e certamente o modelo se aplica a grande parte da África. O anciões de Wakanda podem ser acusados de terem um visão limitada, mas guardaram seus recursos contra uma invasão que teria devastado completamente a terra. Não se trata do projeto de um estado étnico mas sim do projeto dos milhões de Índios que habitavam o suposto Mundo Novo, que foram abatidos por armas e doenças Européias. Não conhecendo as datas históricas de Wakanda, suponhamos que, após a chegada do meteoro, os recursos e a tecnologia do Vibrânio ainda não haviam sido desenvolvidos, e poderiam ter sido presas fáceis para invasores externos.

Somos então convidados a imaginar um canto da África que não fora colonizado. Dentro da fantasia, esta seria justamente a maior dádiva dos anciãos, e veio com um preço amargo—mas, se usarmos a história como referência, também fez com que o Pantera Negra fosse possível. Criou-se então um território dentro da qual alternativas tornam-se viáveis. O artigo menciona isso de forma passageira, quando diz “T'Challa e os Wakandenses são os heróis da narrativa, na medida em que nos permitiram sonhar com um mundo intocado pelo colonialismo." Penso que os autores do artigo não concederam a este fato o mérito que merece. No mundo contemporâneo, Wakanda não se tornou uma cidade mineira da Glencore Xtrata ou BHP, ou uma república bananeira da United Fruit, o beisebol não é um esporte nacional, e o FMI não pode exigir que condenem crianças a passarem fome apenas para cobrirem os juros de algum empréstimo absurdo - só por isso já vale a pena celebrar. Outra diferença importante entre Wakanda e todos os outros ditos estado étnicos, é que Wakanda nunca usou da guerra para tomar a riqueza dos outros, nunca purgou a sua própria população, nunca invadiu outras terras ou matou outros povos, e nunca manteve um projeto expansionista. Estavam simplesmente protegendo a sua casa. Muitos reis Africanos morreram tentando fazer isso. Posso não ser adepto dos reis, mas sou muito menos adepto da colonização. Ele destrói e reconfigura o mundo repetidas vezes. E quando finalmente parte, deixa elites crioulas, regendo como fantoches, ou então cria as condições para que ditaduras brutais tomem o poder. Poderia ter sido esse o destino de Wakanda. Seguindo a fantasia, podemos imaginar que Wakanda nunca desenvolveu uma ideologia nacional de Destino Manifesto, a ideologia que se encontra sempre numa relação circular com o genocídio: porque foi-me concedido a capacidade de te aniquilar, tomo isso como meu destino, e o destino, que revela-se na minha vitória, passa a ser sua própria justificativa. No século dezenove, esse discurso tomou a forma de um pseudo-darwinismo, mas já pode ser encontrado no modelo do “povo escolhido” do Antigo Testamento: o genocídio produz o Destino Manifesto, que passa a gerar o genocídio. Os Wakandenses não se fecham por medo do Outro, ou por medos culturais. E sim porque, (por mais que poderia se dizer que estão equivocados) eles enxergam como o seu dever proteger o seu tesouro único e valioso das garras de um mercado global que a tudo consome. De fato, é uma fantasia. Mas talvez Wakanda, ou pelo menos a sua liderança, seja acusada de não desenvolver uma visão panafricanista ou anticolonialista que se comprometeria com a liberação de todos os povos oprimidos. Porém, a visão panafricanista pode ser entendida como produto, ou resposta, ao colonialismo, assim como a própria visão de um continente Africano como idéia geopoliticamente unificada, ou de um Sul Global, ou dos movimentos indígenas que reúnem tribos do Alasca ao Uruguai. Os Wakandenses, que nunca passaram pelo barco fechado descrito por Édouard Glissant como “ventre abismo” (gouffre-matrice) que “gera o clamor do seus protestos” e “produz também toda a unanimidade que está por vir”, tampouco submetidos a experiência do exílio dentro das suas próprias terras — para usar outra frase do Glissant, “deportados por uma pilhagem imóvel”, não desenvolveram automaticamente um senso de responsabilidade pela liberação universal do povo negro. No caso de Wakanda, que nunca teve a sua tradição interrompida, que nunca se viu obrigada a formular uma identidade através do maniqueísmo colonial denunciado por Fanon, essa visão teria de ser gerada através de um choque interno com a cultura ancestral, que produziria então uma explosão de novas possibilidades. Falando em tais possibilidades, lembro de um trecho do “Discurso Sobre o Colonialismo”, do Aimé Césaire: “Mais uma vez, faço sistematicamente a apologia das nossas velhas civilizações negras: eram civilizações corteses. Então — dir-me-ão — o verdadeiro problema e retornar a elas. Não, repito. Nós não somos homens do "ou isto ou aquilo". Para nós, não se trata da utópica e estéril tentativa de reduplicação, mas de superação. Não se trata de uma sociedade morta que queremos fazer reviver. Deixamos isso aos que amam o exotismo. Nem tampouco a sociedade colonial atual que queremos prolongar, a carne mais imunda que já apodreceu debaixo do sol. É uma sociedade nova que precisamos criar, com a ajuda de todos os nossos irmãos escravos, rica com toda a potência produtiva moderna, cálida com toda a fraternidade antiga. ” Mas, por fim, boas intenções não são suficientes. Sabedoria, pensamento estratégico e conselho atencioso são necessários. Considerando isso, por mais linda que seja visão do N’jadaka, ela colide contra suas limitações, enquanto T'challa demonstra o que talvez seja a qualidade mais importante de um líder, a vontade de ouvir, aprender, e mudar.

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