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  • Breno Longhi

(Finalmente) Os Melhores Discos Gringos de 2017


Um amigo meu diz que quanto pior o ano, melhor o carnaval. Nesta lista, a gente vai estender essa teoria também para os discos: É verdade que 2017 foi um ano de merda, mas teve muito bom pra música.

E como o ano só começa mesmo depois do carnaval, a lista dos melhores discos gringos de 2017 só saiu agora. Tá, eu sei que isso é uma desculpa esfarrapada. Mas, a verdade é que dá muito trabalho montar uma lista dessas. Especialmente quando a gente tenta escapar dos poderes imperialistas do pop norte-americano.

Organizada sem uma ordem definida, esta lista compila alguns dos discos mais legais, inovadores e interessantes que eu tive a sorte de escutar em 2017. Aproveite pra viajar pelo mundo com esses sons e se você se lembrar de algum disco que não apareceu por aqui, não deixe de comentar.

Zara McFarlane - Arise (Reino Unido)


Londres é uma cosmópole muito louca. Eu gosto de pensar que é tipo uma cidade pós-apocalíptica estilão Blade Runner, com aquele monte de cartaz em chinês e os neons e os andróides, etc. Mas a verdade é que é uma cidade suburbana que se tornou um caldeirão de culturas, sabores, cores e ritmos. E nesse lugar, a cantora mais incrível é a Zara McFarlane, a voz da nova geração do jazz britânico, de boina vermelha e vestido militar. Arise é um disco político, que usa o jazz como arma musical contra o colonialismo.

Curiosamente, essa batalha cultural anti-imperialista só poderia acontecer na metrópole, que com o passar dos anos se converteu em um caldeirão de elementos caribenhos, africanos e orientais, conscientemente presentes nas composições dessa geração de músicos que são filhos e netos do império. McFarlane é descendente de jamaicanos e essa é uma influência central em seu disco, repleto de sons engajados e desconstruidões que representam perfeitamente as novas fronteiras do jazz e, com sua popularização, os caminhos da música popular ocidental.

Ouça o disco completo AQUI

Binker and Moses - Journey to the Mountain of Forever (Reino Unido)


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Filhos das margens do império e nascidos nas periferias de Londres, a nova geração do jazz inglês ouve tanto jazz clássico, quanto hiphop e música eletrônica. Esses caras estão produzindo loucamente, lançando discos praticamente todo mês e daria pra fazer uma lista enorme de nomes para acompanhar de perto (Sons of Kemet, Shabaka Hutchings, Kokoroko, Ezra Collective, Nubya Garcia, Sarathy Korwar, etc). Um dos caras mais inovadores e prolíficos dessa lista inesperada de grandes jazzistas é o baterista Moses Boyd, cuja relação com o HipHop é inegável. Trazendo para o jazz os ritmos sincopados e arrastados de caras como o saudoso J. Dilla, Boyd criou as bases rítmicas da cena londrina. Em Journey to the Mountain of Forever, Boyd é acompanhado pelo talentoso saxofonista Binker Golding em improvisações longas, típicas do spiritual jazz que inspira essa geração. A destreza técnica dos músicos é inegável, mas não vira aquela punhetagem sem fim que acometeu o jazz americano nas últimas décadas. Seco, o som da dupla tem uma coisa punk que há muito tempo não se via.

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Tony Allen - The Source (Nigéria)


Curiosamente, o cara mais velha guarda da lista é também um dos mais inventivos. Tony Allen é o baterista mais incrível em atividade hoje e, aos 77 anos, também é um dos mais prolíficos. Além de The Source, Allen lançou em em 2017 um EP lindo em que homenageia Art Blakey, o músico que inspirou Allen a assumir as baquetas quando trabalhava na rádio nigeriana ainda nos anos 1950. Refletindo sobre suas origens musicais e sua longa trajetória, com The Source Tony Allen chega a um ponto alto em sua carreira.

Ele nunca esteve tão afiado tecnicamente (nem mesmo nos tempos de Fela Kuti), e essa excelência técnica transborda no disco, seu segundo pela Blue Note Records, em que é acompanhado por uma Big Band de primeira linha. Ao mesclar esse jazz da antiga com os ritmos e sonoridades do afrobeat, Allen dá vida nova a um gênero que vinha se desgastando nos últimos anos. (Parece que toda cidade com mais de 500 habitantes precisava montar uma banda de afrobeat. Tipo aqueles intragáveis grupos de maracatu da década passada).

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Jay-Z - 4:44 (EUA)


O único rapper que entrou na lista é também o único americano. Em ano que houve lançamento do Kendrick Lamar, é fácil se perguntar por que é o Jay-Z que está entre os melhores. Para mim, o que torna esse disco um dos mais relevantes de 2017 é o fato de revelar um "coming of age" estilístico e filosófico dos movimentos identitários.

Em uma resposta ao fantástico Lemonade, da Beyoncé, 4:44 é um disco confessional e melancólico que traça um panorama íntimo de Jay-Z, ao mesmo tempo em que explicita o aburguesamento e a busca por estabilidade das novas elites negras (muito parecida, aliás, com a trajetória de artistas da Oumou Sangaré).

Esse processo se revela de forma muito clara em "The Story of O.J.", uma canção controversa que afirma que "Financial freedom my only hope / Fuck living rich and dying broke" (A liberdade econômica é minha única esperança / Foda-se isso de viver como rico e morrer duro). O disco se converte, assim, em uma espécie de manual meritocrático que assume que a forma de superação da condição racial é a ascensão social por meio do esforço individual e familiar, e da negação dos prazeres mundanos.

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Oumou Sangaré - Mogoya (Mali)


A fabulosa diva da música malesa volta com um disco dançante, que incorpora elementos psicodélicos e eletrônicos aos ritmos, melodias e instrumentos tradicionais da cultura wassoulou.

Você talvez ainda não conheça essa cantora excepcional, mas ela é tão famosa e importante no Mali que, além de embaixadora da ONU e ativista dos direitos das mulheres, é dona de hotéis e tem até sua própria linha de automóveis de luxo feitos na China para a nova burguesia do oeste africano.

As canções cheias de energia, guitarras elétricas, sintetizadores, ngoni e kora de Mogoya são o símbolo sonoro da burguesia urbana representada por Oumou Sangaré, global, moderna e ciosa das suas raízes: a cara da riqueza no topo de um arranha-céus em Bamako, vendo o pôr-do-sol ao longe e a correria do povo nas calçadas.

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Les Filles de Illighadad - Eghass Malan (Níger)


Sangue novo no blues do deserto, Les Filles de Illighadad são uma grata surpresa.

Nos últimos anos, o Níger tem trazido nomes impressionantes para o Rock 'n Roll, com especial destaque para Bombino (que gravou um disco maravilhoso ao lado do Dan Auberch, dos Black Keys) e para multi-artista Mdou Moctar. Em 2017 foi a vez das Les Filles de Illighadad, com Fatou Seidi Ghali na guitarra, Alamnou Akrouni no kalabash, Mariama Salah Assouan nos vocais e Ahmoudou Madassane também na guitarra. Em comparação com o disco anterior, que foi gravado em um estúdio móvel no meio do deserto, Eghass Malan é elétrico, mas menos energético que os de seus conterrâneos. Centrado nos vocais (incluindo aquele blululululu-ui superlegal) e com guitarras secas e sem distorção, o som hipnótico transpõe para a atualidade os sons rurais tradicionais dos nômades e faz nos sentir em meio a uma roda de tuaregues, debaixo de uma árvore às margens do rio Níger.

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Msafiri Zawose - Uhamiaji (Tanzânia)


O sobrenome Zawose é sinônimo de música na Tanzânia, onde a família é a principal representante da rica tradição cultural wagogo. Mas, Msafiri Zawose dá um passo adiante: Uhamiaji, lançado em março de 2017, mescla a sonoridade bantu de Zawose com as batidas que têm marcado boa parte da música popular da África Subsaariana nos últimos anos, criando um som ao mesmo tempo experimental e dançante.

A influência afrofuturista da música eletrônica congolesa é notável, mas a complexidade dos instrumentos tocados por Zawose - incluindo o zeze e a ilimba -, combinados à sua voz emotiva, a harmonias líricas intricadas e ricos arranjos jazzísticos, repletos de percussão, sintetizadores e instrumentos de sopro, contribuem para apontar os caminhos novos e cada vez mais experimentais para a música popular africana. (Como é possível ver nos lançamentos recentes de Guy One, Amadou et Mariam e Kondi Band)

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Charlotte Gainsbourg - Rest (França)


Arranjos orquestrais grandiosos convivem com muitos sintetizadores e uma cozinha impecável e tornam Rest um dos discos mais bonitos de 2017.

Composto logo após a misteriosa morte de sua irmã, o disco carrega a tristeza e o luto de Charlotte Gainsbourg, que implora "Reste avec moi s’il te plaît / Ne me laisse pas t'oublier" (Fique comigo, por favor / Não me deixe te esquecer) na canção que dá nome ao disco. Ao mesmo tempo, músicas como "Sylvia Says" e "Songbird in a Cage" (presente de Paul McCartney, que assume o piano, a bateria e a guitarra na gravação) simbolizam o triunfo da vida sobre a morte.

Rest é um disco maduro, completo e original, que merece ser ouvido muitas e muitas vezes e que certamente vai me acompanhar pelos próximos anos.

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Meridian Brothers - ¿Dónde Estás María? (Colômbia)


Ainda bem que eu demorei pra fazer essa lista, porque só descobri esse disco nos 45 do segundo tempo. E que grata surpresa. Folk, cumbiero e tropicalista, este é um disco radical dos colombianos do Meridian Brothers, que apresentam um verdadeiro passeio pela música latina, da cumbia ao reggaeton, passando pelos huaynos andinos e com toques de Caetano Veloso e Clube da Esquina aqui e ali.

Mas o som não tem aquela cara empoeirada de quem tenta imitar os sons do passado. ¿Dónde Estás María? consegue costurar uma fusão moderna, que mescla sons deliciosamente eletrônicos, um quarteto de violoncelos e, esporadicamente, guitarras distorcidas que fazem empalidecer até as invencionices pop psicodélicas de algumas bandas que eu adoro, como o Chicano Batman.

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Juana Molina - Halo (Argentina)


Quando Juana Molina abandonou uma promissora carreira como comediante na TV argentina, a crítica caiu de pau no seu primeiro disco. "Volte pra televisão", eles diziam.

Ainda bem que ela não voltou.

Halo é seu sétimo disco de estúdio e, possivelmente, o seu melhor. Eletrônicas e minimalistas, as músicas do álbum rompem os limites cada vez mais frágeis da canção pop, em muitos momentos usando a voz como instrumento ao lado de sintetizadores e batidas econômicas. Com estruturas aparentemente simples e repetitivas, Juana Molina cria um ambiente sonoro progressivo que lembra Steve Reich, em alguns momentos, Neu!, em outros, e que também remete à tradição bem argentina de vozes agudas e aveludadas (aliás, também presentes em outro bom disco argentino lançado em 2017: "Ahora", de Luca Bocci, coeso, apesar das limitações técnicas). Halo é um disco para ser ouvido com fones de ouvido e do começo ao fim, para que não se perca nenhum detalhe.

Ouça o disco completo AQUI

TootArd - Laissez Passer (Apátridas)


Às vezes, só de saber de onde uma banda veio, a gente já tem uma ideia do som que eles tocam. Mas e quando a banda não tem país?

Nascidos no vilarejo de Majdal Shams, nas Colinas de Golã ocupadas por Israel desde 1967, o integrantes da TootArd são apátridas. Embora vivam nominalmente em Israel, não têm direito a passaporte, mas apenas a um "laissez passer". O documento que indica sua delicada situação dá nome a esse disco cheio de energia, que mistura blues do deserto com rock psicodélico, reggae e música tradicional árabe, criando uma identidade sonora que, como eles, não tem pátria.

Ouça o disco completo AQUI

Zimpel/Ziolek - Zimpel/Ziolek (Polônia)


Os poloneses são os poloneses. Falo isso com conhecimento de causa. Há mais de dois anos toco toda semana um som polonês diferente no meu programa de rádio, o Esquisito Rádio Clube.

E o que começou com uma brincadeira, em uma escolha meio arbitrária (podia ter sido, sei lá, a Tailândia), acabou abrindo para mim um universo inteiro de músicas incríveis desde os anos 1950, até os dias de hoje.

Ainda nos tempos da Cortina de Ferro, os poloneses produziam uma quantidade invejável de ótimos discos de jazz, exportando músicos para o mundo todo e estabelecendo os alicerces do jazz fusion antes mesmo dos americanos.

Essa vocação para a vanguarda se mantém e, enquanto boa parte da música popular só tem olhos para o passado, Waklaw Zimpel e Kuba Ziolek sei têm olhos para o futuro. Pratas da casa da gravadora Instant Classic - que tem produzido alguns dos discos mais experimentais e interessantes dos últimos anos -, os dois se uniram para criar um disco sombrio e delicado, que revela, a partir de estruturas improvisadas, uma inclinação inesperadamente pop.

Ouça o disco completo AQUI

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Menções honrosas:

Kendrick Lamar - DAMN. (EUA)

Songhoy Blues - Résistance (Mali)

Amadou et Mariam - Bofou Safou (Mali)

Trio Da Kali e Kronos Quartet - Ladilikan

Björk - Utopia (Islândia)

Nadah El Shazly - Anwar (Egito)

Chicano Batman (EUA/México)

Miles Mosley (EUA)

Kamasi Washington (EUA)

Luca Bocci - Ahora (Argentina)

Arca - Arca (Venezuela)

Camille - Ouï (França)

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