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  • Acauam Oliveira

Ainda somos Tropa de Elite


O filme de José Padilha mirou para um lado, e acertou em cheio outro, muito mais revelador. E a intelectualidade de esquerda recuou em peso, horrorizada. Como em julho de 2013.

Uma das qualidades das grandes obras artísticas e intelectuais é dar forma e visibilidade a certo estado de espírito de uma época antes deste estar plenamente consolidado. São obras que em alguma medida captaram o espírito de seu tempo, permitindo compreender presente e futuro a partir de suas coordenadas, gostemos ou não do que se apresenta na imagem refletida. Por mais que o mundo dê voltas, o Brasil segue sendo um conto de Machado de Assis, uma peça de Nelson Rodrigues, Macunaíma, Claro Enigma, Terra em Transe. E nossa história recente segue sendo Tropa de Elite.

Agora está muito claro que a reorganização do campo conservador vem se formando não é de hoje. Mas quem atirou isso na nossa cara muito antes da consolidação que estamos acompanhando foi o fenômeno Tropa de Elite. O primeiro filme expunha pra quem quisesse ver que 1) o discurso hegemônico estava mudando de lado 2) o discurso de ódio tornava-se o modo privilegiado de enunciação 3) os novos heróis populares do país seriam todos mais ou menos como o capitão Nascimento, moralistas, rigorosos e anti-esquerdistas. Não por acaso trata-se de um filme de direita: a esquerda, que até então parecia estar vencendo como “nunca antes na história desse país” jamais teria coragem de assumir a derrota que, entretanto, estava batendo na sua porta, de maneira escancarada.

Mas também a passagem do primeiro para o segundo filme, que nomeei junto com o César Takemoto (aqui e aqui) de "recuo conservador à esquerda", é profundamente reveladora: diante da realidade que emerge com o sucesso absoluto de público do primeiro filme, que adere em massa a perspectiva protofascista do narrador ao invés de criticá-la (como era a aposta da “intelectualidade bem pensante”, para quem o “pobre de direita” é uma aberração conceitual, como se os vínculos entre a esquerda e povo se dessem magicamente, e não como resultado de um trabalho árduo e constante), o filme recua assustado para um tom moralmente mais palatável para um público esquerdista minoritário, mas predominante na bolha de cinema cult brasileiro. Movimento que também é profundamente revelador 1) da incapacidade da esquerda atual de lidar com a realidade que não é mera confirmação de seus pressupostos, quando atirada em suas fuças (julho de 2013 viria a confirmar isso na sequência) 2) da distância crescente entre os ideais da esquerda e o grosso da população (o que faz dela um alvo fácil, vide os recentes ataques as exposições artísticas) 3) do apego sintomático da esquerda a sua auto representação idealizada como moralmente superiora, e que desmorona ao menor contato com o Real.

Em suma, se o primeiro filme anunciava em primeira mão (a revelia de seus criadores) o processo que conduziria a gradual emergência de um novo “Messias” como Jair Bolsonaro, o segundo tentava desesperadamente fugir do assunto, fazendo Nascimento artificialmente declarar voto no PSOL. Em termos de construção de personagem, é de uma incoerência gritante (o que não deixa de ser também profundamente revelador). Não por acaso, o melhor diagnóstico desse movimento ideológico foi feito pelo finado Reinaldo Azevedo em pessoa: “Capitão Nascimento foi fazer Ciências Sociais na USP ou na UnB e já está pronto para ser militante do PSOL. Que pena!”. Justamente o que havia de mais interessante no filme – a figuração estética de uma força até então excessivamente difusa – perdeu-se na opção por certo didatismo do segundo filme, que buscava explicar ao expectador porque a opção Nascimento era um "equívoco", ao invés de olhar para si na tentativa de compreender o que tornava essa figura uma opção atraente e viável para a maioria da população.

Contudo, o que é ainda mais interessante e revelador da potência artística do filme, é que o Capitão do segundo filme, apesar das intenções ideológicas do diretor de converte-lo ao PSOL, ainda funciona como alegoria pra direita: ao invés do policial truculento (Bolsonaro), assume-se a máscara do moralista inflexível anti-corrupção (Sérgio Moro). Mesmo em seu recuo ideológico, o apego a verdade de sua matéria ainda deixava a mostra as contradições do país.

É nesse sentido que um filme acusado à época de ser mera propaganda ideológica fascista se mostra muito mais artisticamente revelador (e portanto, menos ideologicamente direcionado) do que um Que horas que ela volta, que tem o "coração do lado certo" (será?). Note-se o efeito de envelhecimento que a história impõe aos dois filmes: enquanto o país cada dia mais generaliza para todos a imagem de horror que no Tropa de Elite ainda se concentrava nas periferias, a visão positiva de Que horas ela volta parece ter regredido uns duzentos anos em pouco mais de um ano - e cada vez menos pessoas parecem dispostas a acreditar nela.

Nem sempre a verdade coincide com um conjunto de boas intenções ideológicas. Em arte, que dispensa cartilhas, quase nunca.

#cinema #AcauamOliveira

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