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  • Fernanda Ventomadeira

Faça o que eu falo


O que escolhemos deixar de ver quando vemos exclusiva e obsessivamente a nudez no episódio do MAM? A lógica não é a regra desse jogo, que ninguém parece saber jogar.

O Alexandre Frota é ator pornô, e um dos fundadores do MBL é do Bonde do Rolê ("quero te comer de pé, pico pico pico lé"), e todo mundo sabe que hoje em dia qualquer criança que tenha acesso a internet sem filtro acaba alguma hora assistindo pornografia e proibidão, gêneros que têm uma carga de violência sexual infinitamente maior do que a imagem veiculada da performance no MAM. Também é bom lembrar que a performance é um gênero da arte moderna e contemporânea que busca provocar ruptura e incômodo com relação aos padrões sociais, e que de fato não deixa de ser mimimi achar que a direita (ou quem quer que seja) não deveria reagir à "liberdade de expressão". O problema é o modo como ela reage.

A lógica e a sensatez não são, nem nunca foram, quem dita as regras do jogo. Ainda mais no Brasil. Mas também na Alemanha, ou em Israel.

Tampouco a ação liderada pelo ator pornô foi um ato político com reivindicações democráticas, do mesmo modo que a suspensão da exposição em Porto Alegre não foi fundada em valores morais do MBL. Trata-se de manipular o sentimento de medo e ódio que nos rodeia por meio da ideia de suposta defesa da moral e dos bons costumes numa guerra política sanguinária e totalmente imoral - para ficar nos termos em que se colocam tais líderes.

Talvez o que mais incomode na performance da exposição da Lygia Clark é a deserotização do nu, e não a erotização da criança. O nu como arte, os sentidos como percepção para além do desejo sexual, vão contra a moral de que o corpo existe apenas como objeto sexual, de preferência para ser usado e abusado dentro das normas violentas do patriarcado, com suas belas recatadas do lar, suas putas para o sexo anal (o homem gosta da mulher que é uma dama na rua e uma puta na cama, não é mesmo sr. presidente?), seus michês, sua pornografia e seus bondes do rolê. Observar um homem nu deitado - que não manifesta nenhuma expressão de sexualidade ou qualquer outra, está apenas ali -, tocar seu corpo, fazer massagem em suas canelas, é algo que a maioria das pessoas não consegue conceber como possível, por que não consegue conceber a nudez sem sexo, e o sexo sem violência. Não que a sexualidade não se apresente diante do nu apenas por ele ser artístico e não que ela não comporte tensões e ambiguidades diante das quais é cabível discutir a presença de crianças em certas exposições e espetáculos. Mas não é disso que se trata no momento que vivemos. Isso de fato é o que menos importa. Como disse o mano Acauam Oliveira, trata-se de dizer quem manda, e quem tem que ficar quieto enquanto está de quatro. Inclusive as crianças.

A sexualidade é talvez o campo mais intenso e difícil da experiência humana. É nele que se manifestam na carne as contradições das relações entre os gêneros, entre as pessoas, das relações sociais, entre o humano e o animal, entre cada ser e seu próprio corpo, suas noções de liberdade e autonomia. É nele que se manifestam as extremas fragilidades do desejo sexual, esse que inverte a lógica do cotidiano, perturba a lida da sobrevivência e leva os corpos a se penetrarem num êxtase maluco no qual perdem seu contorno habitual e por vezes experimentam uma morte prazerosa. Pasmem machos, que vocês também são penetrados no ato da penetração, e por isso é tão importante construir toda uma ideia de macheza para ter para onde regressar desse doce naufrágio. Talvez Nietzsche e o zen tenham razão, nosso sofrimento vem de não sabermos morrer.

Nos agarramos a nossos mecanismos de defesa como a tábuas no oceano, e por isso é tão cruel que nos arranquem nossas tábuas, por isso é tão importante usá-las para dar na cabeça de todo mundo e gerar ainda mais sofrimento. Mecanismos de defesa como a objetificação do outro (majoritariamente mas não só da mulher, é bom lembrar o alto índice de abuso de meninos, e as relações objetificantes que viraram a norma da sexualidade contemporânea para homens e mulheres), a violência sexual, a repressão sexual, as perversões (desde as mais bobas até as do maníaco do parque), e uma infinidade de desvios daquilo que temos dificuldade de reconhecer como desviante por natureza, são estes os pilares da nossa civilização bárbara. A nossa besta, o nosso Bicho, é muito mais animal do que qualquer animal. Por que é humano.

Talvez sejam os mesmos mecanismos de defesa que levam as pessoas a reconhecer uma violência sexual infantil no caso da performance do MAM, enquanto não consideram a própria existência das crianças no mundo de hoje como uma existência permeada de violência sexual. Quando eu era criança, na década de 90, eu dançava as músicas do É o tchan que diziam: "tudo que é perfeito a gente pega pelo braço, mete ela no meio, mete em cima, mete embaixo, depois de nove meses você vê o resultado..." Muitos anos depois passei por crises de pânico, e mais anos depois ainda percebi que os dois fatos tinham alguma ligação.

Quantas ligações estamos deixando de perceber, em quaisquer pontos que nos situemos do tão polarizado espectro político? Me interessa mais tentar entender as pessoas comuns que aderem a esses protestos de lideranças hipócritas, e não retroalimentar os discursos de ódio. Na página Jornalivre, do MBL, que noticia o fato, encontrei comentários como este: "Segundo o Museu de Arte Moderna de São Paulo, a menina de quatro anos apalpando um homem nu, com sua genitália exposta na cara da criança, foi apenas uma “deturpação do contexto”. Foi a nossa mente cheia de ódio e preconceito que viu algum mal em uma cena tão infantil. O MAM ainda informa que o tarado nu estava em uma sala fechada e que a menina estava acompanhada de sua mãe. Como se isso não deixasse a coisa ainda mais suja. Eles querem nos fazer de trouxas!".

Por algum estranho motivo estamos todos nos fazendo de trouxas uns aos outros, enquanto crianças fãs de Anitta apalpam homens nus em exposições de arte e atores pornôs machistas mobilizam protestos de redes sociais para angariar apoio à reforma da previdência. A obscenidade dos altos índices de estupro e do desmatamento da Amazônia, dos maiores estupros que assistimos no Brasil, não mobilizam tanto. A visão moderna de que a performance não continha conteúdo sexual violento para uma criança, apenas nudez artística, aparece como piada de mau gosto para boa parte da população brasileira, que enxerga pedofilia na situação, enquanto não vê nenhum mal em todas as crianças que são levadas todos os anos a assistir as mulatas e branquelas seminuas no carnaval do Rio, ao vivo ou pela Globo. Crianças vendo mulatas nuas no carnaval pode, menina tocando as mãos de artista nu em museu, não pode. Como eu disse, a lógica não é a regra desse jogo, que ninguém parece saber jogar.

Carnaval é lugar de gente feliz, museu é lugar de esquerdopata? O MBL é a direita transante que elege vereador gay e negro perseguindo gays e negros? País da piada pronta, ou colônia apocalíptica? Um crítico literário já dizia que no Brasil as ideologias servem ao uso pessoal de quem manda, variando conforme bate o vento. Eu não sou mãe, mas no momento que vivemos aconselho a mães e pais a preservarem dentro do possível as crianças da guerra cultural de mídias sociais a que estamos expostos, independente dos valores que acreditemos. Numa sociedade autoritária, ignorar a existência da repressão ou provocá-la com vara curta (a vara, meu deus, a vara) pode não ser das melhores estratégias, ainda mais quando envolve filhos. Idealizar uma sociedade sem repressão é pior ainda, hoje em dia então é maluquice das brabas, dessas que podem custar muitos rivotris. Mas quem não gasta com rivotril hoje em dia, né?

Eu não vi ninguém realmente preocupado em como a menina não identificada no vídeo pode estar se sentindo. Ela teve a sorte de não ter sido identificada, diferente do caso do menino fantasiado de Abu, mas com certeza sua vida agora está marcada por essa experiência, que poderia até ter suas contradições antes da exposição midiática, mas ficou muito pior depois do "protesto". Como disse o Marlin Mason sobre o massacre de Columbine, perpetrado por adolescentes que mataram a tiros seus colegas de classe e depois se mataram: "Eu vi muitas notícias a respeito da tragédia, mas em nenhum lugar eu vi alguém perguntar a esses meninos que sobreviveram como eles estão se sentindo." Com o perdão da comparação de tragédias, mas parece que estamos vivendo a cada dia inúmeras tragédias. E nós, que sobrevivemos a cada dia, como estamos nos sentindo?

Essa é a pergunta mais imoral de todas.

#FernandaWindholz #cultura #sexualidade

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