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  • Natália Leon Nunes

Triste, louca ou Má(llu Magalhães)


Triste, Louca ou Má”, nome da canção do grupo Francisco El Hombre, é a tradução da expressão “sad, mad or bad”, dos Estados Unidos, usada para falar de forma depreciativa das mulheres que escolhem ficar solteiras. Essa é a explicação dada por Juliana Strassacapa, única integrante mulher do grupo, que decidiu fazer a música depois de ler sobre o assunto. Pensando na repetição de relacionamentos ruins que já teve e no direito da mulher ficar sozinha ou fazer o que quiser, criou junto com a banda essa música, que se tornou um hit recente do feminismo brasileiro, sobretudo depois do lançamento de seu clipe. O clipe, gravado em Cuba, contou com a participação do grupo Danza Voluminosa, composto só por dançarinas negras e gordas.

Há dois meses, quando Mallu Magalhães lançou o clipe de “Você não presta”, uma série de textos criticando o racismo das cenas surgiu nas redes sociais. Acusada de repetir um velho esquema de hiper sexualizar corpos negros – que aparecem suados e descobertos, em contraposição à figura de Mallu –, além de mostrar os dançarinos num take complicado em que eles surgem por trás das grades, como se estivessem enjaulados, Mallu declarou, algumas semanas depois deste lançamento, que cantaria uma música para quem era preconceituoso e achava que branco não podia cantar samba. Mais uma polêmica nas redes sociais, mais uma vez o Brasil mostrando que leva 7x1, mas não passa vergonha na produção de memes.

As duas histórias, que aparentemente não têm nada em comum, me parecem parte de um mesmo processo, descrito em boa parte por Acauam Oliveira no seu texto Racismo, Anti-Racismo e Militância Virtual sobre o Caso de Racismo Envolvendo Élida Takimoto. Concordando com a afirmação do autor, de que há uma militância virtual que muitas vezes avalia a narrativa, a fanfic apresentada por determinada pessoa, penso que há, no caso da banda Francisco El Hombre, tentativas de fazer sucesso na internet se apropriando de pautas das minorias, e que a grande diferença entre a banda e Mallu Magalhães não está na qualidade de suas músicas ou nas suas trajetórias políticas distintas, mas numa receita seguida na música da banda que foi bem sucedida e bem recebida pelos ouvintes porque cumpriu certa cartilha.

O que diz a letra de "Triste, Louca ou Má"? Que assim será chamada a mulher que recusar a receita cultural. Que receita? A de ter marido e filhos, de cuidar deles e da rotina. A música, após apresentar essa previsão, dirige-se à mulher que escolhe ficar sozinha e diz que o que a define não é o homem, nem sua casa, nem sua carne. Depois, numa citação a Chico Buarque, descreve “Ela desatinou/desatou nós/ vai viver só”. Alternando a pessoa – a canção ora dirige-se à mulher, ora assume a voz da mulher, ora fala da mulher em terceira pessoa – a história continua sem muitas surpresas: a mulher que decidiu queimar o script, fazer a própria trajetória, não ser vítima conformada.

"A música não diz nada contra as mulheres. Mas também não diz nada de novo em relação ao discurso feminista."

A letra da música não diz nada contra as mulheres. Mas também não diz nada de novo em relação ao discurso feminista. E o feminismo no Brasil, para quem acompanha o debate, abriu-se para novos temas nos últimos anos: mulheres negras, mulheres transexuais, mulheres periféricas, mulheres gordas. Quantas vozes novas não surgiram? Quantas vezes o feminismo branco de classe média não foi questionado? Se é verdade que até hoje uma mulher escuta que deve se casar e ter filhos, o fato é que essas novas vozes questionaram a universalidade do discurso sobre a mulher, que não levava em conta características fundamentais de grupos que, dentro de uma minoria oprimida, são muito mais expostos à desigualdade, violência etc.. Como dizer que todas as mulheres são iguais se mulheres brancas não sofrem racismo, mulheres trans têm dificuldade de arrumar emprego, mulheres gordas sofrem gordofobia?

A letra de “Triste Louca ou Má” não fala sobre essas nuances, sobre as violências escondidas num discurso supostamente universalista de um feminismo branco, não traz à tona todos os conflitos gerados recentemente no interior do feminismo (para citar um, é sabido que parte das feministas radicais são contra mulheres transexuais usarem o banheiro feminino, pois acham que podem ser assediadas pelos figuras que elas consideram homens e, por isso, opressores). O que é cantado é o consenso, um discurso que é aceito por todas. Suas palavras não causam incômodo. São autorizadas por todos os feminismos atuais. O conteúdo aceito, mais totem do que tabu, é excessivamente didático. Parece um discurso feito num ato feminista, de cima de um carro de som. Discurso que não é problemático, mas que parece empobrecido. Sobretudo quando a música, na sua forma, se assemelha muito à produção de uma parcela já conhecida da nova MPB – não é difícil imaginar Maria Gadu cantando-a e substituindo a letra por ximbalaiê.

Seria interessante pensar na música de Chico Buarque que aparece na letra. Ela desatinou, do Chico, fala mais da figura da louca do que da mulher que decidiu não seguir um roteiro: ela desatinou e continua sambando mesmo depois do fim do carnaval. Carnaval, período da folia e da insensatez. A personagem de Chico Buarque segue sambando apesar do fim da quarta-feira de cinzas. Enquanto as pessoas seguem a farsa da “falsa vida” do dia normal – a a palavra não parece ter sido escolhida à toa – ela segue sambando. E quem a olha, inveja a infeliz, feliz. Pois ninguém quer ser louco – esse do desatino, do delírio, incapaz de reconhecer normas sociais – mas é o louco que, no seu sofrimento, goza da possibilidade de seguir no carnaval.

A letra lembra outra canção de Chico Buarque, “Dura na Queda”, que também fala de uma mulher “perdida na avenida”. Largou a família, perdeu o emprego e segue sambando. Aqui, Chico explicita a infelicidade desta louca que continua dançando depois do fim do carnaval: “Já apanhou à beça”. E quem, numa avenida brasileira, samba fora de hora e apanha? Certamente alguém que pertence a um grupo cuja carne vale menos. Aquela que desatina, que samba fora de hora, não está dentro da normalidade porque parece, pela descrição de Chico, ainda que sem referências ao fenótipo da sua protagonista, ser pobre, da rua. Afinal “bebeu veneno” , cambaleia, é uma flor, mas é também “ferida aberta”. Chico não fala de Gisele Bündchen sambando em comercial das Havaianas nem das moças dos bloquinhos de carnaval do Leblon. Sabemos como uma parte das letras de Chico descreve personagens da rua, marginalizadas – o malandro, aquele que canta debaixo da ponte mambembe etc.. No caso dos dois exemplos citados acima, a qualidade das canções vêm não só da letra, que explora a ambiguidade desta figura de rua (feliz e infeliz, aquela que apanhou, mas terá sua estrada iluminada), mas do próprio ritmo: “Dura na queda”, por exemplo, tem ritmo cambaleante, tal como as passistas fora de hora.

Dura na Queda” tem versão conhecida cantada por Elza Soares, bom exemplo de figura da música brasileira que é diametralmente oposta à banda Francisco El Hombre. No seu último álbum, “Mulher do Fim do Mundo” a cantora faz sua versão de "Maria da Vila Matilde", de Douglas Germano. Nascida na favela, negra, ex-operária, ex-empregada doméstica, Elza não descreve personagens marginalizados, como faz parte da obra do Chico, já que é essa personagem: a mulher oprimida que agora levanta sua voz contra o agressor. Quando fala de ligar para o 180 e diz ao o homem “ce vai se arrepender de levantar a mão pra mim”, não descreve de forma quase escolar a situação da mulher que escolhe seguir seu caminho, como quem fala num texto sobre feminismo para não iniciados. A vida de Elza é esse caminho percorrido. Caminho, aliás, que funciona como contraprova do que Francisco El Hombre diz quando anuncia que “sua carne não te define”. Define sim, e Elza sabe disso, pois já nos cantou que a carne mais barata do mercado é a negra. Sua militância, seu discurso político, não é nova fase da sua carreira, mas sua própria história. Há alguns meses, quando aconselhada a não falar de política, ela replicou “Eu não falo sobre política. Meu show é um ato político.”

Basta pesquisar o passado da banda Francisco El Hombre para saber que seus primeiros álbuns não falam de política, de feminismo etc.. Com repertório grande em espanhol, a banda gosta de fazer mochilões. Vale olhar para o clipe da música Nudez, lançado em 2013: um grupo de amigos que sai fazendo um mochilão pelo Brasil. Saem de suas casas, despedem-se dos pais. Na estrada, interagem com um menino de traços indígenas, falam simpaticamente com o dono de um pequeno bar que é negro, e seguem viagem. Essas personagens não têm lugar de fala na história, são meros figurantes. Um dos mochileiros é loiro e toca violão na praia, rodeado de pessoas brancas e jovens. Depois põe uma tela numa praça e começa a fazer sua arte. O clipe é todo marcado por cenas de viagens de jovens brancos de classe média que experimentam a descoberta do mundo, da liberdade, em cachoeiras, luaus, festas. Não há nenhum problema nisso tudo, mas é interessante pensar como, em 2013, o discurso de liberdade e felicidade da banda ainda não está atrelado ao discurso da luta feminista. Não trago esta informação para acusar a banda de incoerência – uma palavra usada exaustivamente hoje para condenar pessoas que nem sempre se posicionaram politicamente. Ninguém nasce feminista, torna-se (diria uma certa francesa que caiu no Enem). Mas, sem dúvidas é interessante observar a mudança de uma banda que se politiza ao longo da trajetória.

"A atitude de protestar é cool, contra o status quo, e agora pode ser comprada"

Em janeiro de 2016, o grupo lança um clipe que indica essa transição recente: Calor da Rua. A letra fala de Maria, “cansada de apanhar” e José, “que se arrasta na cidade”. A descrição dos dois é apresentada junto com o coro que diz “não sou pedra, mas posso endurecer”, “não sou lenha, mas incendeio”. No refrão “Já sei pra onde eu vou/ eu vou sentir o calor da rua”. Assim como "Triste Louca ou Má", a letra parece trazer uma série de consensos, obviedades que não trariam discussões e polêmicas dentro da esquerda: José e Maria, trabalhadores que sofrem e apanham, e um grito que convida-os a ir às ruas. Nada mal. O clipe dessa história simples é, todavia, no mínimo curioso. Cenas de uma festa em que todos os participantes estão pintados e fantasiados numa estética que lembra a dos Secos e Molhados, um homem (José?) que caminha por um lixão e vai comprar cachaça no bar, uma mulher (Maria?) amordaçada dentro de um banheiro que é invadido por figuras pintadas e fantasiadas, lembrando de leve a aparência de zumbis de filmes de terror, uma televisão que mostra mulheres negras, o nome de Belo Monte, os secundaristas apanhando da polícia em São Paulo no final de 2015. A somatória das imagens parece indicar momento de transição da banda porque já há a referência às manifestações de rua, mas ainda não há clareza do discurso das imagens apresentadas. Os jovens que experimentavam a liberdade dos mochilões e cantavam em espanhol agora cantam em português e mostram cenas de protestos na tevê, mas mesclam isso com uma estética saudosista (Secos e Molhados) e outros signos (zumbis, protestos). Postas lado a lado, as imagens perdem seu sentido, funcionam como símbolos sem lastro – valeria pensar nas muitas propagandas de tevê que, depois de junho de 2013, mesclaram imagens de seus produtos com cenas de manifestações de rua, estetizaram-nas, ressignificando as manifestações (a atitude de protestar é cool, contra o status quo, e agora pode ser comprada, invertendo a lógica dos atoas que desencadearam as jornadas de junho e uma de suas palavras de ordem mais conhecidas: não é por 20 centavos, é por direitos). Talvez o ápice desta apropriação tenha sido a joalheria que contratou Bárbara Paz para ensaio com inspiração nos black blocks.

Triste Louca ou Má” sai deste impasse, da mescla de imagens que mistura cenas de lazer da classe média com fotos dos secundaristas. Sem ambiguidades nas imagens, o clipe mostra mulheres cubanas dançando num espaço privado. Saindo dos cômodos em que se encontram paradas, experimentam passos de dança contemporânea, improvisam – rasgam o script imaginado para a mulher que é triste, louca ou má. Ao lado desse hit, está “Bolso Nada”. Agora, no lugar do grupo de dança cubana, elemento que garante certo lugar de fala e espaço para minorias, há a participação de Liniker e os Caramellows. A letra basicamente fala que Bolsonaro é um escroto e não sabe do que diz. Se até “Calor da rua” a apropriação de símbolos políticos (como a cena da secundarista que ilustrou diversos memes cuja frase era “lute como uma garota”) ainda se mistura à festa da banda que faz mochilões, com as músicas sobre a mulher que decide viver só e o deputado Bolsonaro a cena da festa some. No lugar dela, um discurso sem muitas nuances, didático, discurso do consenso.

Enquanto Mallu Magalhães segue fazendo músicas da MPB neo-indie que falam de amor, festa, da banda mais bonita da cidade, numa alegria alheia a conflitos – de raça, de classe, de gênero, claro, mas também a conflitos em geral, com letras que falam da alegria possível e sem entraves, da conciliação da amizade, do sonho de vida realizado – Francisco El Hombre parece apostar, como têm feito muitas empresas, em nova fase da banda que agora é sensível ao sofrimento das mulheres, das vítimas do Bolsonaro etc.. Obviamente há uma diferença entre os discursos, mas poderíamos pensar se há de fato uma potência crítica em músicas como “Triste, Louca ou Má”, cuja forma é muito próxima das bandas mais bonitas da cidade e do mar e cujo conteúdo é panfletário e pouco provocativo, uma vez que fala do conteúdo político que já é aceito por certo público progressista – pode ser que nem todo mundo seja simpático à reforma agrária ou à política de cotas nas universidades, mas é bem provável que boa parte deste público ache o Bolsonaro um escroto. As letras só fazem apostas baixas, denunciam o que todo mundo já denunciou, concordam mais do que discordam e permanecem em terreno seguro.

Mas além desse ativismo do consenso, sem grandes ousadias, há em “Triste, Louca ou Má” uma marca de parte do feminismo atual que ajuda a explicar o sucesso do hit. Basta passar os olhos nos comentários do youtube ao clipe de "Triste Louca ou Má" e ver que muitas mulheres falam de como a música as ajudou. Saídas de relacionamentos abusivos, elas ouviram a música e se apoiaram nela para viver uma fase ruim da vida. Que as músicas cumpram funções em lutos, separações e superações da vida das pessoas, não é nenhuma novidade. A novidade é pensar que uma música seja considerada política e revolucionária por cumprir essa função – do consolo no âmbito privado. Não que o sofrimento de alguém que passou por relação machista deva ser menosprezado, mas ainda assim, é esse o horizonte apontado pela música de uma banda politizada da nova MPB? Se for, convenhamos, ele não é nada novo nem revolucionário – quem nunca escutou “I Will Survive” ou “Olhos nos Olhos” em momento difícil que atire a primeira pedra. “Você não Presta”, música do clipe polêmico de Mallu Magalhães, aliás, pode servir ao mesmo propósito.

Triste Louca ou Má”, sem transgredir ou inovar no conteúdo ou na forma, reduz seu sentido político ao consolo, ao colo, à autoajuda. Nesse ponto, converge com algumas ações do feminismo recente. Se há um ganho inquestionável nos muitos relatos expostos na internet nos últimos anos, em que mulheres narram violências sofridas – em relações abusivas, em contextos em que, por serem negras ou gordas, foram discriminadas, em espaços de militância em que foram silenciadas por homens – parece que, junto com isso, surge um discurso do feminismo que entende a luta muito atrelada ao fortalecimento da auto-estima das mulheres. Sem dúvida, não é pouca coisa poder criar espaços em que mulheres historicamente excluídas e oprimidas podem ser chamadas de bonitas, empoderadas, lacradoras. Sem questionar a existência dessas práticas, poderíamos nos perguntar se, junto com eles, não há um esvaziamento de pautas importantes do feminismo. Em 2015, Cynthia Samiramis escreveu esse texto e foi massacrada nas redes sociais. Exponho-o aqui porque acho que ele traz pergunta importante acerca das reivindicações, práticas e pautas feministas hoje. "Triste, Louca ou Má" parece endereçado às feministas dessas práticas. Da mesma forma, "Bolso Nada" agrada o público progressista que está estarrecido com o crescimento da intenção de voto para Bolsonaro presidente em 2018. Mas da mesma forma como discurso dirigido às mulheres, não funciona como música que questiona, mas que dá exatamente o que os ouvintes querem.

Num momento de retrocesso, de perda de direitos básicos e crise política brasileira, a esquerda tem tido dificuldade em se organizar – penso aqui nos fatos recentes: atos em apoio ao Lula que foram pequenos e nenhuma organização de manifestação contra a reforma trabalhista que acaba de passar – surgem diagnósticos como o de Boulos, que nota a perda de capacidade da esquerda de fazer trabalho de base, dialogando com pessoas, chamando-as pra luta. Bolsominions e todo o aparato de gifs, memes e vídeos produzidos para rir da aberração ética e cognitiva (apelido inspirado por vídeo conhecido da Marilena Chauí) que é Jair Bolsonaro podem ser muito engraçados, mas também atestam nossa incapacidade de ir além do humor- lembro aqui do comentário de Hegel (com o perdão dessa citação no texto) sobre a ironia, o cinismo e o riso, práticas comuns em momentos de crise ética e política, em que a realidade torna-se toda passível de piada. “Bolso Nada” fala, em forma de música, o que repetimos todos os dias nas redes sociais. Não é uma afronta a ninguém – Bolsonaro já foi xingado de muitas formas – nem indica caminho pra sairmos deste limbo. É uma música que temos pra chamar de nossa.

"Sem transgredir ou inovar, “Triste Louca ou Má” reduz seu sentido político ao consolo, ao colo, à autoajuda."

Não penso, de forma alguma, que exista uma regra para a forma ou o conteúdo de qualquer música, nem que a arte e a cultura tenham necessariamente que falar de política – ninguém vai deixar de dançar “Odara” ou “Segura o Tchan” só porque elas não tematizam as opressões – mas a partir do momento em que uma música se declara feminista, revolucionária, politizada, vale pensar se seus conteúdos e sua forma carregam, de fato, algo de revolucionário e feminista. E se nessa avaliação descobrimos que não há grande proposta, transgressão, ousadia na canção apresentada, vale, enfim, diante de Triste, Louca ou Má e Você não Presta perguntar: há diferença substancial entre as duas? Quando aplaudimos uma música porque ela diz exatamente o que decidimos que é correto dizer, estabelecemos um modelo daquilo que “cola”. Além de apreciarmos o que opera na lógica da identidade e não da diferença, além de deixarmos de olhar para cada música ou texto em particular para então formularmos um juízo, entregamos o jogo para todo mundo, inclusive para quem se coloca numa posição contrária à nossa – é impressionante a quantidade de propagandas de partidos que apoiaram o impeachment, a reforma trabalhista, a PEC do fim do mundo, e a centralidade de mulheres que falam de luta e de direitos nas suas propagandas na tevê.

Quando as polêmicas de Mallu Magalhães vieram à tona, pensei imediatamente no casal de atores globais Bruno Gagliasso e Giovana Ewbank. Milionários, brancos e de olhos azuis, eles têm ocupado lugar de destaque nas redes sociais e nos veículos de notícias sobre famosos desde que adotaram Titi, a menina do Malawi que agora mora no Brasil. Com 4 anos recém feitos, a criança figura não só as postagens dos seus pais, como é presente em instagrams de diversas celebridades. Sua hiper exposição e a comoção presente em todos os textos que lhe dizem respeito vem acompanhada do discurso de Giovana que, depois de se separar do marido em 2012 por dois meses, por conta de uma traição, relata que hoje os dois são mais fortes e companheiros e coloca Titi como personagem importante dessa reunião mais madura. Acho ótima a postura de casais que adotam crianças, mas não deixo de notar na narrativa do casal: como Angelina Jolie e Brad Pitt, adotam uma criança do Sul da África, não da Favela da Rocinha.

Trazida para o Brasil, ela provoca frenesi no mundo das celebridades. Sua presença atesta a humanidade e a ausência de racismo de seus pais, ao mesmo tempo em que ocupa cenários como Fernando de Noronha, destino turístico caro e elitizado. No lugar dos ricos e famosos, a criança é uma exceção na maioria branca. Exceção, no entanto, que não denuncia o racismo ainda presente no Brasil, mas coloca-o como coisa do passado: agora uma menina do Malawi frequenta as festas chiques e glamorosas. Quão distante do discurso racista de Mallu Magalhães está a fascinação com Titi? Não seriam essas duas histórias apresentadas às redes sociais semelhantes, compostas por imagens em que negros e brancos dançam juntos, como se não houvesse mais racismo e desigualdade? Não estariam as duas separadas não pelo modo de vida de Mallu e do casal global, por suas posições políticas, mas pela recepção das narrativas apresentadas – a história bem recebida do casal e os tiros no pé de Mallu Magalhães? Quando Mallu foi acusada, uma série de fãs seus reclamou da patrulha, do exagero do movimento negro, do racismo que está só nos olhos de quem vê. Quem não garante que essas mesmas pessoas não curtem as fotos de Titi, a criança mais fotografada do Rio de Janeiro?

"Triste, Louca ou Má", nesse contexto em que falar das minorias e dar voz a elas entrou na moda, surge como mais uma produção de narrativa que obteve sucesso. O problema é que se uma banda de classe média que faz nova mpb é radicalmente diferente da outra só porque introduziu dizeres feministas em uma música e seguiu o tutorial de como ser de esquerda atualmente isso indica que talvez nós, que ouvimos essas músicas e decidimos se elas são de luta ou pelegas, empoderadas ou machistas, pró-negros ou racistas, além de desconsiderarmos a forma, pensando só no conteúdo da letra, estamos caindo num papinho barato e agindo como quem, para acreditar que o outro não é homofóbico, por exemplo, só precisa ver o avatar do arco-íris no Facebook. Que não seja assim e que nossa avaliação positiva de músicas não vá pra qualquer um que grite "Bolso Nada" ou Receita Cultural – pro meu consolo, ao menos no domingo eu sei que ela não vai.

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Natália Leon é professora de Filosofia, noveleira profissional, libriana e são-paulina não praticante.

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